Há vinte anos, quando Eric Acher fundou a Monashees, o desafio era provar que o Brasil podia gerar startups relevantes. Hoje, o dilema é outro. E bem mais urgente: as empresas de inteligência artificial mais promissoras da América Latina atingem receita e visibilidade antes mesmo da rodada seed, e quem não se posicionar cedo simplesmente ficará de fora do jogo. É para não perder esse timing que a gestora inaugura, nesta terça-feira (1º), a Gama House, um hub dedicado exclusivamente a negócios nativos de IA, instalado no edifício Gabriel 1825, entre a Faria Lima e Pinheiros, coração financeiro e criativo de São Paulo.
Uma casa sem fins lucrativos, mas com ambição global
Estruturada como uma associação sem fins lucrativos, a Gama House tem como mantenedores âncoras a própria Monashees, o Google for Startups e a B3, um desenho que sinaliza a intenção de criar densidade em torno de projetos AI-first, e não apenas mais um espaço de coworking para startups genéricas. Os cerca de 1.000 metros quadrados abrigam a musictech Moises e a nova sede da própria gestora, que deixou a região da Avenida Berrini após duas décadas.
O hub é uma peça de um ecossistema maior sob a marca Gama. Recentemente, a gestora anunciou o Gama Fund, fundo de US$ 10 milhões em parceria com o Google, que aportará US$ 2 milhões em cada uma das cinco startups de IA selecionadas. Em outubro, o Gama Summit será realizado na Califórnia, onde a Monashees abriu escritório nos últimos meses — além da operação já existente no México.
“Tem um monte de empresas que estão começando na América Latina e virando empresas globais, ou empresas globais construídas por empreendedores latino-americanos, o que mostra que estamos num jogo global”, afirmou Eric Acher, sócio e fundador da Monashees. “O Gama House, o Gama Fund e o Gama Summit são maneiras de influenciarmos e criarmos esse movimento.”
Por que uma marca neutra — e o que ela destrava
A decisão de criar uma marca separada da Monashees é estratégica. Segundo Acher, a neutralidade do nome Gama permite agregar a indústria inteira em torno da tese “global LatAm”, abrindo portas para parcerias com outros fundos locais e internacionais que dificilmente se uniriam sob a bandeira de um concorrente.
“Hoje, a Gama consegue explorar esse ângulo único de ter parceiros super relevantes, que também são aspiracionais e inspiracionais para o empreendedor em tecnologia”, afirma Jan Kishi Diniz, head de jornada dos fundadores na Monashees. Nos próximos meses, o projeto deve ganhar um comitê estratégico com especialistas do setor.
Entre os parceiros, o Google for Startups disponibilizará US$ 350 mil em créditos de nuvem para uso do Gemini e de soluções Google Cloud, além de suporte técnico aos fundadores residentes. O Google Cloud Challenge, programa de aceleração para fundadores AI-first, passará a ter a Gama House como residência fixa.
A B3, por sua vez, quer estar próxima das inovações que podem nascer no ambiente — movimento coerente com o esforço da bolsa brasileira de se aproximar do ecossistema de tecnologia em um momento em que o mercado de capitais nacional busca reativar a janela de IPOs de empresas inovadoras.
Completam a lista de apoiadores iniciais a Notion, a Stripe e o escritório de advocacia BZCP, além da Shiva, startup que captou US$ 10 milhões em rodada pré-seed liderada pela Monashees para ajudar outras empresas a nascerem com IA.
A tese das três ondas — e a corrida contra o valuation
O nome “Gama”, terceira letra do alfabeto grego, traduz a leitura da gestora sobre a maturação do ecossistema latino-americano. A primeira onda, no início do século, foi marcada por infraestrutura e copycats — adaptações de modelos americanos e europeus. A segunda trouxe startups de classe mundial focadas em problemas regionais, como Nubank e 99. A terceira, impulsionada pela IA, é a das empresas AI-first com ambição global desde o dia um, caso das brasileiras Enter, Tractian e Moises, além da americana Vercel, fundada pelo argentino Guillermo Rauch.
Para o venture capital, isso muda as regras do jogo. “O crescimento da receita e a visibilidade das startups mais vencedoras acontecem muito mais cedo, até antes do seed. O nosso movimento todo com o Gama Fund, Gama House e, principalmente, com o Shiva, foi para garantir que tenhamos um first look bem no começo das empresas de AI-first para nos posicionarmos cedo, antes que os valuations fiquem naturalmente muito altos”, explica Acher.
A Monashees não descarta levar o modelo a outros países da região. Os valores investidos na estruturação da Gama House não foram revelados, e as negociações com novos parceiros seguem ativas — sinal de que a corrida pela liderança da terceira onda latino-americana está apenas começando.