Marco Legal de Startups completa cinco anos ainda buscando consolidar ponte entre governo e inovação no Brasil

Corredor do evento GovTech Summit 2026, que ocorreu em junho no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre. Iniciativas em busca de uma união ainda difícil. Foto: Foto : Alina Souza/Correio do Povo
Contratos públicos para soluções inovadoras já somam 293 celebrações e abrem um mercado de alto valor estratégico para GovTechs nacionais.

Imagine uma startup brasileira que, em vez de disputar espaço apenas no setor privado, passa a ter o próprio governo como cliente e não para vender produtos de prateleira, mas para desenvolver soluções que ainda não existem. Esse cenário, que parecia distante há alguns anos, já é realidade mensurável no país, de acordo com um número: nos cinco primeiros anos do Marco Legal de Startups, foram celebrados 293 Contratos Públicos para Solução Inovadora (CPSIs) no Brasil, conforme levantamento divulgado pelo portal Startupi, com base no estudo “Observatório do CPSI 2026“, elaborado pela Procuradoria do Estado de São Paulo. Para executivos e fundadores, o recado é claro: o poder público deixou de ser um comprador inacessível e passou a ser um vetor concreto de receita e validação tecnológica.

Aceleração recente sinaliza maturidade do instrumento

Os números revelam uma curva de adoção em ritmo crescente. Segundo dados publicados pela Gazeta Mercantil Digital (GZM), entre 2025 e 1º de junho de 2026 o total de contratos saltou de 265 para 293 CPSIs. Ao todo, 59 órgãos e entidades públicas lançaram editais na modalidade, e 44 deles efetivamente celebraram contratos.

O levantamento mapeou ainda 248 fornecedores contratados por meio desses instrumentos. O perfil predominante é de entrada pontual: 208 fornecedores (83,9%) celebraram apenas um CPSI, enquanto 35 assinaram dois contratos e cinco chegaram a três celebrações — um indicativo de que o mercado ainda está em fase de consolidação de players recorrentes.

Ticket médio relevante, mas ciclo de contratação exige fôlego

Para líderes que avaliam a entrada nesse mercado, dois indicadores merecem atenção estratégica. De acordo com o estudo divulgado pela GZM, o valor médio por contrato foi de R$ 807,7 mil — um ticket capaz de financiar ciclos inteiros de desenvolvimento de produto em startups em estágio inicial.

Por outro lado, o tempo médio entre a publicação do edital e a assinatura do contrato foi de 228,84 dias. Ou seja: quase oito meses de runway precisam ser planejados antes da formalização do negócio, o que reforça a necessidade de gestão financeira disciplinada por parte dos fundadores que apostam nesse canal.

Demanda concentrada em eficiência administrativa e setores estratégicos

O relatório aponta que mais da metade da demanda (58,74%) está distribuída entre três categorias: Gestão Administrativa, Processos Internos e Governança; Óleo, Gás e Indústria Extrativa; e Energia Elétrica e Transição Energética. A concentração, conforme destacado pela GZM, evidencia que o CPSI vem sendo utilizado tanto para modernizar rotinas da administração pública quanto para enfrentar desafios técnicos de setores estratégicos da economia brasileira — um alinhamento direto com as agendas de eficiência estatal e transição energética que dominam o debate nacional.

Ecossistema GovTech ganha escala no país

O potencial desse mercado se reflete no tamanho do ecossistema. O Observatório Sebrae Startups mapeou 3.664 GovTechs em operação no Brasil, com soluções concentradas em Tecnologia da Informação (15,7%), Saúde e Bem-Estar (14,1%) e Educação (13,8%). Quase metade das empresas (49,1%) tem software como principal produto, e 42,2% ainda estão em fase de validação — o que sugere um pipeline robusto de novos entrantes nos próximos anos.

Geograficamente, Sudeste e Nordeste concentram mais de 64% das GovTechs brasileiras, reforçando polos de inovação já consolidados e, ao mesmo tempo, a ascensão de ecossistemas nordestinos como vetores de soluções para o setor público. 

Para o executivo que lê esse movimento com atenção, a conclusão pode ser a de que a interseção entre governo e startups está deixando de ser promessa regulatória e passando a ser um mercado com dados, valores e tendências próprios. E quem se posicionar cedo tende a capturar a curva de crescimento ou poderá ficar para trás.

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