Quem cresceu, como eu, vendo Wile E. Coyote perseguir o Papa-Léguas conhece a expectativa diante de uma caixa com o logo “Acme”. Dali viriam os meios necessários para encurtar o caminho entre ideia e solução. Mas, episódio atrás de episódio, nosso anti-herói terminava a missão no fundo de um precipício. No episódio seguinte, outra encomenda. A confiança no fornecedor sobrevivia a qualquer queda.
No último fim de semana, mergulhei na nostalgia e fui ao cinema ver Coyote vs. Acme. No filme, nosso azarão Coyote decide processar a fabricante. Depois de tantas tentativas frustradas, passa a questionar a responsabilidade de quem forneceu as ferramentas para executar seus planos. Trouxe essa mudança de perspectiva para examinar o ecossistema brasileiro de inovação, tão acostumado a avaliar a capacidade do empreendedor de resistir.
Como sabemos se o apoio oferecido ajudou a empresa a avançar?
Em conversas com founders de biotecnologia, tenho percebido a oscilação entre o entusiasmo pelas descobertas e a inquietação diante da dificuldade de financiar a etapa seguinte. Ouço também o receio de apontar limitações dos mecanismos de apoio e fechar portas das quais ainda dependem ou podem vir a depender. Esse receio pode deixar fora da conversa pública informações importantes para melhorar o apoio oferecido. Há uma distância entre o que se consegue dizer na coxia e o que cabe no discurso diante dos holofotes.
Um prêmio pode ser uma conquista real para alguém que continua preocupado com a sobrevivência da empresa. O agradecimento público e a frustração privada podem coexistir. Essa dependência, porém, dificulta uma conversa necessária: como corrigir um programa se apontar suas limitações parece colocar em risco a próxima oportunidade?
O caminho até o paciente
Uma notícia recente ajuda a olhar para o que antecede uma conquista tecnológica. Em 14 de setembro, o New York Times relatou que uma participante do estudo clínico da Paradromics conseguiu conversar usando uma interface cérebro-computador. A mulher, com uma doença neurológica que compromete sua fala, comunicou-se por uma voz gerada pelo sistema, inclusive com os netos pelo telefone.
O dispositivo decodifica sinais cerebrais associados à fala. A empresa também relatou resultados com palavras imaginadas, sem tentativa de pronunciá-las. É um avanço inicial em neurotecnologia: na data da reportagem, os resultados ainda não haviam sido publicados em periódico nem revisados por pares. Sua aplicação em larga escala continua dependendo de pesquisa e validação.
Há outra parte dessa história que merece atenção. Em 2021, a Paradromics anunciou US$3,2 milhões de apoio do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, com participação do Massachusetts General Hospital. O comunicado registrava uma rodada de investimento privado e apoio público anterior dos Institutos Nacionais de Saúde e da DARPA, agência americana responsável pelo desenvolvimento de tecnologias emergentes em defesa.
A trajetória reúne recursos e parceiros para fazer a tecnologia avançar até a pesquisa clínica. Esse percurso ajuda a formular uma pergunta para o Brasil: como conectar os recursos necessários a cada etapa? Para uma biotech que desenvolve um tratamento, o próximo passo pode depender de produzir um lote adequado aos testes e financiar o estudo. A necessidade é complexa demais para caber numa orientação genérica sobre como empreender.
Minha experiência com empresas de base científica treinou meu olhar para prestar atenção ao que acontece depois da seleção para um programa. Uma estrutura de apoio precisa conhecer o ponto de partida de cada empresa e acompanhar os avanços e os obstáculos de cada etapa. Sem isso, tentar demonstrar quanto a incubação ou a aceleração contribuiu para o resultado é mais difícil do que ler pensamento sem a interface da Paradromics.
O que acontece depois da seleção
Antes de lançar uma nova turma de aceleração, especialmente onde já existe oferta de apoio, vale examinar a trajetória das startups já atendidas. Quais avançaram? Onde encontraram obstáculos? Essa avaliação pode justificar um programa especializado ou indicar que a prioridade está em infraestrutura de testes, apoio à produção e acesso a compradores.
Essa escolha exige distinguir maturidade tecnológica de maturidade comercial. O TRL, escala usada para indicar o grau de desenvolvimento de uma tecnologia, não informa sozinho se a empresa sabe quem vai comprá-la. E uma proposta comercial convincente tampouco demonstra que um produto está pronto para uso. O apoio precisa considerar as duas dimensões.
Diversificar estrategicamente a oferta significa desenhar intervenções para neutralizar esses problemas. Um hospital pode participar da definição de um estudo ou de um piloto com critérios de avaliação. Uma indústria pode ajudar a desenvolver o processo produtivo. Quem financia precisa considerar o prazo e o risco da etapa. O empreendedor deveria conseguir identificar uma possibilidade de continuidade quando o programa de aceleração termina.
E estar preparado para o que pode dar errado. Um ensaio pode demonstrar que uma hipótese não se sustenta. Um piloto pode indicar que a solução precisa mudar ou que não vale a pena prosseguir. O apoio também cumpre uma função quando permite tomar essas decisões com evidências. Avaliar um programa exige considerar o estágio da empresa e o que ele efetivamente se propôs a oferecer.
Quem ajuda a formar mercado?
A demanda também precisa entrar nessa conta. Na Índia, o GeM Startup Runway abre um canal para startups oferecerem produtos e serviços a compradores governamentais. A China criou um instrumento de compras para inovação que combina compartilhamento do risco de desenvolvimento e aquisição dos produtos que atendam ao contrato. São mecanismos distintos que colocam o poder de compra do Estado na discussão.
O Brasil tem instrumentos nessa direção. Em julho, o Ministério da Saúde abriu uma consulta para estruturar uma encomenda tecnológica de um dispositivo portátil de diagnóstico de tuberculose. A demanda sanitária orienta o desenvolvimento pretendido. A iniciativa, ainda estava em estruturação no anúncio, o que reforça a importância de acompanhar o caminho entre intenção, contratação e entrega.
A promessa de acelerar
Uma oferta de aceleração cria uma expectativa de avanço. Sua credibilidade depende da coerência entre o que anuncia e a experiência que entrega. Por isso, é saudável esperar que a organização responsável explique qual avanço ajuda a produzir e apresente evidências compatíveis. Um prêmio demonstra reconhecimento segundo os critérios daquela seleção. Um teste clínico produz evidências sobre uma questão científica. Um contrato registra uma decisão de compra. Esses resultados têm funções diferentes na trajetória da deep tech.
A promessa de acelerar precisa ter um alcance claro. Quem participa deve entender o que pode esperar daquele apoio, e quem o oferece precisa acompanhar sua contribuição. É esse conhecimento que permite corrigir programas e conectar oportunidades hoje dispersas.
O Coyote já mostrou disposição suficiente para tentar outra vez. Antes de preparar a próxima caixa, vale entender por que a anterior não resolveu o problema.
Por Kelly Nascimento, fundadora da Kaus Media