Sempre que falamos em soberania nacional, pensamos em território, instituições, leis e autonomia para tomar decisões. Tudo isso continua essencial. Mas existe uma dimensão que ganhou importância estratégica no século XXI e que é a soberania tecnológica.
Se amanhã as principais empresas de tecnologia do mundo interrompessem seus serviços no Brasil, quanto tempo nossa economia continuaria funcionando normalmente?
A resposta provavelmente seria: não por muito tempo.
Não se trata de defender isolamento econômico, protecionismo ou produzir tudo dentro de casa. Nenhum país faz isso. A economia digital é global, baseada em cadeias de suprimentos distribuídas , especialização produtiva e intensa colaboração internacional.
Qual é o grau de dependência que um país pode ter de tecnologias desenvolvidas por outros sem comprometer sua capacidade de decidir, inovar e continuar funcionando?
Quando olhamos para o Brasil, percebemos que uma parte significativa da infraestrutura digital sobre a qual nossa economia opera foi construída por empresas americanas.
Praticamente todos os smartphones utilizados pelos brasileiros funcionam com Android, do Google, ou iOS, da Apple. A maior parte dos computadores utiliza Windows, da Microsoft, ou macOS, da Apple. Grande parte da computação em nuvem utilizada por empresas brasileiras está concentrada em AWS, Microsoft Azure e Google Cloud. Os principais modelos de inteligência artificial, como ChatGPT, Claude, Gemini e Grok, foram desenvolvidos por empresas americanas. Navegadores, plataformas de produtividade, ferramentas de desenvolvimento, videoconferência, colaboração corporativa e boa parte dos serviços digitais que utilizamos diariamente seguem a mesma lógica.
Os processadores que movimentam nossos computadores, celulares, equipamentos industriais e servidores são projetados por empresas como Intel, AMD, NVIDIA, Qualcomm e ARM e fabricados, em grande parte, em países como Taiwan e Coreia do Sul. Os roteadores que conectam nossa internet, os equipamentos de telecomunicações, muitos componentes das redes elétricas, satélites, sensores industriais e até equipamentos hospitalares dependem de cadeias globais extremamente concentradas. Mesmo quando a fabricação ocorre em outros países, grande parte da propriedade intelectual, das arquiteturas de chips, dos softwares de projeto, dos sistemas operacionais ou da cadeia de valor permanece fortemente vinculada a empresas dos Estados Unidos.
Isso não representa um problema, muito pelo contrário. É uma demonstração da extraordinária capacidade que os Estados Unidos tiveram de transformar inovação em liderança tecnológica global.
Mas a reflexão importante não é sobre os Estados Unidos, é sobre o Brasil.
Será que estamos construindo competências tecnológicas capazes de reduzir nossa dependência em áreas consideradas estratégicas?
O PIX é um bom exemplo para ajudar a entender essa diferença.
Seu sistema central foi concebido, desenvolvido e é operado pelo Banco Central do Brasil. Sua governança, liquidação financeira e infraestrutura crítica são nacionais, fazendo do PIX um dos maiores exemplos de inovação tecnológica já produzidos pelo país e uma referência mundial em sistemas de pagamentos instantâneos. Trata-se de um grande avanço da engenharia e da capacidade tecnológica brasileira.
Mas a inovação não termina no sistema central. Milhões de brasileiros acessam o PIX diariamente por meio de celulares que utilizam Android, do Google, ou iOS, da Apple. Os aplicativos bancários são distribuídos pelas lojas dessas plataformas, desenvolvidos com ferramentas criadas majoritariamente por empresas americanas e executados sobre processadores, sistemas operacionais e componentes inseridos em cadeias globais de tecnologia.
Isso mostra que as duas afirmações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: o Brasil desenvolveu uma infraestrutura financeira de excelência reconhecida internacionalmente e, ao mesmo tempo, essa infraestrutura se conecta a um ecossistema digital global cuja principal porta de entrada continua concentrada em plataformas tecnológicas dos Estados Unidos.
Essa realidade não é uma exceção brasileira. Ela apenas evidencia como a economia digital moderna é construída em diferentes camadas de dependência tecnológica.
Acredito que justamente essa percepção que explique por que a China investiu e investe pesadamente para desenvolver sua própria cadeia tecnológica e reduzir dependências consideradas estratégicas. A União Europeia também vem fortalecendo sua autonomia digital. Índia, Japão e Coreia do Sul seguem estratégias semelhantes.
As maiores economias do mundo entenderam que tecnologia deixou de ser apenas um setor econômico. Ela passou a ser infraestrutura crítica, segurança nacional, produtividade, competitividade e influência geopolítica.
Talvez essa seja uma das discussões mais importantes que o Brasil precisa fazer.
Não para substituir a integração global, nem para abandonar parcerias internacionais. Mas para ampliar nossa capacidade de desenvolver propriedade intelectual, formar talentos, fortalecer empresas nacionais de tecnologia, produzir conhecimento, investir mais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e ocupar posições mais relevantes nas cadeias globais de inovação.
Soberania tecnológica não significa fazer tudo sozinho. Significa possuir competências suficientes para que o futuro do país dependa cada vez mais das decisões que tomamos aqui e cada vez menos das decisões tomadas em outros lugares.
Este não é um debate sobre esquerda ou direita. Tampouco é uma crítica aos Estados Unidos, cuja liderança tecnológica é resultado de décadas de investimento em pesquisa, inovação e empreendedorismo.
É uma reflexão sobre qual papel o Brasil deseja ocupar nas próximas décadas: continuar sendo predominantemente consumidor das tecnologias que transformam o mundo ou se tornar também um protagonista na construção delas.
Somente quando avançarmos nessa direção poderemos falar em soberania nacional em toda a sua amplitude, porque, no século XXI, não existe soberania plena sem soberania tecnológica.
Pense nisso!



