* Por Ana Debiazi

De acordo com o Panorama da Open Innovation & Startups no Brasil, houve entre 2020 e 2021 grande aumento na atividade de open innovation entre corporações e startups. O número anual de relacionamentos dessa natureza mais do que triplicou de 2019 a 2021: foram registrados 8.050 relacionamentos em 2019, mais de 13 mil em 2020 e mais de 26 mil em 2021. Isso nos mostra que no ano passado, pela primeira vez no Brasil, o número de empresas que procuraram startups para fazer acordos e os efetivaram superou o número de startups que fizeram esse movimento.

Outro dado do estudo é o caráter multissetorial que o OI atingiu: entre os setores atendidos estão Serviços Financeiros, Logística, Energia, até os segmentos de Cosméticos, Saúde e Turismo. O ritmo de entrada de novas empresas vem acelerando e não há nenhum sinal de que estamos próximos a um ponto de saturação. Ainda se observa tendência de a intensidade de o OI aumentar de acordo com a curva de aprendizado das empresas, conforme elas se desenvolvem na prática e se relacionam mais com startups. Em termos práticos, as empresas já começaram a prestar atenção nas oportunidades que esse movimento pode trazer. O risco para empresas que não promovem inovação e novas formas de pensar suas práticas é alto, pois podem ficar para trás. 

Voltando duas casas, vou explicar o que é open innovation. Na tradução livre, “inovação aberta” é um termo criado em 2001 pelo professor Henry Chesbrough na Universidade de Berkeley, para que empresas dos diversos segmentos da economia promovessem ideias, processos e pesquisas abertos, a fim de aperfeiçoar o desenvolvimento e melhorar seus produtos e serviços, aumentar sua competitividade e eficiência, bem como reforçar o valor agregado. O conceito rompe com a ideia tradicional de que o conhecimento deve ser mantido internamente, e que as ideias partem apenas dos colaboradores da instituição. 

Para a inovação aberta, o compartilhamento de propriedade intelectual e profissionais externos pode contribuir para alcançar objetivos estratégicos. Sendo assim, esse conceito se espalhou rapidamente e continua sendo tendência. Só no Brasil, entre 2016 e 2020, o número de empresas que aderiram ao movimento e se uniram a startups para fazer inovação saltou de 82 para 1635. 

O principal benefício do OI é transformar em aliada uma startup que poderia ser sua concorrente ao lançar uma inovação disruptiva ou garantir que ela não trabalhe com quem já faz parte da sua concorrência. Nesse processo, além da parceria, ocorrem trocas de experiências, transferência de tecnologia e compartilhamento de conhecimento. 

Ao colaborar com partes externas, pode-se encurtar o tempo de desenvolvimento de novos produtos, ao entregar as atividades aos parceiros de inovação, no sentido de uma divisão do trabalho. Isso para que a empresa não precise contar apenas com o seu time naquele trabalho. Essas parcerias permitem reações mais rápidas às novas tecnologias e exigências do mercado, gerando vantagem competitiva ou, pelo menos, impedindo que seu negócio seja rapidamente ultrapassado pela concorrência.

O OI dá espaço para o envolvimento de clientes no processo de P&D desde o início. Isso aumenta a viabilidade do produto ou serviço, já que a empresa recebe feedback instantâneo sobre quais aspectos ou recursos são necessários ou úteis para o usuário final e quais não são. Os custos gerais da inovação aberta provavelmente serão menores em relação à quantidade de ideias e insumos, já que, para se fazer um processo de inovação interno, se consomem horas de trabalho dos funcionários à medida que participam do processo de inovação, bem como da própria ideia.

A implementação de qualquer novo método deve sempre ser estudada e viabilizada — não basta fazer porque outras organizações estão fazendo. No caso da inovação aberta, ao mesmo tempo que ela pode ser uma ferramenta econômica para novas ideias, também pode levar a um prejuízo irrecuperável. Conheça as necessidades de sua empresa e, caso ela esteja preparada, invista na inovação aberta seguindo métodos e modelos já validados.

Esse caminho não deve ser trilhado sozinho, mas com uma ou mais organizações de apoio ao ecossistema. Há uma variedade de agentes do ecossistema que se empenham em dar suporte no desenvolvimento do OI nas empresas, desde entidades governamentais até hubs de inovação, passando por aceleradoras, consultorias, fundos de investimento e outros.

Por um lado, para grandes organizações presas a processos, muitas vezes é difícil avançar rapidamente com a inovação. Por outro lado, parceiros menores, como startups, geralmente não têm recursos para levar os projetos adiante tão rapidamente quanto gostariam. A criação de uma parceria de OI pode reduzir os custos para o parceiro menor enquanto acelera os prazos para o maior e distribui o risco. 

As startups que trabalham com organizações se fortalecem, pois conseguem validar seus produtos/serviços, adequá-los às necessidades do mercado, além de ter acesso a toda a rede de clientes e fornecedores da organização. A tração de mercado da startup que atua com uma corporação é uma das principais vantagens.

Existem diversas formas de implementar OI dentro de uma empresa; tudo depende dos objetivos e das necessidades da organização. Os hackathons são eventos que reúnem diversos profissionais de tecnologia, principalmente os interessados em inovação. Programadores, designers e especialistas em softwares, entre outros colaboradores, se reúnem para encontrar soluções de problemas de uma maneira rápida e prática. Os eventos podem ser de iniciativa da própria empresa ou a partir de parcerias com startups, por exemplo. Aqui, a inovação aberta se mostra de maneira mais tradicional, em que organizações já consolidadas no mercado ajudam startups a estruturarem seus projetos.

Já o crowdsourcing concentra-se na obtenção de novas ideias em grande escala e para a criação de produtos e serviços com a ajuda de meios específicos, como as comunidades virtuais. Um dos focos principais desse tipo de OI é a busca pela melhoria constante nos processos.

Por fim, a cocriação nada mais é do que a construção compartilhada de ideias. Para que isso ocorra, as empresas envolvidas devem estar abertas para um diálogo claro, ter acesso mútuo às informações e recursos do projeto, estar cientes dos riscos e benefícios, além de ser éticas e transparentes na condução do projeto e suas atividades.

As ventures builders conectam empresas, startups e investidores, criando um ambiente de desenvolvimento de soluções para as dores das empresas, oportunidade de criação de novos negócios, além da redução de custos operacionais. Dessa forma se reduzem riscos e custos para todos os envolvidos, sendo esse um cenário favorável e benéfico em todos os prismas.


Ana Debiazi é CEO da Leonora Ventures, Corporate Venture Builder com DNA inovador e com proposta de trazer soluções para os setores de educação, logística e varejo e promover a aproximação entre organizações já consolidadas e startups.