Há alguns dias, recebemos um comentário muito legal do suiço Ago Cluytens na versão em inglês do nosso post sobre “o ano do dinheiro estrangeiro no Brasil“. Ele é consultor de “branding através das pessoas”, vive com uma brasileira em Genebra e está interessado em juntar forças e benefícios na cena brasileira de startups.

Contatei-o para trocar mais informações e ele acabou criando o post “O samba da startup: dez razões para investir em startups brasileiras“, que eu traduzo aqui.

O comentário dele no nosso post diz o seguinte:

“Como um empreendedor sediado na Suiça, eu posso confirmar que há um forte interesse aqui em investir no Brasil – não apenas de uma perspectiva corporativa, mas cada vez mais também de anjos de negócio e empreendedores individuais.

Com o crescimento Europa afora e a diminuição do ritmo norte-americano, os BrIC (a minúscula é de propósito) estão atraindo interesse crescente. A combinação de crescimento lento, mercados maduros, retornos baixos e voláteis e uma relativa abundância de capital acompanhado de um clima de investimentos maduro na Europa e nos Estados Unidos fazem o Brasil parecer uma destinação ideal.

Por experiência, sei que o Brasil não é um lugar fácil para estrangeiros fazerem negócios. A melhor coisa a ser feita para ter “dólares entrando pela porta” é criar uma estrutura (framework legal) para investidores, acompanhado com forte promoção nos mercados-alvo”.

E o post, cheio de links para fontes internacionais, que ele criou depois para aprofundar a questão:

Já há vários anos que eu venho prestando atenção no Brasil e na sua cena de startups. A partir de uma perspectiva de negócios, o Brasil está florescendo há vários anos, com aumentos massivos em investimento estrangeiro e uma atenção crescente de companhias sediadas nos Estados Unidos e na Europa. Mesmo que seu desempenho econômico não seja tão estelar como seus colegas de BRIC, está claro que um mercado potencial de 192 milhões de habitantes, recursos naturais abundantes e um PIB de quase o dobro da mídia europeia significam uma proposição de valor muito atrativa para potenciais investidores.

Seguindo uma conversa com Diego Remus, CEO do Startupi, um dos blogs líderes no Brasil, fiquei surpreso ao aprender que a cena empreendedora brasileira não parece estar realmente vendo muito desses investimentos – anjos e firmas de capital de risco estrangeiros parecem relutantes a investir em startups brasileiras. De acordo com um post recente, “Em setembro de 2009, o Naspers Group, já presente no Brasil, adquiriu quase todo Grupo BuscaPé. Fazia tempo que não se via uma aquisição tão notável por aqui. Todo mundo ficou na expectativa de mais compras, que podem até ter demorado um pouco, mas vem acontecendo”.

Está claro que o Brasil pode ser um mercado bem difí­cil para empreendedores: taxas de interesse e spreads são artificialmente altos, a paisagem regulatória é uma bagunça e leva em média 152 dias para iniciar um negócio (média global: 47,8). Ainda assim, há tremendas oportunidades em potencial aguardando por aqueles que são bravos o suficiente para nadar contra a corrente e dar uma bela olhada no que o Brasil tem a oferecer. Então, se você é um anjo de negócios ou está em um fundo de capital de risco, aqui vão dez motivos pelos quais você deveria ao menos considerar o Brasil como seu próximo destino de investimentos.

1) Falta de investimentos informais: todo novo negócio requer capital, e os 3Fs (amigos, trouxas e familiares – de friends, fools and family), bem como os anjos de negócios, formam uma fonte importante de fundos para startups recém-criadas. De acordo com o relatório de 2009 do Global Entrepreneurship Monitor, “Rússia e Brasil, com 0.1%, tem o mais baixo volume de investimento informal entre todas as nações analisadas”. Como resultado imediato, muitas startups brasileiras estão tendo dificuldade para encontrar dinheiro – ou talvez nem sejam criadas. Compare com Europa e os Estados Unidos, onde o capital é abundante mas as oportunidades são poucas. Soa interessante?

2) Alto custo do capital: com taxas de interesse que nem tão antigamente giravam em torno de 3 a 5% por mês e em torno de 20% para grandes companhias, o capital é extremamente caro – isso se você o conseguir. Muitos investidores desse lado do Atlântico ficariam felizes em prover capital com uma taxa anual garantida em torno de 10% – metade da taxa brasileira, dependendo do risco. Financiar startups brasileiras com dinheiro europeu poderia significar retornos muito atrativos para investidores privados que queiram dar suporte a empreendedores.

