* Por Rodrigo Amato

O mercado financeiro brasileiro vem passando por profundas mudanças nos últimos anos, se transformando em uma economia mais dinâmica e inclusiva. Nosso atual cenário macroeconômico inédito de juros baixos e inflação controlada, além da ascensão de fintechs que trazem produtos inovadores baseados na tecnologia, nos dão claro sinal de que é tempo de mudança e quem ganha com isso é toda a sociedade.

Para o crescente fomento da inovação, além do capital humano e especializado, é preciso ter acesso à captação de recursos que podem prover tanto do próprio lucro das empresas, como também de fontes externas por meio de fundos de investimento de risco no mercado de capitais, sendo este último menos oneroso e mais eficiente.

No entanto, esse acesso até o momento tem sido limitado somente às grandes companhias, temos algumas poucas centenas que se beneficiam disso, e do outro lado, empresas de menor faturamento ficaram reféns dos tradicionais agentes financeiros, com seus processos burocráticos, pouco inovadores e de alto custo.

Somado a isso, a crise sanitária, além de todo o transtorno causado à saúde pública, com diversas perdas de vidas, também afetou mais intensamente as empresas menores, desprovidas de capitalização, muitas não resistiram ao baque. Dito isso, por mais que o cenário seja delicado, e felizmente de gradual retomada após um período tão difícil, com a ampliação da vacinação, em conjunto com iniciativas de dinamização do mercado financeiro, podemos idealizar o ano de 2021 muito mais próspero, com novos horizontes à frente.

Uma dessas iniciativas que vem contribuir com a retomada econômica é o projeto de lei que cria os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais, o Fiagro. A iniciativa, que atualmente está em estágio avançado de discussão no Senado, se aprovada, permitirá aos produtores rurais mais possibilidades de captação de recursos com acesso ao mercado de capitais, sem a necessidade de depender de fundos públicos ou bancários para a obtenção de crédito.

Segundo gestores de fundos, a previsão de captação de recursos deve girar em torno de R$ 10 bilhões nos primeiros 12 meses. Atualmente, dos R$ 600 bilhões captados anualmente por empresas de todos os portes do agronegócio, somente 2% desse montante vem do mercado de capitais através de emissões de CRA.

Para quem veio acompanhando o desempenho dos fundos imobiliários (FIIs), que tiveram o seu ápice em um contexto ainda de juros altos, e que no último ano atingiram uma capitalização de R$ 105 bilhões, pode enxergar o potencial que há com a iminente criação dos fundos agro, imerso em um contexto de menor burocratização, maior acesso à tecnologia e maior liquidez, com a manutenção dos benefícios fiscais de pessoa física equivalentes ao CRA, cumpridas certas condições.

Ao final, a perspectiva de impacto é gigante na economia. Atualmente, o CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) consegue levantar fundos na ordem de R$ 12 a R$ 13 bilhões por ano. Já a partir da criação dos fundos agro, além de adquirir os ativos, será possível negociar imóveis rurais, investir em empresas do segmento ainda não negociadas como ativos de alto risco, além de fundos que tenham mais de 50% aplicados nesse setor. 

Com isso, abrem-se ricas possibilidades de financiamento de um setor que há tempos tem encontrado dificuldades de ampliação do leque de captação, dependendo cada vez menos de recursos de destinação obrigatória ou subsidiados pelo governo.

Esse movimento seguramente vai alavancar ainda mais o crescimento de um dos setores mais estratégicos da economia que, segundo o cálculo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Produto Interno Bruto do Agronegócio Brasileiro, no acumulado de janeiro a novembro de 2020, teve alta de 19,66%, o que representa R$ 322 bilhões injetados na economia, sendo R$ 115 bilhões vindos da pecuária (23,08%) e R$ 207 bilhões provenientes da agricultura (18,16%).    

Estamos confiantes no momento da virada, em um contexto em que há uma crescente vacinação de combate à covid-19 que gradualmente melhora a situação da saúde pública e traz mais otimismo com um todo, somado a um contexto macroeconômico de baixa taxa de juros, investidores indo atrás de novas oportunidades de aplicações mais rentáveis, migrando dos títulos públicos para os privados, além da entrada de novos competidores na emissão desses ativos.

Tendo todo esse panorama, só posso enxergar à nossa frente um caminho de retomada que beneficiará várias camadas da sociedade na viabilização de novos projetos e empregos. 

* Rodrigo Amato é fundador e CEO da Mark 2 Market, empresa de tecnologia com ampla experiência em assuntos relacionados à tesouraria e gestão de risco. Em dezembro de 2020, foi autorizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para atuar como Central Depositária de Recebíveis do Agronegócio (CRA), sendo a única companhia além da B3 autorizada a operar neste mercado.