Ela tinha 20 e poucos anos, um estágio de verão e uma decisão que seus pais provavelmente não entenderiam: em vez de juntar dinheiro para a entrada de um imóvel, abriu uma conta de aposentadoria e começou a investir. A história da jovem de Cleveland relatada pelo The New York Times (NYT) não é um caso isolado, mas sim um retrato de uma geração inteira que olhou para o preço dos imóveis, fez as contas e concluiu que o caminho para construir riqueza passa pelo mercado de capitais, não pelo mercado imobiliário.
O imóvel virou miragem
Os números explicam a mudança de comportamento. Segundo uma pesquisa do Pew Research Center publicada em junho, 89% dos adultos com menos de 40 anos afirmam que é mais difícil para os jovens de hoje comprarem uma casa do que foi para a geração de seus pais. O mesmo levantamento mostra que os jovens adultos são menos propensos que os mais velhos a considerar a compra de um imóvel um investimento “muito bom”.
O caso de Jeff Sharp, de 28 anos, ilustra a equação impossível. Bartender em meio período e estudante de aviação, ele mora em Bend, Oregon, onde o preço mediano de uma casa chegou a US$ 700 mil, quase 75% acima do registrado há 20 anos, conforme reportado pelo NYT.
“Um assunto recorrente nas conversas com meus amigos próximos é a diferença entre a economia da época dos nossos pais e o antigo poder de compra do dólar americano com a realidade que enfrentamos hoje”, disse Sharp ao jornal. “Ainda existe uma ansiedade considerável sobre como conseguiremos alcançar nossos objetivos financeiros”.
Aposentadoria como nova meta número um
No lugar do financiamento imobiliário, entram os aportes automáticos. De acordo com uma análise da companhia previdenciária americana Fidelity sobre hábitos de poupança para aposentadoria, as contribuições da Geração Z para planos de previdência estão crescendo 65% ao ano, mais que o dobro da taxa observada entre os millennials.
“Comparado a antigamente, quando as pessoas permaneciam mais tempo em suas carreiras e as empresas ofereciam planos de previdência e benefícios do tipo, acho que hoje as pessoas precisam cuidar mais de si mesmas”, afirmou a jovem de Cleveland ao NYT. “Estou apenas tentando ser conservadora e garantir que tenho diferentes reservas financeiras para estar preparada para o futuro”.
A mudança tem raiz cultural profunda. Roberta Katz, pesquisadora de Stanford e coautora do livro Gen Z, Explained: The Art of Living in a Digital Age, explicou ao jornal que se trata de uma geração moldada pela incerteza.
“Para os Baby Boomers, havia a noção de ter casa própria, de construir patrimônio e de formar um legado”, disse Katz. “Já para a Geração Z, quando realizamos nosso estudo, não havia essa percepção. Uma das descobertas da pesquisa foi que a Geração Z valoriza muito a flexibilidade, pois acreditava que o mundo que encontraria seria um mundo de mudanças”.
O smartphone como mesa de operações
A infraestrutura dessa revolução cabe no bolso. Um estudo da Gallup revelou que 81% dos adultos da Geração Z buscam orientação sobre finanças pessoais e 75% encontram essas informações online. Aplicativos como Robinhood, Vanguard e Acorns aparecem nas trajetórias dos jovens entrevistados, que migram de apostas em ações individuais para fundos de índice e contribuições automáticas.
Adam Benton, de 23 anos, chefe de operações de uma startup de tecnologia de defesa, resume a nova lógica ao NYT: “É tão longe, que penso: quais são as chances de um dia chegarmos lá?”, disse ele sobre a casa própria. “Definitivamente, não é a mesma perspectiva que meus pais têm, que dizem: ‘Você precisa investir em imóveis para realmente construir riqueza”.
O espelho brasileiro
O fenômeno encontra eco imediato no Brasil com contornos ainda mais agudos. Com a taxa Selic em patamares elevados e o crédito imobiliário encarecido, o sonho da casa própria também se afasta dos jovens brasileiros, enquanto o país vive uma democratização sem precedentes do acesso a investimentos: o número de pessoas físicas na B3 já supera 5 milhões, e plataformas como Nubank, XP e Inter colocaram fundos, ações e títulos públicos a um toque de distância. A renda fixa de alto rendimento, privilégio do cenário de juros brasileiro, cumpre aqui o papel das contas de alto rendimento americanas.
Para executivos do setor financeiro e imobiliário, o recado é estratégico: a próxima geração de clientes não parece estar mais poupando para dar entrada em um apartamento. Diferente disso, ela pode estar construindo carteiras líquidas, diversificadas e digitais. E assim, quem continuar vendendo produtos para o cliente que existia em 2005, poderá ficar falando sozinho.