* Por Walney Barbosa
A percepção dos brasileiros sobre a economia parece, à primeira vista, contraditória. Enquanto apenas 30% afirmam confiar na economia do país atualmente e somente 32% demonstram confiança no sistema financeiro, dois em cada três brasileiros (67%) acreditam que sua situação financeira será melhor nos próximos 12 meses. O dado faz parte do estudo Principalidade Bancária 2026, realizado pela Okiar Intelligence com mais de dois mil consumidores bancarizados em todo o Brasil.
Mas essa aparente incoerência revela, na verdade, uma importante mudança na forma como os consumidores enxergam seu próprio futuro financeiro. Cada vez menos, a percepção sobre a economia nacional determina as decisões individuais. Em um ambiente marcado por inflação, juros elevados, instabilidade política e incertezas globais, o brasileiro parece ter aprendido a separar o cenário macroeconômico da própria realidade.
Essa mudança de perspectiva traz implicações importantes para empresas, instituições financeiras e marcas que disputam a preferência do consumidor. Historicamente, momentos de baixa confiança na economia costumavam ser acompanhados por retração nas expectativas individuais. Hoje, esse comportamento parece diferente.
Os dados do estudo mostram que metade dos entrevistados afirma que sua situação financeira está melhor do que há um ano, enquanto 34% descrevem o momento atual como de crescimento, com aumento de renda, conquistas e melhora do padrão de vida. Além disso, quase metade (49%) declarou ter conseguido guardar ou investir dinheiro no último mês.
Esses indicadores sugerem que parte significativa da população passou a construir uma percepção financeira baseada na própria trajetória, e não apenas nas notícias econômicas. Ou seja, o brasileiro continua atento ao cenário nacional, mas suas expectativas estão cada vez mais ligadas à capacidade individual de gerar renda, empreender, investir e organizar as finanças.
Esse movimento não acontece por acaso. Nos últimos anos, houve uma transformação importante no acesso da população a serviços financeiros, investimentos, educação financeira e ferramentas digitais. Aplicativos de controle financeiro, plataformas de investimento, contas digitais, Pix, Open Finance e o crescimento da economia dos aplicativos ampliaram a sensação de autonomia sobre o próprio dinheiro.
A pesquisa também reforça esse comportamento ao mostrar que o planejamento financeiro já faz parte da rotina da maioria dos brasileiros. Sessenta por cento afirmam planejar os gastos antes do início do mês; 56% registram despesas em aplicativos, planilhas ou cadernos; e 55% estabelecem limites de gastos por categoria.
Portanto, não é exagero afirmar que mais do que consumidores, os brasileiros estão assumindo um papel mais ativo na gestão das próprias finanças. Um ponto que devemos prestar atenção é que Otimismo não significa ausência de desafios, e o dado de 67% de expectativa positiva não deve ser interpretado como ausência de dificuldades econômicas. Na prática, ele indica que os consumidores acreditam ser capazes de melhorar sua realidade mesmo diante de um ambiente econômico desafiador. Essa é uma diferença importante.
Vale destacar que o otimismo não decorre necessariamente da confiança nas instituições ou na economia do país, mas da percepção de que existem mais ferramentas, oportunidades e alternativas para construir estabilidade financeira. Isso ajuda a explicar por que confiança institucional e expectativa individual caminham em velocidades diferentes.
Outro aspecto importante revelado pelo estudo é que confiança não se constrói apenas com comunicação. A preferência dos consumidores está cada vez mais associada à experiência, transparência, simplicidade e capacidade de resolver problemas. Em outras palavras, o relacionamento cotidiano pesa mais do que promessas institucionais. Essa é uma mudança relevante para organizações que ainda concentram boa parte dos investimentos exclusivamente em campanhas de aquisição ou fortalecimento de marca. No atual contexto, confiança é resultado da experiência acumulada.
Por fim, o aparente paradoxo entre baixa confiança na economia e alto otimismo pessoal revela uma sociedade mais resiliente e protagonista das próprias decisões financeiras. Para empresas, isso significa que compreender o comportamento do consumidor passa a ser tão importante quanto acompanhar indicadores econômicos tradicionais.
Mais do que observar PIB, inflação ou taxa de juros, torna-se fundamental entender como as pessoas interpretam esses cenários e, principalmente, como eles influenciam suas escolhas. No fim das contas, os consumidores não tomam decisões apenas olhando para a economia. Eles decidem com base naquilo que acreditam ser possível construir para si mesmos. E essa talvez seja uma das transformações mais importantes do comportamento financeiro brasileiro nos últimos anos.
* Walney Barbosa é Diretor de Insights Delivery da Okiar, consultoria especializada em Consumer Insights



