O que têm em comum uma vaca leiteira no Paraná, um colar com sensores de IA e a bolsa de valores brasileira? Mais do que parece. Pela primeira vez, um rebanho de dez animais foi usado como garantia em uma operação de crédito registrada na B3 — e o lastro não é o peso do boi, mas os dados gerados por ele em tempo real. A transação, que movimentou cerca de R$100 mil, pode parecer modesta, mas carrega um simbolismo enorme: o agronegócio, um dos motores da economia brasileira, acaba de dar um passo decisivo na tokenização de ativos do mundo real (RWA, na sigla em inglês).
A operação, estruturada pela fintech Target FIDC em parceria com a agtech Cowmed, representa a primeira vez que ativos pecuários tokenizados são usados como colateral na bolsa brasileira. Cada um dos dez animais recebeu um colar com sensores que monitoram saúde, comportamento e localização, convertendo essas informações em uma identidade digital única e criptografada. Essa identidade é atrelada ao contrato de crédito e registrada na B3 — o que elimina a necessidade de vistorias físicas e reduz drasticamente o risco para o credor .
A inovação resolve um gargalo histórico do crédito rural. Bancos tradicionalmente aplicam descontos severos sobre o gado usado como garantia, pela dificuldade de verificar se o animal está vivo e saudável. O monitoramento contínuo, em tempo real, remove essa incerteza. Pelo menos em tese.
E o momento não poderia ser mais oportuno após o número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio dispararem recentemente, segundo dados da Serasa Experian.
Por um novo crédito agro
Para além do caso pontual, a operação sinaliza uma tendência estrutural. A Simple Token, parceira financeira da Cowmed, projeta disponibilizar R$200 milhões (cerca de US$32 milhões) a produtores rurais até o final de 2026, usando gado tokenizado como garantia. A Cowmed já monitora cerca de 100 mil cabeças de gado, com valor combinado de aproximadamente US$395 milhões, e estima que um quinto desse rebanho possa ser utilizado como colateral nos próximos dois anos.
“O que estamos testemunhando é a convergência de duas revoluções: a digitalização do agro e a maturidade da infraestrutura de blockchain para ativos do mundo real”, avalia Daniel Coquieri, CEO da Liqi Digital Assets, uma das principais emissoras de ativos tokenizados no Brasil. A Liqi, em parceria com a XDC Network, já ultrapassou a marca de US$100 milhões em ativos tokenizados emitidos, com meta de atingir US$500 milhões ainda em 2026 . Para Coquieri, a tokenização não é mais um experimento: “é uma forma mais eficiente de gerenciar dívida e crédito”.
Brasil na corrida global
O protagonismo brasileiro na tokenização de RWAs não é acidental. Dados do portal RWA Monitor mostram que o mercado de ativos tokenizados no país já soma cerca de R$12 bilhões (US$2,34 bilhões). A XDC Network, blockchain escolhida por grandes emissoras como Liqi, VERT Capital e Mercado Bitcoin, lidera o ranking nacional com R$2,68 bilhões em ativos tokenizados — à frente de redes como XRP Ledger, Polygon e Plume . No total, são 160 ativos tokenizados no país, com R$2,15 bilhões em capital captado .
O avanço é impulsionado por um ambiente regulatório que, embora rigoroso, tem dado sinais claros de incentivo à inovação. O Banco Central do Brasil (BCB) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tratam o blockchain como ferramenta de modernização financeira.
O BCB, por meio das Resoluções 517, 519, 520 e 521, estabeleceu um marco regulatório abrangente para prestadores de serviços de ativos virtuais (VASPs), com exigências de capital que variam de R$10,8 milhões a R$37,2 milhões, alinhando o setor aos padrões prudenciais do sistema financeiro. A CVM, por sua vez, criou em julho um grupo de trabalho para elaborar um marco experimental para valores mobiliários tokenizados, que deverá apresentar sua primeira proposta em 60 dias.
“A tokenização representa uma transformação estrutural do mercado de capitais e exige uma abordagem regulatória igualmente inovadora”, afirmou Otto Lobo, presidente da CVM, ao anunciar a iniciativa .
O gargalo da infraestrutura e a aposta institucional
Apesar do entusiasmo, o salto de pilotos para a produção em escala ainda esbarra em desafios. Levantamento da empresa Fireblocks , especializada em ativos digitais, com instituições financeiras da América Latina mostra que metade dos bancos ainda está na fase de testes, e apenas 14% migraram para produção plena. Governança interna é o principal gargalo, citado por 47% das instituições . No Brasil, a preocupação principal de 68% das instituições é com segurança e resiliência operacional — um reflexo do volume gigantesco de transações processadas pelo Pix, que exige infraestrutura robusta .
Ainda assim, os investimentos são expressivos: 41% das instituições financeiras da região já destinaram orçamento para infraestrutura de ativos digitais em 2026, e metade delas investe mais de US$1 milhão por ano nessa frente — proporção muito superior aos 15% observados nos Estados Unidos. “O Brasil se tornou o epicentro latino-americano da tokenização — e a XDC Network é a espinha dorsal dessa transformação”, resume Diego Consimo, Head LATAM da XDC Network .
O que vem pela frente
A tokenização do gado na B3 é um exemplo eloquente de como a tecnologia pode resolver problemas concretos da economia real. Mas pode ser considerado também um sinal de que o mercado brasileiro de ativos digitais amadureceu: não se trata mais de especulação, mas de eficiência, transparência e inclusão financeira.
O Banco Central projeta que o Drex, o real digital, avance para adoção mais ampla ainda em 2026, enquanto a B3 planeja lançar sua própria plataforma de tokenização e uma stablecoin em breve.
“O que estamos construindo no Brasil com a XDC Network vai muito além da infraestrutura. Estamos preparando o país para liderar a maior transformação financeira da próxima década. O Brasil tem capital humano, arcabouço regulatório, a força do agronegócio e agora a infraestrutura para conectar ativos locais ao mercado global. A corrida dos RWAs já começou, e o Brasil está na linha de frente”, afirma Diego Consimo .
Se o boi tokenizado no Paraná é o símbolo desse movimento, a pergunta que fica não é sobre qual será o próximo ativo do mundo real a ganhar versão digital na bolsa brasileira e, sim, sobre quem ainda aposta de que esse movimento digital não passa de uma simples “conversa pra boi dormir”. Êh, boi!
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