* Por Rodrigo Latini

Muito tem se falado a respeito da queda de assinantes e consequente desvalorização da Netflix e do mercado de streamings, devido ao aumento da competição com a entrada de outros grandes players no streaming, e de como isso frustrou a expectativa de investidores que acreditavam em barreiras de entrada maiores, e na possibilidade de o streaming ser um negócio do tipo ‘winner takes all’.

Se a expectativa da empresa e investidores era assumir o controle do mercado de streaming por serem os primeiros a entrar, as recentes notícias entregam fortes justificativas para que a tese de investimento e avaliação da empresa sejam revistas. Essa informação é importantíssima para investidores e empreendedores que estão constantemente avaliando e reavaliando estratégias de negócios. Mas, pouco se fala do que isso significa para as pessoas – o que é uma perspectiva surpreendentemente pouco explorada por investidores, autores de artigos e inclusive os próprios empreendedores.

O ganho que a Netflix, como pioneira, gerou para as pessoas é incrível e totalmente admissível. Pouco tempo atrás, a nossa única opção como consumidor era assinar algum pacote de canais de TV a cabo, com pouquíssimos canais que eram realmente do nosso interesse, programas que não passavam na hora que a gente queria e éramos interrompidos por anúncios o tempo todo, e que, além de tudo, custava caro e carregava burocracias para assinaturas e cancelamentos.

Atualmente a realidade é outra, pagamos valores baixos para assinar uma plataforma de streaming, com conteúdo à nossa disposição em cada vez mais quantidade e variedade, e produzidos de acordo com a nossa preferência.

A estratégia D2C (direto ao consumidor) adotada pela Netflix foca no melhor para o cliente, e se esse modelo não é do tipo ‘winner takes all’, então isso é ganho em dobro para as pessoas. Afinal, é sobre isso que se trata quando falamos em apresentar uma alternativa com foco 100% no consumidor. A alta concorrência entre diferentes plataformas para produzir os melhores filmes e séries para conquistar (e reter) cada vez mais clientes é tudo o que queremos, e a perspectiva de que isso deve continuar no longo prazo é ótima.

Na minha visão como empreendedor que acredita que o papel das empresas é gerar valor para as pessoas, o caso da Netflix é uma inspiração, no sentido de que ela foi uma empresa inovadora e capaz de transformar um setor antiquado, que entregava uma experiência para lá de medíocre.

As notícias abordadas sobre o tema trazem uma visão de como isso é “ruim” para a empresa, mas, na minha visão, apesar de ser mais desafiador, é bom para a própria Netflix também e não apenas para as pessoas. Inovar em uma área, se tornar líder e depois jogar a escada fora para espantar concorrentes pode ser ótimo para colher lucros durante muitos anos, mas trocar o foco inovador que fez a empresa chegar até lá por um de controle e proteção é o início do fim, por mais longo prazo que demore para quebrar as barreiras impostas, alguma hora vem algum inovador.

Além do foco na geração de valor da empresa a longo prazo, acredito que os empreendedores devem enxergar algo maior do que os lucros incríveis que o controle de mercado pode trazer — o impacto, o propósito e a entrega que a empresa gera para as pessoas. Muito se fala de iniciativas ESG, mas é importante se atentar, pois nada disso passará de puro marketing se o objetivo final da empresa é controlar o mercado, e, consequentemente, impedir a concorrência e a disputa para agradar o cliente final.

Trazendo para o nosso caso aqui na Zerezes, nunca esteve em nossos planos – nem nunca vai estar – o objetivo de controlar algum setor/mercado. E nem achamos que nenhuma empresa deveria, porque essa é a melhor forma de estragar o seu incentivo de encantar os clientes.

Claro que queremos crescer de forma potente, causar impacto e transformar um setor ultrapassado – como estamos fazendo via o próprio modelo D2C, entregando mais valor pelo melhor preço, e investindo em inovações para promover mais comodidade para o consumidor. Espero que em alguns anos os clientes do mercado ótico tenham mais opções com inúmeras empresas que se dediquem a fazer produtos incríveis, lojas imersivas e prazerosas, e a entregar uma experiência fluída, além de um pós-venda encantador – e tudo isso a um preço justo, é claro!

Vai ser um prazer poder competir com outros times (empresas) para que cada um consiga encantar e entregar cada vez mais valor às pessoas que precisam de óculos. Da nossa perspectiva, é para isso que as empresas existem.

* Rodrigo Latini é cofundador e CEO da Zerezes