3) Crescimento econômico/PIB: prevê-se que o Produto Interno Bruto brasileiro cresça em torno de 5,5% em 2010, com o Fundo Monetário Internacional recentemente chamando para um aumento. Se isso não soa impressionante comparado com as taxas de crescimento da China, considere que o governo brasileiro recentemente tomou medidas para esfriar a demanda e prevenir a economia de um superaquecimento. Eles parecem estar nessa a longo prazo, trocando crescimento excessivo por um padrão de crescimento plurianual orquestrado. Compare com a Europa Oriental, com insignificantes 0,7% previstos para 2010.

4) Nível de inovação: o livro “Grátis” (Free), de Chris Anderson, contém um capí­tulo chamado “O mundo grátis: China e Brasil são as fronteiras do gratuito – o que podemos aprender com eles?”. No livro, Chris conta a história de como artistas brasileiros e selos musicais estão virando de cabeça para baixo os modelos de negócio da indústria fonográfica tradicionais ao fornecerem música de graça e fazerem dinheiro com itens relacionados, como concertos, merchandising e outras fontes de receita. Este é apenas um dos exemplos de como o Brasil e outros mercados emergentes estão à frente do pacote quando se trata de inovação. Na publicidade em celulares, transporte urbano, tecnologia verde, biocombustí­veis e mídias sociais também tendemos a ver o Brasil e outros mercados emergentes como líderes no cenário mundial.

5) Espaço para crescer: os resultados combinados de anos de protecionismo e um mercado doméstico dimensionável e em rápido crescimento são extremamente “voltados para dentro”, introspectivos. Apenas em torno de 15% de todos os empreendedores em fase inicial tem ao menos alguns clientes fora do Brasil – o que significa que a maioria deles poderia certamente aproveitar uma mão para ajudar a vender fora de casa. Parcerias que possam combinar o empreendedorismo brasileiro com experiência em marketing internacional podem produzir perspectivas interessantes.

6) Destreza tecnológica: já em 2009, o Brasil liderou a lista de usuários do Twitter. Dependendo da fonte, ficam em primeiro ou segundo lugar (atrás dos EUA), mas o que fica claro é que os 71 milhões de brasileiros que usam Internet (aproximadamente 37% da população total) são cada vez mais fluentes em tecnologia. O total de usuários de telefones celulares no Brasil parece que vai ultrapassar 200 milhões em 2014, uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 4,1%. Apenas em fevereiro de 2010, o Brasil teve um aumento de 1.2 milhões de celulares – cerca de 15% da base suíça de usuários.

7) Diversificação de riscos: com problemas econômicos contínuos na União Europeia, uma abordagem de investimentos diversificada, espalhando o risco, não pode mais ser considerada luxo. De acordo com Mohamed El-Erian, CEO da Pacific Investment Management Company (PIMCO), “crescimento e riqueza vão migrar para economias emergentes como Brasil, China e Índia, direcionados por taxa crescente de empregos e renda. A Europa vai lutar enquanto tenta repelir a deflação e as questões se multiplicam sobre o Euro e a ‘maquiagem’ da União Europeia”.

8) Eleições: talvez seja estranho incluir em uma lista para investidores, mas a história econômica do Brasil tem balanços violentos, e a questão de quem está no poder certamente tem relevância para aqueles que procuram investir a longo prazo. A comunidade internacional geralmente concorda que, independente de quem se tornar vencedor nas eleições presidenciais vindouras, a agenda pré-crescimento parece que vai continuar por algum tempo – e a vida vermelha vai ser removida.

9) Espírito empreendedor: de acordo com o site International Entrepreneurship, “o Brasil é líder em empreendedorismo, com um empreendedor em cada oito adultos. Empreendedorismo estrangeiro é um tanto raro no Brasil”. Isso não significa dizer que os empreendedores brasileiros não são abertos; a maioria recebe bem as oportunidades de conversar com empreendedores europeus ou norte-americanos, e trocam ideias ativamente. Enquanto a economia brasileira se incrementa e grande parte da classe media sai da pobreza, o empreendedorismo baseado em oportunidade e o baseado em necessidade estão igualmente crescendo.

10) 2014 e 2016: o Rio de Janeiro sediar a Copa de 2014 e as Olimpí­adas de 2016 são um gesto simbólico de que a comunidade internacional está falando cada vez mais seriamente do Brasil como um agente no cenário mundial. Os investimentos impressionantes necessários para sediar ambos eventos, bem como uma série de iniciativas de desenvolvimento dirigidas pelo governo afim de garantir prosperidade econômica continuada para a população também parecem providenciar oportunidades para startups e empreendedores.

Artigo de Ago Cluytens
http://brandingthroughpeople.com
http://twitter.com/acluytens