Livre-arbítrio etarista

Por Ricardo Mucci, jornalista, CEO da Umana Media House e Head da editoria Economia da Longevidade, da GZM

A bióloga evolucionista Tara-Lyn Camilleri propôs, em um ensaio recente na revista Psyche, um experimento que me pareceu simples, poderoso e útil. Durante duas semanas, viver como se o livre-arbítrio não fosse a melhor lente para interpretar o comportamento humano. A ideia não é resolver o antigo debate filosófico sobre se somos ou não livres para escolher. É apenas trocar a pergunta que fazemos diante do que os outros fazem. Em vez de perguntar “de quem é a culpa?”, perguntar “o que produziu aquele comportamento?”. Li o ensaio pensando em um paralelo com o etarismo, e saí convencido de que faz sentido.

Antes, um esclarecimento importante sobre a tese dela, porque é aí que o paralelo ganha força. Camilleri não está sugerindo ignorar o livre-arbítrio nas nossas decisões. O foco dela é o reflexo de julgar o comportamento alheio de bate-pronto, sem levar em consideração outros fatores. Quando acreditamos fortemente que cada um escolhe livremente o que faz, superestimamos a escolha pessoal e subestimamos as condições que moldam essa pessoa, a biologia, a história de vida, o ambiente e o momento. O resultado é que a culpa vira nossa resposta automática. Vemos alguém se atrasar e concluímos que é desorganizado. Vemos alguém adoecer, engordar ou empobrecer e presumimos que faltou força de vontade. A proposta de duas semanas é interromper esse automatismo e, no lugar do veredito automático, questionar as causas.

O paralelo com o etarismo

O etarismo é exatamente um julgamento desse tipo, aplicado à idade. Diante de uma pessoa mais velha, tendemos a ler traços como lentidão, resistência a mudanças, dificuldade com tecnologia ou dependência como se fossem a essência de “ser velho”, ou até uma falha pessoal. E, a partir desse veredito, excluímos, dispensamos, paramos de ensinar, deixamos de contratar. O que proponho, inspirado na tese de Camilleri, é aposentar por duas semanas o “livre-arbítrio etarista”. Só que o livre-arbítrio que precisamos suspender não é o da pessoa idosa. É o nosso, o de quem observa e julga. Quando a frase “ele já está velho para isso” ou “ela não vai entender” ameaçar ser verbalizada, o exercício é perguntar-se antes: o quê me fez chegar a essa conclusão?

Na maioria das vezes, a resposta não é a idade. É a condição em torno dela. Um clichê cultural. A suposta lentidão pode estar associada a um ambiente pensado para corpos jovens. A dificuldade com o aparelho pode ser a falta de alguém que tenha tido paciência de ensinar. O desânimo pode ser efeito do isolamento, e não da idade. E há um mecanismo cruel que fecha o ciclo. A baixa expectativa que depositamos no idoso se transforma em profecia. Tratado como incapaz, ele recua e confirma o preconceito de quem o julgou. Grande parte do que atribuímos à velhice é, na verdade, fabricada pela forma como tratamos a velhice.

Essa provocação não é apenas uma questão de gentileza, e é aqui que os dados dão peso ao argumento. A Organização Mundial da Saúde, em seu primeiro relatório global sobre o etarismo, de 2021, estima que uma em cada duas pessoas no mundo nutre atitudes etaristas contra os mais velhos, com prevalência ainda maior nos países de renda baixa e média. Não se trata de mera antipatia. O relatório associa o etarismo a pior saúde física e mental, mais isolamento, maior insegurança financeira e até morte prematura. Uma revisão de 149 estudos citada no documento mostrou que, em 85% deles, a idade influenciava quem recebia determinados tratamentos médicos. O preconceito, portanto, decide quem é cuidado.

O dado que mais me impressiona vem da pesquisadora Becca Levy, da Universidade Yale. Em um estudo que acompanhou 660 pessoas com 50 anos ou mais, ela verificou que aquelas com uma visão mais positiva do próprio envelhecimento viveram, em média, 7,5 anos a mais do que as que carregavam uma visão negativa. O efeito resistiu ao controle de idade, renda, saúde e solidão, e foi maior do que o de não fumar ou de praticar exercício. As crenças sobre a idade, em outras palavras, entram no corpo e mexem com a saúde, a memória, a recuperação e o tempo de vida.

Some esses dois achados e chega-se a uma constatação perturbadora. O etarismo é o único preconceito dirigido contra a nossa própria versão futura. Absorvemos os estereótipos sobre a velhice décadas antes de envelhecer, e raramente os questionamos, porque não parecem dizer respeito a nós. Só que dizem. Ao rir do idoso lento ou ao tratar a experiência de quem passou dos 60 como algo ultrapassado, estamos ensaiando as crenças que um dia aplicaremos a nós mesmos, e que, segundo a evidência, podem encurtar a nossa vida. É um tiro no próprio pé, disparado com anos de antecedência.

Preciso, por honestidade, fazer a mesma ressalva que Camilleri faz. Suspender o veredito não significa negar que o corpo muda com a idade nem fingir que não existem limites reais. Ela é clara ao dizer que renunciar à lente do livre-arbítrio não apaga o dano nem dispensa a responsabilidade. Aplicado ao nosso tema, o exercício não é fingir que uma pessoa de 85 anos tem o mesmo fôlego de uma de 30. É parar de usar a idade como explicação automática e total, e aprender a separar o que é de fato efeito do tempo do que é circunstância, preconceito e expectativa que se autorrealiza.

Fica, então, o convite. Por duas semanas, aposente o reflexo de julgar pela idade. Toda vez que a explicação “é porque é velho” surgir, troque-a pela pergunta que Camilleri sugere: o que produziu isto? Observe quantas vezes a limitação estava no ambiente, na pressa alheia ou na sua própria baixa expectativa, e não na pessoa. A recompensa é dupla. No presente, passamos a tratar os mais velhos com mais justiça e a aproveitar o que eles têm a oferecer. No futuro, preparamos para nós mesmos uma velhice mais longa e mais digna. Enxergar melhor, no fim, costuma ser mais útil do que julgar depressa.

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