Enquanto o planeta discute até onde pode ir a inteligência artificial, uma questão menos interessante — e muito mais prática — começa a separar quem vai ganhar a disputa: de onde virá a energia? Os data centers de IA já utilizam uma quantidade de energia equivalente à de cidades inteiras, e a solução pode ser encontrada em um material surpreendentemente comum: o ferro. A Form Energy, uma startup dos Estados Unidos que cria enormes baterias de ferro-ar que podem funcionar por até 100 horas seguidas, arrecadou US$ 750 milhões em uma nova rodada de financiamento, totalizando mais de US$ 2 bilhões desde sua fundação, conforme reportou o New York Times. O investimento é evidente: na era da inteligência artificial, armazenar energia por dias, em vez de apenas horas, tornou-se um recurso estratégico.
O conceito da “ferrugem reversível”
A tecnologia da Form Energy é construída em torno de um princípio que a empresa chama de “ferrugem reversível”. As baterias funcionam com ferro, água e ar: elas absorvem oxigênio e transformam ferro em ferrugem; em seguida, invertem o processo, convertendo a ferrugem de volta em ferro e liberando oxigênio — é dessa forma que carregam e descarregam energia.
Ao contrário das baterias tradicionais de íon-lítio, que fornecem energia por algumas horas, as baterias da Form são feitas para durar 100 horas — o tempo necessário para que concessionárias possam enfrentar crises de rede que duram dias, como no caso de uma tempestade de inverno. De acordo com o NYT, a nova rodada de financiamento servirá para expandir a fábrica em Weirton, na Virgínia Ocidental, e para a primeira fase de projetos comerciais, incluindo uma colaboração entre a concessionária Xcel Energy e o Google, da Alphabet.
O “e-peaker”: rivalizando com as usinas a gás
O CEO e cofundador da Form, Mateo Jaramillo, foi quem explicou o posicionamento estratégico da tecnologia. As baterias funcionariam como determinadas usinas termelétricas a gás natural denominadas “peaker units”, que são ativadas em um número relativamente pequeno de dias por ano — geralmente durante as horas mais frias ou mais quentes, quando a demanda aumenta e a rede elétrica é pressionada ao limite.
“Nós nos propusemos a comercializar o tipo de armazenamento de energia que é competitivo em todos os atributos com uma usina a gás de ponta”, afirmou Jaramillo, conforme reportado pelo New York Times. “Em várias maneiras, o que criamos é um ‘e-peaker’, uma peaker elétrica.”
A lógica econômica ultrapassa as situações de emergência. De acordo com Vineet Khanna, analista de investimentos e vice-presidente da T. Segundo a T. Rowe Price, conforme reportado pelo NYT, as baterias têm a capacidade de absorver eletricidade gerada por usinas nucleares, que permanecem em operação mesmo quando não são lucrativas durante os períodos em que os preços de atacado caem. “Quando você adiciona uma bateria de 100 horas, na verdade aumenta o valor de tudo o mais que já foi construído”, disse Khanna.
Backlog aumentou quatro vezes e a espera nos data centers
Os dados demonstram a tração comercial. O backlog de projetos da Form aumentou de 20 gigawatt-hora para 80 gigawatt-hora neste ano, conforme informações publicadas pelo New York Times. O contrato mais expressivo, que foi firmado com a Xcel Energy, prevê a instalação de 300 megawatts em baterias para reforçar a rede e um centro de dados do Google que está sendo planejado para Pine Island, Minnesota — esse sistema terá a capacidade de armazenar e fornecer 30 gigawatts-hora de energia.
Entre os clientes está a Crusoe, que constrói data centers de IA para empresas como Oracle e Meta, e que espera usar 12 gigawatt-hora das baterias da Form a partir de 2028. A desenvolvedora de energia renovável FuturEnergy Ireland está colaborando com a startup em um sistema de baterias ferro-ar que será implementado até 2029 no noroeste da Irlanda.
Os investidores que participaram da rodada são gigantes das finanças globais: T. Rowe Price, Sequoia Capital, Janus Henderson, Franklin Templeton, TPG Rise Climate, Dustin Moskovitz e Cari Tuna, Coatue Management e GE Vernova.
Bateria e geopolítica: independência total da China
Há um elemento estratégico que vai além da tecnologia. A Form obtém cerca de 80% do que precisa para suas baterias dos Estados Unidos, enquanto o restante vem da Europa e da Ásia. “Temos zero dependência da China”, declarou Jaramillo ao NYT — uma afirmação carregada de significado em uma indústria amplamente dominada pela fabricação chinesa.
David Cahn, partner at Sequoia Capital, sees Form as a harbinger of a broader shift in venture capital. “Houve uma mudança real no cenário de venture nos últimos anos”, afirmou ele, conforme a reportagem. “A IA tornou muito fácil construir software.” O que é fácil de construir não é mais valioso. Então começou a mudança para problemas difíceis.” Cahn espera que a Form se transforme em uma “campeã nacional de baterias” para os Estados Unidos.
As credenciais dos fundadores sustentam a afirmação: Jaramillo participou do desenvolvimento do Powerwall, o sistema de armazenamento da Tesla, e foi responsável pelos primeiros powertrains da montadora; Yet-Ming Chiang, professor do MIT, é cofundador da A123 Systems, empresa pioneira em baterias de lítio.
Aprendizados para o Brasil: a energia como a infraestrutura da IA
A jornada da Form Energy traz um recado claro ao mercado brasileiro. O Brasil está passando por uma fase única: possui uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, com uma significativa contribuição de hidrelétricas, energia eólica e solar, mas se depara com o desafio crônico da intermitência das fontes renováveis e da dependência de reservatórios durante os períodos de seca. Long-lasting batteries that can store energy for days are precisely what is needed to turn this advantage into a leadership position in the AI economy.
Enquanto os EUA e a Europa competem por data centers que custam bilhões, o Brasil ainda está nos estágios iniciais de atração desses investimentos — em parte devido a incertezas regulatórias e de infraestrutura. Iniciativas como o data center da ByteDance, que será implantado no Ceará e será alimentado por energia eólica, evidenciam o potencial do estado, mas para alcançar essa escala, serão necessárias soluções de armazenamento que, atualmente, praticamente não existem no país.
A questão estratégica é inevitável para os executivos dos setores de energia, mineração — uma vez que o Brasil é um dos maiores produtores de minério de ferro do mundo — e tecnologia: quem vai construir a “Form Energy brasileira” antes que a janela se feche?