quarta-feira, 09 de setembro de 2026

BTG Macro Day 2026: uma economia global resiliente na superfície, mas corroída por tensões profundas

Evento promoveu conversa entre André Esteves e Mohamed El-Erian, economista-chefe da Allianz, que defendeu reforma no Fed, dissecou o dilema chinês e apontou o crédito privado brasileiro como uma das grandes apostas da década.

À primeira vista, a economia mundial parece estar em boa forma, com um crescimento robusto, inflação sob controle e mercados em alta impulsionados pela euforia em torno da inteligência artificial. No entanto, assim como um edifício com uma aparência externa impecável, mas com fundações rachadas, essa estrutura oculta tensões que podem resultar em consequências severas. 

Com essa análise em três camadas, Mohamed El-Erian, presidente do Gramercy Funds Management e economista-chefe da seguradora global Allianz, provocou a plateia do BTG Macro Day 2026, evento organizado pelo BTG Pactual que trouxe à tona os desafios e as perspectivas da economia brasileira e global, com a participação de líderes políticos, economistas e agentes do mercado financeiro.

As três camadas da economia global

No bate-papo “à beira da lareira” com André Esteves, Chairman do banco, El-Erian organizou sua análise em camadas. À primeira vista, a economia mundial parece ser extremamente resistente a choques severos: o crescimento continua, a inflação está sob controle sem crises financeiras de grande escala, e os mercados de ações estão em alta, impulsionados pelas expectativas relacionadas à revolução da IA.

Abaixo, no entanto, surgem pressões estruturais importantes: a alta nos yields dos treasuries norte-americanos, resultado da crescente demanda por capital diante de uma oferta reduzida; atritos cambiais em torno do iene japonês; e as tensões geopolíticas entre os Estados Unidos e a China.

No fundo, o economista detectou o que chamou de incerteza sem “ponto final”: riscos de danos colaterais na velocidade de adoção da inteligência artificial, reorganização dos mercados de capital e fragmentação geopolítica, forças que não têm desfecho claro no horizonte.

O Fed sob julgamento

A política monetária dos EUA e o trabalho de Kevin Warsh no Federal Reserve foram temas centrais da discussão. Para El-Erian, o Fed precisa deixar para trás a dependência estrita do retrospecto dos dados (data dependency) e se tornar prospectivo, ou seja, antecipar o que está por vir (forward-looking).

O diagnóstico sobre os erros da autoridade monetária foi claro: diagnósticos equivocados ao classificar a inflação inicial como passageira; fracasso repetido em manter as metas inflacionárias por longos períodos; e falhas de comunicação que aumentaram a volatilidade em vez de diminuí-la. Na perspectiva do economista, as equipes formadas para reformar a comunicação, a análise de dados e a produtividade do Fed são fundamentais para superar visões rígidas e restaurar a credibilidade da instituição.

A China e a “escada do desenvolvimento” danificada

El-Erian destacou uma contradição estrutural em relação a Pequim: apesar de a China ter um papel sistêmico na economia mundial, seus líderes adotam uma perspectiva que se concentra principalmente nas necessidades internas.

O economista usou a metáfora da “escada do desenvolvimento”: historicamente, economias asiáticas emergentes avançavam na cadeia de valor e abriam espaço na base para outros países. A China, por sua vez, se posiciona em vários níveis ao mesmo tempo — competindo com economias desenvolvidas na manufatura de ponta e com países em desenvolvimento na exportação de bens de consumo. O resultado é que o espaço de ascensão para os outros emergentes se torna mais restrito.

Onde se encontra a oportunidade: América Latina e crédito privado

Em um ambiente que é, sem dúvida, polarizado e volátil, El-Erian destacou que a desconexão geopolítica e a dispersão de mercados oferecem enormes oportunidades para economias emergentes — especialmente para a América Latina e, de forma explícita, para o Brasil.

Para investidores e gestores, a questão mais importante foi o apoio ao mercado de crédito privado em economias emergentes, que o economista apontou como uma das áreas mais promissoras no presente. Segundo El-Erian, o setor está em um momento que se assemelha ao crédito privado nas economias desenvolvidas há 15 anos: retornos interessantes respaldados por garantias robustas. A condição, ele avisou, é disciplina — uma escolha cuidadosa de ativos (bottom-up) e a capacidade de se adaptar rapidamente em um ambiente de alta volatilidade.

Para o mercado brasileiro, a mensagem é de grande importância estratégica: em um país onde o crédito privado se firmou como uma classe de ativos significativa para fundos de investimento e escritórios de gestão familiar, a interpretação de um dos economistas mais renomados do mundo fortalece a ideia de que a dispersão global não é apenas um risco, mas sim uma disparidade de oportunidades para aqueles que souberem se posicionar adequadamente. 

Quem quiser ver a conversa na íntegra, ela está disponível no link a seguir: 

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