A indústria, assim como o varejo e outros setores econômicos da sociedade, foram fortemente impactados pela pandemia do novo coronavírus. De acordo com a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) divulgada no início do mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o segmento fechou 2020 com queda de 4,5%, reforçando o recuo de 1,1% de 2019.

Por outro lado, se levarmos em consideração o patamar pré-pandemia, de fevereiro, a produção em dezembro esteve 3,4% acima. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, houve alta de 8,2%. Números à parte, o fato é que o cenário levou a algumas mudanças no comportamento de consumo da população, bem como na demanda por produtos e serviços. Sendo assim, o setor industrial teve de criar mecanismos para se adequar a nova realidade. 

Pensando nisso, o núcleo de Inovação e Digital Business do Grupo Stefanini, considerada a multinacional brasileira mais internacionalizada no setor de tecnologia, em parceria com o Centro de Liderança e o Núcleo de Empreendedorismos e Inovação da Fundação Dom Cabral (FDC), e com o STARTUPI, realizou o quarto de seis episódios da websérie Innovation Ecosystem, que visa ajudar os executivos e empresas a alcançarem um mindset de startup, com inovação em seus processos e uma cultura baseada na nova economia.

O encontro foi moderado por Geraldo Santos, diretor-geral do Startupi e teve como convidados, o vice-presidente da Gerdau, Marcos Faraco; o diretor executivo de Ferrosos e Carvão da Vale, Marcello Spinelli; Carlos Arruda, professor de Inovação e Competitividade, diretor executivo do Núcleo de Inovação da FDC e Gustavo Brito, diretor global de Digital Industry da IHM Stefanini.

Convidados do quarto episódio do Innovation Ecosystem.

Como tem sido o movimento de inovação dentro da indústria?

Inovação dentro da indústria e parte importante no processo de consolidação do segmento, foi um dos principais temas tratados pelos debatedores. Para Gustavo Brito, da Stefanini, o investimento em tecnologia já possui uma finalidade definida há muito tempo. “A gente não viveu e não vive uma revolução tecnológica. A leitura de toda a comunidade industrial é de que as lideranças já entenderam que esse movimento sempre teve um objetivo: aumento da competitividade global. A tecnologia é um meio para que a gente atinja um fim”, destacou.

Gustavo Brito, da Stefanini.

Já Marcos Faraco, da Gerdau, afirmou que, apesar do momento conturbado vivido pelo setor, foi possível observar várias transformações positivas. “A forma de se relacionar com os clientes está mudando, nós precisamos entender isso. Nossa forma de se relacionar com os fornecedores também. A forma de gerenciar nosso negócio, de buscar eficiência. Como a gente explora isso?”, questionou.

Marcos Faraco, da Gerdau.

Marcello Spinelli, da Vale, destacou que a adoção de iniciativas feitas pela Indústria 4.0 foi determinante para a trajetória de sucesso da empresa. Segundo ele, há um misto da paixão pela tecnologia e a questão dela ser cada vez mais evoluída e barata. “Fomos aprofundando o uso de tecnologias massivamente para experimentar melhorias no controle dos ativos e da produtividade. Esse foi um caminho. A companhia está passando por um processo de mudança cultural. Nós sabemos do nosso papel na sociedade e ao mesmo tempo, transformar o futuro em algo melhor. E nesse movimento, a inovação e as pessoas vem junto”. 

Marcello Spinelli, da Vale.

Qual o papel dos líderes no processo de inovação nas indústrias?

A missão dos profissionais em trazer a inovação para a indústria também foi tratada durante o quarto episódio do Innovation Ecosystem. Para Faraco, isso passa por uma mudança interna de cultura onde quem ocupa esses cargos precisa ter total autonomia para desempenhar o seu trabalho. “Como a gente transforma organizações industriais que foram moldadas em gestão muito bem estabelecidas? Como quebrar todo esse modelo e lidar com muito mais autonomia?”, questiona.

Para ele, muitas vezes, as respostas para estas perguntas estão fora dali. “Nem todas as pessoas brilhantes estão dentro da Gerdau. Tem muita gente fora que é muito boa também. Estamos trabalhando com um objetivo: nos transformar em uma organização com mais agilidade, de modo que as pessoas se sintam mais empoderadas a tomarem uma decisão. Esse tem sido o desafio. Estamos trabalhado muito na capacitação dos líderes”.

