Inteligência artificial, transformação digital e inovação vêm ganhando espaço no debate sobre o futuro do país. Em períodos eleitorais, esses temas também aparecem em discursos sobre competitividade, modernização do Estado e desenvolvimento econômico. O Brasil já tem uma Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial e, desde 2024, um Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. O desafio, portanto, já não é apenas desenhar uma estratégia: é transformar planejamento em infraestrutura, capacidade tecnológica e execução.
A pergunta que deveria guiar qualquer gestor público que menciona IA em palanque é simples: o que você vai fazer amanhã, no primeiro dia de mandato, para que o Brasil deixe de ser só consumidor de tecnologia criada fora e passe a ser criador?
Porque o problema não é falta de talento: o Brasil tem pesquisadores de ponta, empreendedores que constroem unicórnios, ecossistemas de inovação maduros. O problema é a desconexão entre quem pesquisa, quem desenvolve, quem financia e quem compra. Enquanto não houver orquestração entre academia, setor privado, investidores e poder público, continuaremos exportando cérebros e importando soluções.
O que separa plano de execução
Transformar o Brasil em referência global de IA exige atacar três frentes ao mesmo tempo. Primeiro: a relação entre universidade e empresa precisa de regras claras. Hoje, um pesquisador que quer colaborar com o setor privado enfrenta burocracia que desestimula a parceria. Resolver isso não exige orçamento bilionário. Exige vontade política para criar marcos regulatórios que permitam à universidade pública colaborar com empresas sem medo de questionamento jurídico, e ao setor privado investir em pesquisa aplicada dentro da academia sem atravancar processos.
Segundo: infraestrutura de dados precisa estar no Brasil. Não adianta formar cientistas de dados se eles precisam alugar capacidade computacional de datacenters fora do país, com custo em dólar e latência que inviabiliza certas aplicações. O Brasil tem abundância de energia, mas não produz os equipamentos que compõem um datacenter, e poucos estados criaram zonas de incentivo para atrair essa infraestrutura. Criar condições para instalação de datacenters — incentivos fiscais, simplificação ambiental, garantia de fornecimento de energia — é política pública que qualquer governo estadual ou municipal pode implementar.
Por fim: compras públicas precisam virar alavanca de inovação. O setor jurídico brasileiro é um dos mais intensivos em conhecimento do mundo — processos intermináveis, jurisprudência complexa, burocracia em escala continental. É o ambiente perfeito para soluções de IA aplicada. Mas se o Judiciário, o Ministério Público e as Defensorias seguirem comprando sistemas genéricos por menor preço em licitações engessadas, nunca teremos empresas brasileiras desenvolvendo tecnologia de ponta para resolver esses gargalos. Quando o setor público compra inovação, ele não está só resolvendo o próprio problema: está financiando o desenvolvimento de tecnologia que depois pode ser exportada.
O laboratório que já está rodando
Enquanto o país debate, Santa Catarina age. A ACATE, representante do ecossistema de tecnologia referência no Brasil — que possui a incubadora MIDITEC, reconhecida três vezes entre as cinco melhores do mundo, e o LinkLab, hub que conecta soluções inovadoras a corporações e instituições públicas —, estruturou um novo programa para levar 10 mil empresas catarinenses a adotarem inteligência artificial como motor principal de inovação até 2031.
A ideia que guia o ACATE AI First é orquestração de ecossistema: acesso coletivo a infraestrutura de grandes modelos (tokens mais baratos, parcerias diretas com big techs), círculos de troca de experiência entre quem já está fazendo e quem está começando, comunicação filtrada para separar tendência real de ruído de mercado, e formação especializada em temas críticos como arquitetura de escala e regulamentação.
Também está sendo construído um board que convidará as principais entidades que estão trabalhando o tema de IA para orquestrar formação de talentos, pesquisa aplicada e políticas públicas de inovação em paralelo. Não é cada um fazendo sua parte isoladamente, é alinhamento de visão.
O que o gestor público pode fazer amanhã
Se você é candidato ou gestor e quer que IA seja mais do que pauta de campanha, comece por três decisões práticas:
- Mapeie as entidades que já trabalham o tema no seu estado ou município. Não crie do zero. Associações empresariais, universidades, programas de aceleração, laboratórios de inovação aberta. Eles já conhecem os gargalos. Ouça, articule, remova barreiras burocráticas.
- Revise as leis de compras públicas do seu ente. Identifique onde a legislação impede experimentação e proponha mudanças para permitir que o setor público compre inovação, não apenas produto pronto. Secretarias de Fazenda, Educação, Saúde — todas têm desafios que IA pode resolver, e todas podem virar clientes-âncora de startups locais.
- Crie uma interlocução especializada. Se for governo estadual, fortaleça a secretaria de ciência e tecnologia. Se for prefeitura, crie um canal direto entre inovação e secretarias-fim. Decisões sobre IA não podem ficar dispersas em 15 órgãos diferentes sem coordenação.
O Brasil não precisa inventar uma estratégia de IA do zero. Precisa olhar para onde ela já está funcionando e replicar o que dá certo. Candidato que promete futuro digital precisa responder: o que você vai fazer na segunda-feira após a posse? Porque a infraestrutura para esse futuro se constrói agora, com decisões concretas, não com planos que ficam na gaveta.