* Por Ju Ferreira

Imagine a seguinte cena: o despertador do celular toca pontualmente às 6 da manhã. Você aperta o botão da soneca e dorme mais dez minutos. Às 6h10, acorda, senta na cama e abre o WhatsApp pra ver se tem alguma mensagem importante. Nada.

Daí escova os dentes e vai para aquele seu cantinho preferido da casa, fazer a sua meditação diária. Liga, no YouTube, um vídeo de meditação guiada, e o acompanha por 15 minutos. Aí já é hora de tomar seu café, lendo as notícias (no celular, claro!).

Depois uma rápida passadinha pelo Instagram pra ver o que há de novo e em seguida, tomar um banho rápido pra ir pro trabalho. Antes de sair de casa, coloca o trajeto no Waze, só pra ver se dá tempo de resolver uma coisinha no caminho. Chegando no trabalho, lê os e-mails e depois se conecta para uma sessão de teleconferência que vai durar até a hora do almoço.

Imaginou? Então aposto que você pode se relacionar com alguns elementos desse quadro. Mesmo que você não acorde às seis nem medite de manhã, ou que salte da cama assim que toca o despertador ou que utilize o transporte público para chegar ao trabalho. A questão principal aqui é notar que, seja qual for a sua rotina, o digital está emaranhado nela, onipresente, desde a hora que você acorda até o momento de ir dormir. 

Fala-se muito, nos dias de hoje, sobre a Transformação Digital. Isso é muito importante para as empresas, porque com o aumento da presença digital na vida de colaboradores e consumidores, é essencial encontrar novos modelos de negócios e formas de se comunicar, atender as pessoas e entregar os serviços de que elas precisam. Mas você já pensou que a verdadeira Transformação Digital já está em curso há algum tempo na sua vida? 

Sim, e ela tem tudo a ver com o surgimento dessa Cultura Digital que vivemos atualmente. 

Mas, afinal, o que é a Cultura Digital?

Cultura é um conceito complexo e tem a ver com o conhecimento, os costumes e hábitos de uma pessoa, empresa ou sociedade. Assim, a Cultura Digital é a maneira como convivemos com esse mundo digital ao nosso redor – e como a tecnologia está transformando a forma que nós nos relacionamos com outras pessoas. 

Então essa rotina polvilhada de momentos conectados via aplicativos de celular, a nossa dependência das telas e do Wi-Fi, a nossa nova paixão descoberta pelas compras online e até a maneira como nos comunicamos com nossos amigos e familiares, por mensagens de áudio e em grupos no WhatsApp são exemplos disso. 

A Cultura Digital traz muitos benefícios para as pessoas e os negócios. Por definição, a Cultura Digital dá mais autonomia às pessoas – uma vez que as informações, os produtos e serviços estão disponíveis para todos os que têm acesso à internet – e também oferece maior possibilidade de colaboração, já que se conectar com alguém deixa de ser algo complexo e está ao alcance das mãos em um aplicativo no celular, numa velocidade sem precedentes. 

Além disso ela gera muito mais oportunidades de aprendizado, tanto pela questão da disponibilidade de informações, cursos e recursos, quanto pela possibilidade de testar e validar ideias muito mais facilmente. Assim, se produz inovação e progresso para a sociedade de forma mais rápida, consistente e inteligente. 

Desafios da Cultura Digital

Acontece que a transformação da cultura dentro de empresas e organizações não é tarefa simples – é um trabalho contínuo e árduo. Além disso, a ausência de uma verdadeira Cultura Digital pode causar conflitos entre a estratégia de Transformação Digital das empresas e o que de fato acontece dentro delas. 

Tanto é assim que vários estudos apontam a Cultura Digital como um dos maiores entraves para a Transformação Digital. Num dos mais recentes, de 2019, o Gartner perguntou a um grupo de CIOs se a Cultura Digital era uma barreira ou um fator possibilitador para a Transformação Digital. O resultado acende um alerta para os líderes das empresas: 64% dos entrevistados veem a cultura como um obstáculo nessa jornada. 

Como uma empresa pode criar uma cultura que promova (ao invés de bloquear) a Transformação Digital?

