sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Avanço da inteligência artificial no cuidado domiciliar atrai investimentos diante do envelhecimento populacional

Renato Tilkian, Angelina Clarke, Michael Kapps. Empreendedores que apostam no mercado de cuidados domiciliar.
Startups apostam em automação de processos e coordenação de equipes para mitigar a escassez de estrutura assistencial e otimizar a gestão do atendimento a idosos.

A integração de ferramentas de inteligência artificial e automação à gestão do cuidado domiciliar tem impulsionado a atração de capital de risco para empresas de tecnologia em saúde. O movimento responde à transição demográfica acelerada e à necessidade de coordenar rotinas assistenciais de longa duração, reduzindo gargalos administrativos e ampliando a capacidade de atendimento.

A urgência por soluções no setor é respaldada por dados populacionais. Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), enquanto países europeus como a França levaram cerca de 140 anos para dobrar a proporção de idosos em sua estrutura demográfica, o Brasil atravessará essa mesma transição em 25 anos. O ritmo acelerado expõe limitações na oferta de profissionais capacitados e na infraestrutura dedicada ao acompanhamento continuado.

No cenário internacional, empresas norte-americanas como Adaptive Innovations e Figure Health captaram novos aportes para expandir plataformas focadas na coordenação de equipes e no suporte operacional ao atendimento residencial. No mercado brasileiro, a healthtech Sanii levantou R$ 13 milhões em rodadas de investimento lideradas por fundos como Valor Capital Group, Norte Ventures, Seedstars e Sororitê Ventures para desenvolver tecnologias voltadas à gestão do cuidado de idosos frágeis e pessoas com limitações cognitivas ou motoras.

A operação da empresa combina a seleção e acompanhamento de cuidadores, auxiliares e técnicos de enfermagem ao uso de sistemas proprietários. A estrutura contempla o Sanii Matching, algoritmo para seleção de profissionais com base no perfil do paciente; o Sanii Mobile, voltado à gestão de escalas e plantões; e o Sanii Care IA, utilizado no registro e monitoramento das condições de saúde dos atendidos.

“Quando a informação chega à pessoa certa no momento certo, o cuidado acontece de forma muito melhor. Nosso foco é construir ferramentas que reduzam o trabalho administrativo e permitam que os profissionais dediquem mais tempo ao que realmente importa, que é cuidar das pessoas”, afirma Michael Kapps, cofundador da Sanii.

A utilização da tecnologia busca também resolver a fragmentação da comunicação entre familiares, cuidadores e equipes médicas. Ao centralizar o histórico e o planejamento assistencial, as plataformas visam garantir a continuidade do atendimento e a previsibilidade das rotinas.

“As famílias estão convivendo com situações cada vez mais complexas dentro de casa. Existe uma necessidade crescente de coordenação entre profissionais, familiares e equipes de saúde. A tecnologia ajuda a organizar essa rede e trazer mais previsibilidade para todos os envolvidos”, diz Renato Tilkian, executivo e cofundador da empresa.

A atuação dessas soluções estende-se à articulação com hospitais, clínicas, médicos e Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), que utilizam os serviços para o encaminhamento de pacientes que necessitam de transição hospitalar ou suporte contínuo em ambiente residencial.

Para Angelina Clarke, também cofundadora da healthtech, o desenvolvimento de sistemas analíticos e preditivos para o ambiente doméstico tende a se consolidar como parte integrante dos sistemas de saúde nas próximas décadas: “Existe uma percepção crescente de que o cuidado de longa duração será um dos grandes desafios da saúde. O que estamos vendo agora é o surgimento de ferramentas capazes de apoiar profissionais e famílias em uma escala que antes não era possível”, destaca a executiva.

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