* Por Francisco Vicente e Fernando Rojas

Segundo um relatório publicado pela ANDE (Aspen Network of Development Entrepreneurs), no biênio de 2018-2019, os fundos de impacto investiram US$ 600 milhões na América Latina, em 619 negócios. Mais de 70% dos investimentos da dívida foram direcionados para os setores de microfinanças ou agrícolas, com US$ 132 milhões e US$ 164 milhões, respectivamente, no entanto, setores como a educação receberam apenas US$ 16 milhões, ou seja, somente 2,7% do montante investido.

Ao analisarmos as principais razões para o baixo desempenho do Brasil e da América Latina no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, fica claro que existe um grande gap entre o foco destes parcos investimentos em educação e os reais problemas enfrentados pelo ensino público na atualidade. Em complemento a este cenário, a pandemia acelerou a crescente onda de evasão escolar, principalmente nas classes de baixa renda. Diante deste quadro perturbador, torna-se fundamental e prioritário provocarmos uma transformação na estrutura de educação do nosso país, com propósito de redirecioná-la a um modelo sustentável, inclusivo e protagonista.

A educação é o veículo mais importante na redução da desigualdade social e promoção de inclusão, sendo principal viabilizadora também do empreendedorismo entre jovens ao criar uma sociedade mais diversa, aberta à inovação e orientada para uma economia sustentável. Historicamente, no entanto, o Brasil carece de uma educação pública de qualidade, vide as nossas colocações em rankings como o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Nosso desempenho em educação tende a piorar, devido à pandemia atrelada à falta de infraestrutura tecnológica nessas escolas. Ainda, apesar de termos um número crescente de negócios de impacto na área de educação, são poucos os que atuam diretamente com o setor público.

Qual seria a razão deste descompasso? Fundamentalmente, os investimentos com propósito educacional, apesar crescentes, ainda padecem de um expressivo desconhecimento geral da população de investidores quanto à sua finalidade e possíveis impactos na sociedade. O quadro vem se revertendo nos últimos anos, com cada vez mais pessoas físicas interessadas em trazer um retorno transformador à sociedade, apoiando e promovendo as iniciativas sociais para dentro e ao mesmo tempo para além dos muros corporativos. Este é um dos movimentos que precisa acontecer e que o mundo nos convida constantemente a mudar: o empoderamento de cidadãos comuns, pessoas físicas, no que tange ao investimento social, agregando propósito social aos conceitos de valor e lucro. Em um mundo onde tanto se fala sobre globalização, não é novidade que os caminhos para trazermos essas soluções tenham os mesmos objetivos, seja no Brasil ou na China, no plano individual ou corporativo.

Por outro lado, quando olhamos para grande parte dos veículos de investimento social hoje, é possível observar a priorização do maior retorno financeiro possível e que, na maioria das vezes, são dirigidos por empreendedores que não vivenciam problemas sociais em seu cotidiano. No caso específico de investimentos na educação, possivelmente a principal mudança passa por uma reavaliação destas aplicações e consequente reconhecimento do alto potencial de retorno que possuem. Ao desenvolver as capacidades de jovens da periferia, por exemplo, a educação se torna pedra fundamental de toda e qualquer forma de ascensão profissional, além de um estímulo à replicação de boas práticas em toda a comunidade. Quando não se criam soluções e condições para esse crescimento dos indivíduos desde a base educacional, se “desperdiça” uma parcela enorme da sociedade com potencial de transformar o país em todos os sentidos: ambiental, social, tecnológico e econômico.

Não é caridade, é investimento. Temos o intuito de ainda ampliar nossas ações para toda a América Latina, trazendo os recursos de cada um na construção de um futuro melhor para todos.


*Francisco Vicente, Gestor de Portfólio da Yunus Investimentos, unidade de negócio que oferece crédito e apoio técnico a negócios sociais e Fernando Rojas é Presidente da AISCE.