A integração de ferramentas de inteligência artificial e automação à gestão do cuidado domiciliar tem impulsionado a atração de capital de risco para empresas de tecnologia em saúde. O movimento responde à transição demográfica acelerada e à necessidade de coordenar rotinas assistenciais de longa duração, reduzindo gargalos administrativos e ampliando a capacidade de atendimento.
A urgência por soluções no setor é respaldada por dados populacionais. Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), enquanto países europeus como a França levaram cerca de 140 anos para dobrar a proporção de idosos em sua estrutura demográfica, o Brasil atravessará essa mesma transição em 25 anos. O ritmo acelerado expõe limitações na oferta de profissionais capacitados e na infraestrutura dedicada ao acompanhamento continuado.
No cenário internacional, empresas norte-americanas como Adaptive Innovations e Figure Health captaram novos aportes para expandir plataformas focadas na coordenação de equipes e no suporte operacional ao atendimento residencial. No mercado brasileiro, a healthtech Sanii levantou R$ 13 milhões em rodadas de investimento lideradas por fundos como Valor Capital Group, Norte Ventures, Seedstars e Sororitê Ventures para desenvolver tecnologias voltadas à gestão do cuidado de idosos frágeis e pessoas com limitações cognitivas ou motoras.
A operação da empresa combina a seleção e acompanhamento de cuidadores, auxiliares e técnicos de enfermagem ao uso de sistemas proprietários. A estrutura contempla o Sanii Matching, algoritmo para seleção de profissionais com base no perfil do paciente; o Sanii Mobile, voltado à gestão de escalas e plantões; e o Sanii Care IA, utilizado no registro e monitoramento das condições de saúde dos atendidos.
“Quando a informação chega à pessoa certa no momento certo, o cuidado acontece de forma muito melhor. Nosso foco é construir ferramentas que reduzam o trabalho administrativo e permitam que os profissionais dediquem mais tempo ao que realmente importa, que é cuidar das pessoas”, afirma Michael Kapps, cofundador da Sanii.
A utilização da tecnologia busca também resolver a fragmentação da comunicação entre familiares, cuidadores e equipes médicas. Ao centralizar o histórico e o planejamento assistencial, as plataformas visam garantir a continuidade do atendimento e a previsibilidade das rotinas.
“As famílias estão convivendo com situações cada vez mais complexas dentro de casa. Existe uma necessidade crescente de coordenação entre profissionais, familiares e equipes de saúde. A tecnologia ajuda a organizar essa rede e trazer mais previsibilidade para todos os envolvidos”, diz Renato Tilkian, executivo e cofundador da empresa.
A atuação dessas soluções estende-se à articulação com hospitais, clínicas, médicos e Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), que utilizam os serviços para o encaminhamento de pacientes que necessitam de transição hospitalar ou suporte contínuo em ambiente residencial.
Para Angelina Clarke, também cofundadora da healthtech, o desenvolvimento de sistemas analíticos e preditivos para o ambiente doméstico tende a se consolidar como parte integrante dos sistemas de saúde nas próximas décadas: “Existe uma percepção crescente de que o cuidado de longa duração será um dos grandes desafios da saúde. O que estamos vendo agora é o surgimento de ferramentas capazes de apoiar profissionais e famílias em uma escala que antes não era possível”, destaca a executiva.