quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A inteligência artificial não é o maior desafio das empresas. A liderança é

Por Carla Elage Souza, direto do Exponential Summit 2026, evento que reuniu CEOs para discutir tendências.

Estamos vivendo uma corrida pela inteligência artificial. Empresas investem em ferramentas, automatizam processos e tentam acompanhar uma transformação que acontece em velocidade cada vez maior.

Mas será que estamos fazendo as perguntas certas?

Durante uma apresentação para lideranças empresariais, Ricardo Rocha, CEO e fundador da Acaso, startup criada em 2020, reconhecido como MIT Innovator Under 35 e especialista em inteligência artificial aplicada à gestão de talentos, trouxe uma reflexão fundamental: o maior desperdício das organizações não está necessariamente nos recursos financeiros ou nos processos ineficientes, mas no potencial humano que deixam de reconhecer e desenvolver.

“A Acaso nasceu com o propósito de combater justamente esse desperdício, utilizando tecnologia para identificar talentos, reconhecer competências e ajudar empresas a posicionar as pessoas certas nos lugares certos”, disse ele.

Ricardo provocou a plateia ao questionar os modelos tradicionais de avaliação profissional: “Quantas vezes um talento extraordinário é considerado inadequado simplesmente porque não corresponde às exigências de um cargo ou aos padrões de comportamento esperados pela organização?”. E completou: “E quanto tempo profissionais altamente qualificados ainda desperdiçam executando atividades repetitivas que poderiam ser automatizadas?”. Por tudo isso, ele apontou que “a inteligência artificial deveria ampliar o potencial das pessoas, não apenas substituí-las”.

Quando o CEO reconhece que o problema também é ele

Um dos momentos mais interessantes da apresentação foi quando Ricardo compartilhou as dificuldades que enfrentou para implementar inteligência artificial dentro da própria empresa. Mesmo liderando uma startup de tecnologia, encontrou resistência, ceticismo e dificuldades de adoção entre seus profissionais.

Sua primeira reação foi pressionar a equipe. Mas os resultados não vieram. Decidiu, então, experimentar pessoalmente as ferramentas, automatizando tarefas e desenvolvendo soluções que antes exigiam muito mais tempo e recursos.

Os resultados foram surpreendentes. Mas trouxeram também uma inquietação: se ele conseguia realizar sozinho atividades que antes dependiam de outras pessoas, qual seria o futuro desses profissionais?

Foi quando percebeu que estava diante de uma escolha. Poderia utilizar a inteligência artificial para reduzir equipes ou transformar sua maneira de liderar, criando condições para que todos ampliassem suas capacidades. E escolheu o segundo caminho.

Em vez de concentrar conhecimento, passou a estimular a experimentação, desenvolver estruturas que facilitassem a adoção da tecnologia e formar profissionais capazes de disseminar novas práticas.

Para ele, a transformação deixou de ser uma “iniciativa tecnológica” para se tornar “uma mudança cultural”.

O maior obstáculo pode estar na liderança

Essa talvez seja a principal mensagem que Ricardo deixou. A adoção de inteligência artificial não acontece simplesmente porque uma empresa compra ferramentas ou determina que seus colaboradores passem a utilizá-las, mas exige disposição para aprender, abandonar certezas, questionar processos e experimentar novas possibilidades.

E essa disposição precisa começar por quem lidera. Não adianta exigir inovação de equipes que são punidas quando erram. Tampouco adianta falar em transformação mantendo estruturas que valorizam mais o cumprimento de procedimentos do que a capacidade de gerar resultados.

Ao longo da minha trajetória executiva, aprendi que liderar não significa ter todas as respostas, mas criar condições para que pessoas com conhecimentos e competências diferentes construam resultados que ninguém alcançaria sozinho. E a inteligência artificial não elimina essa responsabilidade. Ao contrário, torna-a ainda maior.

Ricardo encerrou sua apresentação com uma provocação que merece chegar às mesas dos conselhos de administração e às diretorias executivas: “e se a parte mais lenta da transformação estiver justamente em quem ocupa a posição de liderança?”.

Talvez a pergunta mais importante para os CEOs não seja quantas pessoas a inteligência artificial permitirá substituir, mas quanto potencial humano suas empresas ainda estão desperdiçando. Está claro que o futuro dos negócios não será definido apenas pela capacidade de incorporar novas tecnologias. Ele será definido pela capacidade de desenvolver pessoas para realizar, com elas, aquilo que antes parecia impossível.

A inteligência artificial não é o maior desafio das empresas. A liderança é
Ricardo Rocha, CEO e fundador da Acaso: “e se a parte mais lenta da transformação estiver justamente em quem ocupa a posição de liderança?“

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