* Por João Kepler

Tweet do empreendedor serial do Vale do Silício e criador da metodologia Customer Development, Steve Blank me fez refletir sobre os procedimentos de alguns colegas investidores:

Fica claro que o grande Steve Blank, que lançou as bases para o movimento Lean Startup, se refere à comunidade americana. Mas nada impede que este comportamento seja reproduzido aqui no Brasil. Disse Blank neste tweet: “Os VC estão se afastando dos term sheets assinados, oferecendo flat rounds, se você tiver sorte. Os abutres estão circulando. Mau comportamento acontece a cada crise. Os empreendedores vão se lembrar disso”.

“O flat round acontece quando o pré-money valuation do round atual é igual ao post money do round anterior, assim, é como se não houvesse sido agregado nenhum valor à empresa de um round para o outro.” – Marco Poli.

O tweet de Blank me instigou a refletir sobre a construção de reputação dos investidores. Inclusive, escrevi um artigo alertando e recomendando aos empreendedores de startups que continuem em fundraising durante a quarentena — só que de maneira seletiva, tomando cuidado com propostas indecorosas de redução drástica do seu valuation.

É hora de escolher (bem) melhor o seu investidor, sem pressão e de forma humanizada.

O comportamento do investidor durante esse período de crise vai definir reputações e carreiras de executivos de fundos. Em minha opinião, mostrará a vocação, o caráter, a empatia e a capacidade de se comunicar direta e claramente em tempos difíceis.

O empreendedor nem sempre pode escolher o investidor, é verdade, entretanto, se puder fazê-lo, deve selecioná-lo com clareza, sempre prestando atenção aos sinais.

Não se esqueça: caráter, parcerias de valor e relacionamentos de longo prazo valem muito mais que o capital.

Empresas vêm e vão. Pessoas ficam.

Vejo certos investidores adotando uma postura equivocada e dominante de que é melhor o empreendedor pegar o investimento no valuation mais baixo do que não pegar nada nesse momento. Discordo!

As startups foram infectadas pelo coronavírus? Estão morrendo? Claro que não! Investidores alegam que não faz sentido investir se a startup tiver um crescimento mais baixo do que o esperado durante a crise já que não sabemos quando tudo isso terminará. Por isso, afirmam que é preciso reconsiderar a sua posição e seus valores na rodada.

O investimento em startups não é no presente, mas no futuro. A pergunta que o investidor deve se fazer é: esse produto vai ser necessário no mundo pós-pandemia? Os fundadores vão saber navegar nesse mar revolto? Será que é o momento de conseguir base de usuários monetizar em 12–18 meses?

Um diagnóstico mais profundo pode ajudar a decisão de futuros investimentos. Mas se o term sheet foi assinado e o investidor decide não avançar, diz mais sobre o investidor do que a startup nesse momento.

O dinheiro existe e precisa ser alocado com mais segurança nesse momento, porém, cabe a cada startup mostrar essa segurança e a oportunidade de investir agora no seu negócio — com possibilidades realistas de ganhos e saídas futura.

Encerro parafraseando Steve Blank: Fique ligado! Os abutres estão circulando e bons e maus comportamentos costumam emergir nas crises.

Aos colegas investidores sérios e propositivos: Vamos juntos mantendo a lógica de ser pró-empreender e pró-mercado. Aos demais investidores: não se engane, a crise vai passar e o empreendedor se lembrará das suas palavras e, sobretudo, de suas atitudes quando ele mais precisou.

Respeitemos os obstáculos.


joãokeplerJoão Kepler é reconhecido como um dos conferencistas mais sintonizados com Inovação e Convergência Digital do Brasil. É especialista em empreendedorismo, startups, marketing e vendas, é investidor-anjo desde 2008, participa em mais de 100 Startups, Lead Partner da Bossa Nova Investimentos, Escritor e autor e coautor dos Livros O vendedor na Era Digital, Vendas & Atendimento, Gigantes das Vendas e Educando Filhos para Empreender; Premiado como um dos maiores Incentivadores do Ecossistema Empreendedor Brasileiro.