* Por Eduardo Cosomano

O fenômeno das startups na cultura corporativa contemporânea mudou radicalmente vários aspectos da nossa rotina e da dinâmica do mundo dos negócios. A nova economia realizou algo quase sem precedentes: o preterimento do lucro das empresas em favor da disrupção que elas são capazes de gerar. Em outras palavras, se ela melhora ou barateia um serviço ou se resolve um problema complexo até então insolúvel, ela vai atrair investimentos para seguir em frente, ainda que não encontre equilíbrio entre receita e despesa no curto ou médio prazo. E quando acontece isso, o que era para ser básico, virou um evento e ganhou até um nome chique: break even. 

É compreensível que, por tentarem fazer algo que ninguém fez – ou ao menos da maneira que ninguém fez – as startups demandem investimento externo. E tem gente séria fazendo isso muito bem, que fique claro. Mas, eu começo a desconfiar que, na melhor das hipóteses, essa não é a história inteira. Me parece que um importante ingrediente tem ficado de fora desta equação: a manutenção de boas práticas de gestão.

Comecei a ter esta reflexão desde março de 2020, quando, ainda nas primeiras semanas de pandemia, vi algumas startups, temerosas quanto ao avanço da crise, anunciando demissões relevantes. Isso me deixou bastante incomodado: afinal, se um negócio não consegue manter seu principal ativo (isto é, seus colaboradores) ainda no período embrionário de uma crise, isso é o sintoma de que algo não está caminhando bem no que diz respeito à gestão de suas atividades. O argumento, no geral, é o de poupar caixa para preservar a empresa por mais tempo. De fato, às vezes não resta outra alternativa ao gestor além do corte. Mas será que esse era o caso? Será que não é uma falha de gestão travestida de “visão de negócio”?

Um estudo realizado pela CB Insights e publicado no final de 2021 mostra que 38% das startups faliram por problemas financeiros ou dificuldade de conseguir investimentos; 35% não têm produto market-fit, ou seja, soluções que atendam ao mercado; 20% não sobreviveram ao embate com a concorrência; 19% não acertaram no modelo de negócio; 18% tiveram dificuldade com questões regulatórias; 15% enfrentaram questões envolvendo preços, dentre outros. Há, claro, combinações e intercessões entre estes desafios vividos por startups que tiveram que fechar as portas nos últimos anos.

Muitas destas questões esbarram no desafio que é a manutenção de ferramentas que auxiliem na produção de uma gestão eficiente no andamento das startups. É claro que startups em estágios iniciais precisam se concentrar em entregar soluções disruptivas e defendê-las no pitch para investidores em potencial. No entanto, há um período até que estas ideias sejam aprovadas e bem avaliadas por estes públicos estratégicos, e é preciso garantir que o negócio consiga caminhar da forma mais autônoma possível enquanto isso. Em outras palavras, em algum momento a receita precisa ser maior que a despesa. Não tem segredo. 

Por mais estimulantes que sejam os predicados da nova economia, algumas bases do funcionamento do mundo dos negócios tradicionais ainda apresentam resultados consistentes. A manutenção de um caixa que dê segurança suficiente à empresa para manter suas atividades e, mais importante ainda, suas pessoas, mesmo durante águas turbulentas, segue sendo um norte importante. 

Agora, com a Selic a dois dígitos e os investidores com o pé no freio,  a capacidade de se autogerir, mantendo um fluxo razoável de caixa e assim sua capacidade de manter suas atividades, tendem a ser o divisor de águas. Disse no início do texto e repito aqui: tem gente séria  usando capital de maneira construtiva. Posto isso, mais do que nunca, está na hora das startups serem conhecidas não só pela sua capacidade de produzir inovação, mas também pela boa gestão de suas práticas internas. Não é preciso deixar o Steve Jobs de lado, mas é hora de os empreendedores escutarem um pouco o Manoel da padaria. Perguntem a ele como aquele negócio se mantém por tantas décadas. Para ser exponencial, um negócio primeiro precisa existir.


Eduardo Cosomano é jornalista, fundador da agência EDB Comunicação, e coautor do livro Saída de mestre: estratégias para compra e venda de uma startup, publicado pela Editora Gente.