* Por Fabiano Nagamatsu

Trabalhar diariamente com startups, como é meu caso, é lidar com inovação. E é impossível inovar, principalmente se tratando de tecnologia, sem buscar soluções criativas para problemas cotidianos. Eu entendo a criatividade como uma habilidade, que também pode ser chamada de talento, e as pessoas podem já nascer com esse tipo de sagacidade ou podem desenvolvê-la ao longo da vida. 

Já dizia Joseph Schumpeter, prestigiado economista australiano que entendia inovações tecnológicas como o motor do desenvolvimento capitalista, que ser empreendedor e ser inovador são conceitos fundamentalmente interligados. O contraditório seria encontrar um empreendedor que não inova – este profissional teria muita dificuldade em encontrar seu espaço no mercado. 

Ou seja, é imprescindível que o empreendedor bem-sucedido não seja “mais um”. Ter esse chamado “espírito empreendedor” significa estar disposto a correr riscos, a agir em um mercado de incertezas. Sem dúvida, essa vida não é para qualquer um. Esse profissional precisa ter uma longa lista de habilidades ao mesmo tempo: deve ser criativo, mas pé no chão. Racional, mas ousado. Líder, mas humilde. E ele não pode deixar de ter inteligência emocional. 

Sempre gosto de falar que bons empreendedores não se apaixonam pela solução, mas pelo problema que querem resolver. A longo prazo, sua primeira solução não vai mais importar. 

É muito comum que novos empreendedores sejam profissionais que já atuaram por anos em um segmento específico do mercado, identificaram lacunas a serem preenchidas, e tomaram a decisão de preenchê-las. Ótimo. O problema é quando a solução concebida só atende um nicho muito pequeno no mercado e não é escalável – como toda startup deve ser. 

Por isso, os testes de validação são tão importantes. Saia da sua bolha e tenha empatia pelo seu público-alvo. Tendo paixão pelo problema, é muito mais fácil ser flexível com adaptações necessárias ao seu produto ou serviço. Assim, ele será absorvido com muito mais facilidade pelo consumidor. 

Outra máxima a ser seguida: se tudo vai bem, tem algo de errado. Não fique acomodado dentro da sua zona de conforto. Os desafios são justamente o que provoca aquela “bagunçadinha” que vai fazer toda a diferença para encantar seu público. Se os empresários tivessem se acomodado com os primeiros modelos de celular, hoje não teríamos os smartphones.

Durante minhas mentorias no InovAtiva Brasil, maior programa de aceleração de startups da América Latina, tenho a oportunidade de lidar com grandes grupos de novos empreendedores a cada semestre. Da minha perspectiva, posso afirmar que as ideias que mais enchem os olhos e causam entusiasmo são aquelas que esbanjam criatividade. Mas, também, sem exageros. 

Vá com calma. Você não vai lançar sua startup para resolver todos os problemas do mundo de uma só vez. A criatividade é um ponto essencial, mas ela também precisa ser dosada. Uma das situações mais recorrentes que enfrento em minhas mentorias é quando o empreendedor quer “enfeitar muito o pavão”, e as pessoas acabam não entendendo seu produto. 

Quando digo “dosar a quantidade certa de criatividade”, essa também é uma questão subjetiva. Mas o caminho para isso não é complicado. Tudo passa pelo entendimento da sua persona – seu público-alvo. Compreendendo bem quem ele é, onde está, quais suas dores e o que precisa, é possível começar com uma solução criativa para um problema específico e, então, pensar em novas opções, aprimoramentos e talvez até spin-offs da startup inicial. Mas, vamos por partes, que as oportunidades são muitas!


Fabiano Nagamatsu é cofundador da Osten Moove e mentor de negócios no InovAtiva Brasil, maior programa de aceleração de startups da América Latina, indicado dois anos consecutivos entre os 10 mais influentes em mentoria e investimento do Startup Awards 2019, iniciativa da Abstartups, e finalista como mentor do ano em 2020 e 2021.