Apesar de tudo, 2020 com certeza foi um ano histórico para os investimentos em startups. E 2021 parece que não vai ser diferente, prova disso é que só em fevereiro as startups receberam mais de R$ 1,3 bilhão em aportes. E as startups são dos mais diferentes segmentos como saúde, e-commerce, fintech e agro. E falando em agronegócio, foi um segmento que se destacou nos últimos meses com os investimentos da Sotran, Traive e TerraMagna, por exemplo. Segundo dados da Associação Brasileira de Startups, existem hoje 346 startups com soluções para o agro, dividida por diversos Estados do País.

Para entender melhor as perspectivas para o setor, conversamos com Francisco Jardim, sócio-fundador da SP Ventures, uma das gestoras de Venture Capital mais tradicionais do País especializada no agronegócio.

Segundo Franciso, o Brasil tem hoje o maior movimento descentralizado de agtechs do mundo, o que ele qualifica como algo muito robusto e que vem melhorando de qualidade ano após ano na última década. E melhorando a qualidade no sentido de os empreendedores estarem mais preparados e o mercado mais pronto para adotar as soluções.

Francisco Jardim, Sócio-fundador da SP Ventures

O mercado de agro no Brasil

“O ecossistema está muito vibrante, acredito que seja a primeira vez na história que o Brasil está na vanguarda de uma grande revolução tecnológica, que é a quarta revolução do campo. Hoje as agtechs brasileiras já substituíram as grandes empresas de tecnologia do agro como as principais ferramentas que levam para o campo. Hoje vemos blockchain, computação na nuvem, mobile, drone, satélite, ou seja, todas as novas tecnologias chegando através das agtechs”, destaca.

Mas a SP Ventures nasceu em 2007, de uma percepção muito forte dos fundadores de que o empresário brasileiro não conseguia captar dinheiro de longo prazo e qualificado que ajudasse na largada para construir negócios perenes. Além disso, optaram por um fundo nichado por acreditarem que qualquer fundo setorial é superior quando comparado a fundos generalistas. E os motivos são simples: mais especialização e conhecimento do time tanto para tomar decisões de investimento quanto para enxergar as dores de mercado, com melhor familiaridade sobre as estruturas das cadeias daquela vertical, perfil do time e mercado.

Um segundo ponto, que para Franciso, é até mais importante, é poder ajudar e agregar valor para o empreendedor no dia seguinte do investimento. “Depois que colocamos dinheiro participamos, via conselheiro e apoiador, então quanto mais conhecer o setor, mais eficazes seremos no valor agregado além do dinheiro”.

Hoje o fundo possui mais de 20 startups em seu portfólio com diversos cases como a startup Gênica, de biotecnologia e controle biológico com foco no controle microbiológico de pragas e doenças. A Aegro, que oferece um sistema de gestão de software para gerenciar pequenas e médias fazendas e a JetBov, que oferece uma plataforma de gestão para pecuária de gado de corte.

Além disso, o fundo acaba de realizar o exit da Brain Ag, a primeira saída de uma startup de agro do País, com quase 90% de taxa interna de retorno e mais de 600% de retorno absoluto.

“O fato foi importantíssimo para o agro brasileiro, acho que agora que tivemos a primeira saída, vamos ter uma corrida às compras. As grandes companhias vão entender que precisam comprar, senão ficam obsoletas já que não conseguem desenvolver tecnologia e modelo de negócio em um ecossistema tão efervescente”.

A Brain Ag é uma empresa especializada em data science para suporte de tomada de decisões de crédito agrícola e tem como objetivo derrubar a complexidade do crédito agrícola.

O melhor ano da SP Ventures

Apesar de um ano atípico por conta da crise do coronavírus, Francisco destaca que em 2020 tiveram o melhor ano da história da SP Ventures, que praticamente dobrou de tamanho em doze meses. Claro que no primeiro semestre, assim como a maioria dos fundos, eles seguraram os investimentos por conta do momento, mas terminaram o ano investindo em três empresas durante o segundo semestre. Foram US$ 3,5 milhões de investimentos, aproximadamente R$ 18 milhões só em agtechs.

Apesar de tudo, Francisco conta que o setor de agro acabou se beneficiando em alguns pontos com a pandemia. “Toda grande crise econômica acaba virando solo fértil para criação de novas empresas de tecnologia. A crise traz efeitos colaterais como alto desemprego, então tem mais mão de obra e talento disponível. Um outro ponto é que empresas estabelecidas e tradicionais podem enfraquecer ou morrer, com isso abre espaço no mercado. Um terceiro ponto é mudança comportamental, isso propicia novos modelos de negócio. Quando olhamos 2020, conseguimos enxergar esses pontos durante a pandemia”.

E os resultados também já começaram a aparecer em 2021, com a criação de um novo fundo de R$ 160 milhões, que ainda está em fase de captação, mas já realizando investimentos e que já está indo para R$ 300 milhões. Um diferencial desse novo fundo é que ele conta com a presença de alguns dos melhores investidores de agro do mundo como o fundo global de venture capital da Singenta, da Basf, Mosaic, Adiseo, BID e IFC.

“Queremos investir em até 10 empresas, terminar o fechamento do fundo atual superando os R$ 300 milhões, assim como terminar o ano vendendo algumas empresas do portfólio anterior. O time que está tocando o fundo é o melhor time que já esteve na SP Ventures”.

Como conseguir investimento?

Sobre o processo de captação de investimento, Francisco conta que eles fazem uma validação do time da startup para ver se eles estão preparados e qualificados do ponto de vista técnico, emocional e mercadologicamente falando. Depois olham o tamanho da dor e do mercado que estão atacando, que precisa ser algo grande. E por último, analisam a tecnologia e produto, para entender qual o estágio e escalabilidade, e o financeiro para chegar nas métricas.

E segundo Francisco, o momento é positivo para os negócios. “Nunca estivemos em um momento tão propício para empreender no agro brasileiro. Nunca teve tanto acesso ao dinheiro. Nunca teve tanto produtor e empresa do setor querendo testar novas soluções de empresas desconhecidas. Nunca teve tanta gente querendo trabalhar em empresas startups do agronegócio. Nunca foi tão viável levantar dinheiro, atrair talentos e conseguir clientes, os tripés para montar uma startup”.

Francisco finaliza deixando uma dica para os empreendedores que estão buscando investimento “acredite no que você faz, pois no final do dia um aspecto importante para atrair dinheiro, pessoas e clientes é que é preciso contagiar outras pessoas. A primeira coisa é acreditar no propósito da sua marca”.