segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Citi e Coinbase unem forças em stablecoins e redesenham a fronteira entre bancos e cripto

Parceria conecta pagamentos corporativos ao universo dos ativos digitais e sinaliza que Wall Street não recuou após o impasse regulatório nos EUA

Enquanto a regulamentação das criptomoedas pelo Congresso dos EUA avança lentamente, duas grandes empresas optaram por não esperar. O Citigroup firmou um acordo estratégico com a Coinbase — a principal corretora de criptoativos dos Estados Unidos — permitindo que seus clientes corporativos aceitem pagamentos em stablecoins, que são as moedas digitais atreladas ao dólar. A iniciativa, publicada pelo jornal The New York Times (NYT), não se limita a um simples acordo comercial: trata-se da mais recente demonstração de que a conexão entre o sistema financeiro convencional e a infraestrutura da blockchain está progredindo, independentemente do apoio ou da falta dele por parte de Washington.

De que forma a engrenagem vai operar

De acordo com a reportagem do NYT, a estrutura da operação distribui as funções de forma bem definida. A Coinbase fornecerá os serviços de pagamento em stablecoins e a infraestrutura de blockchain que automaticamente converte a moeda digital na moeda fiduciária. O Citi também será o banco de registro responsável pela liquidação dos recursos.

Ou seja, clientes institucionais do banco — incluindo multinacionais de peso — poderão, na prática, aceitar pagamentos em stablecoins de seus clientes no checkout, através dos serviços de processamento de pagamentos do Citi. Os clientes que utilizam os serviços de pagamento da Coinbase terão a possibilidade de utilizar as funcionalidades bancárias do Citi para aceitar, manter e efetuar pagamentos em um formato que se assemelha a uma conta bancária, onde o dinheiro recebido é instantaneamente convertido em stablecoins. Os tokens serão mantidos sob custódia na Coinbase e gerarão uma taxa anual de 3,75%, de acordo com informações disponibilizadas.

A lógica estratégica que fundamenta o acordo

A justificativa executiva sugere uma tese que se estende por um longo período: conectar os ativos digitais às operações da economia real. Shahmir Khaliq, chefe de serviços do Citi, disse ao jornal americano que a colaboração tem o objetivo de conectar ativos digitais às partes da economia que ainda dependem de moeda emitida por governos. “Isso faz parte da conclusão desse quebra-cabeça”, afirmou.

Na perspectiva da corretora, Brett Tejpaul, que lidera a Coinbase Institutional, detalhou que a parceria tem como objetivo permitir que consumidores e empresas façam transições entre dólares e stablecoins sem precisar sair do sistema bancário convencional. De acordo com ele, a colaboração facilita a concretização de “todo o potencial das stablecoins” de viabilizar pagamentos internacionais “mais rápidos, mais baratos e melhores”.

Progresso em meio à estagnação política

A sincronização da operação é importante. O anúncio vem na esteira do fracasso do Clarity Act, projeto de lei considerado o marco regulatório do setor, no Senado dos EUA. Um dos fatores que comprometeram a proposta foi a rivalidade entre o lobby bancário e as empresas de criptomoedas a respeito da possibilidade de as plataformas digitais oferecerem rendimentos a quem detém stablecoins — o mesmo tipo de remuneração de 3,75% que a parceria prevê.

Khaliq, do Citi, não hesitou em avaliar a situação: “Não estamos prejudicados.” Estamos prosseguindo com nossas atividades dentro da licença bancária que possuímos e em conformidade com as regulações atuais.”

Uma agenda de tokenização em rápida evolução

A parceria faz parte de uma iniciativa mais ampla do banco. Separadamente, o Citi revelou que está expandindo seus serviços de token — que utilizam uma blockchain própria para que multinacionais possam transferir dinheiro de forma instantânea, 24 horas por dia, todos os dias da semana — para o Japão e os Emirados Árabes Unidos, totalizando sete jurisdições em operação, incluindo os EUA.

Além do mais, Citi, JPMorgan Chase e outros bancos têm a intenção de lançar um sistema de depósitos tokenizados no ano que vem. O Citi também faz parte de um grupo de quase vinte empresas que estão desenvolvendo uma stablecoin conjunta e opera um negócio que possibilita a negociação de ações de empresas privadas via blockchain para clientes institucionais e de alta renda.

Reflexos no mercado brasileiro

O desenvolvimento tem um impacto direto no ecossistema nacional. O Brasil se destaca como um dos mercados mais desenvolvidos em pagamentos instantâneos, com o Pix realizando bilhões de transações a cada mês. Além disso, o Banco Central está à frente dos testes do Drex, a moeda digital do real, visando especificamente à tokenização de ativos e à liquidação programável. Grandes instituições bancárias do Brasil já estão envolvidas em pilares que se assemelham aos que o Citi está organizando agora nos EUA.

Para os executivos de multinacionais que operam no Brasil, o movimento indica que os pagamentos transfronteiriços usando stablecoins provavelmente se tornarão uma característica comum na infraestrutura bancária global. Em um cenário em que os custos de câmbio e liquidação internacional continuam a impactar importadores e exportadores, trilhos digitais “mais rápidos e baratos” deixam de ser promessa e passam a ser questão de calendário competitivo.

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