Geraldo Santos complementou dizendo que a principal barreira que impede as empresas de acelerarem o processo de transformação digital é a barreira cultural. “O investimento interno, em programas de intraempreendorismo, em programas de inovação para dentro de casa, mudança de mindset é o grande fator que acelera o processo de open innovation e aumenta muito o resultado quando você leva startups para dentro das corporações. Essa falta de cultura faz com que as startups não consigam evoluir nessa negociação e até mesmo nessa cocriação que é o caminho ideal. Quando você tem o público interno que conhece muito bem as dificuldades do negócio e da empresa, e traz de fora uma mentalidade aberta, ágil, com uma disrupção tremenda, então é o casamento perfeito”, apontou.

Geraldo Santos, do Startupi.

Marcello Spinelli reforçou que esse movimento de mudança cultural também ocorreu dentro da Vale. De acordo com ele, a ideia é que as pessoas envolvidas tivessem um espírito multidisciplinar e dedicado, tendo em vista a inovação. “Nós identificamos elementos dentro da organização e trouxemos essas pessoas para que pudessem coordenar essas iniciativas. Essa foi uma lição chave que nós tomamos. Outra coisa foi o estabelecimento de processos para que a gente pudesse gerenciar. Isso sem um processo, sem uma forma estruturada, é muito difícil”. E acrescentou. “Se você não tiver a percepção da humildade, você não consegue entender que a solução muitas vezes não está dentro de casa. Esse é o primeiro ponto. Eu diria que não é uma escolha, é uma sobrevivência também”.

Já Carlos Arruda, da FDC, também chamou a atenção para a importância de fomentar, a todo o instante, iniciativas que tenham como objetivo a inovação dentro das empresas. “Para muita gente, inovação é um processo de criação, de geração de ideias e quando a gente olha para isso em empresas inovadoras, o que nós vemos são processos que induzem e que criam um ambiente onde essas pessoas usam essa capacidade para gerar inovação”. 

Carlos Arruda, da Fundação Dom Cabral.

Ele também reforçou que a preparação dos líderes neste processo é fundamental para o sucesso da organização. “Eu preciso criar na cabeça dos líderes o entendimento do que é esse mundo digital. E não é simplesmente tecnologia, mas é a mudança de processos e o próprio envolvimento nas cadeias. Eu vejo um crescimento na consciência da liderança sobre essa importância e acho que isso vai transformar”.

Considerações finais

Gustavo Brito destacou que a Stefanini trabalha a inovação no desenvolvimento de produtos e ofertas, sempre com o objetivo de investir melhor e cada vez mais. “Uma outra frente está relacionada à mudança de processos internos. Esse ciclo de inovação trouxe muitas boas práticas de autogestão, da capacidade de tomar decisões. Ser uma organização cada vez mais responsiva é muito importante”. Já externamente, a empresa também promove a aceleração de startups, identificando as empresas que podem fazer parte do grupo em um momento futuro. Além disso, há um intercâmbio com a área acadêmica e também com as ventures. 

Carlos Arruda reforçou que a indústria brasileira está numa fase atual de “pré-Indústria 4.0”. Segundo ele, a realidade é que a mesma seja formada por diferentes graus de maturidade de gestão e sofisticação. “Uma boa parte, talvez a maioria, esteja ainda numa fase de pré-automação ou de preparação para automação. Então a Indústria 4.0 é um passo ainda bem além. Eu acho que esse é um grande desafio”.

Por fim, o diretor executivo do Núcleo de Inovação da FDC também elogiou o trabalho feito pelas empresas convidadas. “Eu acho admirável essas empresas divulgarem o que está sendo feito. Cada vez mais o mundo não tem barreiras, o conhecimento tem que ser compartilhado, porque aí sim nós vamos acelerar ainda mais”, finalizou.

Confira aqui o quarto episódio na íntegra:

O Innovation Ecosystem é uma websérie com 6 episódios onde serão abordados temas como inovação, ecossistemas, intraempreendedorismo e Corporate Venturing. A série volta em breve, com convidados e datas a serem anunciadas em breve. Acompanhe o Startupi pelas redes sociais e assine nossa newsletter aqui para saber mais informações.