Acho que esse é o grande X da questão, não é mesmo? Uma pesquisa do Great Place To Work (GPTW) aponta alguns caminhos. Depois de trabalhar por vários anos na desenvolvimento e mudança de cultura de várias empresas, eu tenho também outras ideias. Listei aqui algumas propostas, para que você possa começar a transformar a cultura da sua empresa já:  

Colaboração

Encorajar a colaboração entre os funcionários é certamente uma das maneiras de se criar uma Cultura Digital produtiva e efetiva. Nesse contexto, não é mais possível ter equipes trabalhando fechadas em silos de informação, assim é essencial promover a troca de ideias e aprendizados entre os departamentos. 

O desenvolvimento de competências de trabalho em equipe e liderança, que sempre foram importantes para as empresas, ganham ainda mais destaque. 

Comunicação Aberta e Transparência

Aqui, o principal é criar um ambiente onde as pessoas possam se comunicar, se sentindo seguras para acessar os níveis superiores da hierarquia. Também é importante ter a liberdade de tirar dúvidas e a certeza de que a resposta a uma pergunta razoável será direta e verdadeira. E que a prática de buscar culpados e apontar dedos para aqueles que cometeram um equívoco não será adotada, mas sim que se buscará aprender com os erros e melhorar continuamente. 

Autonomia e Suporte 

Um dos temas elementares da Cultura Digital é justamente a autonomia. Com recursos tecnológicos à sua disposição, qualquer um pode acessar praticamente qualquer informação e se comunicar com outras pessoas, tomando suas próprias decisões e buscando suas próprias maneiras de resolver problemas. Entretanto, a organização de muitas empresas ainda é engessada, deixando pouco espaço para a autogestão dos funcionários, para suas dúvidas e sugestões e incentivando o microgerenciamento de tarefas. 

Outro ponto aqui é que a autonomia não quer dizer “cada um por si e salve-se quem puder”. Os colaboradores precisam de suporte para desempenhar suas tarefas – e também precisam de um espaço seguro para tentar coisas novas, tomar riscos e eventualmente errar, sem que sejam castigadas por isso. Isso promove a criatividade, a agilidade e o espírito de inovação, e pode gerar importantes frutos para a empresa.

Justiça e inclusão

A Cultura Digital também prevê que os colaboradores sejam reconhecidos pelos seus esforços, não importando qual a sua posição na hierarquia e sintam que as decisões dos superiores são justas e não favorecem grupos ou pessoas por conta de predileções pessoais. Assim, cada um pode entregar seu máximo esforço com a certeza de que seu trabalho será valorizado e que as promoções virão de acordo com os resultados. 

Isso também privilegia a formação de times multidisciplinares e colaborativos, já que as habilidades únicas de cada funcionário serão consideradas e utilizadas na construção de um produto coletivo. 

Confiança

Atualmente, as pessoas têm buscado cada vez mais realizar o seu propósito de vida e ser feliz no trabalho. Isso começa com o alinhamento dos seus valores com aqueles da empresa. Assim, ter uma comunicação clara quanto aos seus valores, crenças e motivações é primordial – assim como vivenciar de fato esses princípios (não basta ter apenas um quadro na parede com essas informações!).

Prover qualidade consistente nos seus produtos e serviços também é algo que promove a confiança na marca. Isso vale para os clientes e vale também para os colaboradores – tem crescido cada vez mais a importância de se cumprir o prometido e entregar produtos e serviços de valor.

Desenvolvimento de Competências Digitais

Por fim, a dica é oferecer programas de treinamento e desenvolvimento para os colaboradores, de preferência que sejam lúdicos e vivenciais. Afinal, a menos que as pessoas se transformem, os negócios não irão se transformar. 

Investir em capacitação, seja através de cursos e treinamentos, coaching ou mentorias, traz mais produtividade e resultados. Mas não podemos nos esquecer do feedback: de nada adianta capacitarmos nossos recursos se não acompanharmos a evolução da sua atuação na empresa.

É importante lembrar que leva tempo para quebrar um sistema de valores e substituí-los com um novo e melhorado. Isso depende de estratégia, treinamento, feedback e formação de novos hábitos. E a construção desses hábitos depende de repetição, de reforço diário.

A Cultura Digital é uma realidade. Já estamos vivendo isso no nosso dia a dia. Agora precisamos pensar em implantar a melhor cultura na nossa empresa, para alcançar os nossos objetivos e gerar o maior impacto positvo no mundo. Eu reforço: para atingir o máximo potencial de uma empresa, precisamos atingir o máximo potencial de suas pessoas.

Deixo você com a frase do Satya Nadella, CEO da Microsoft: “Nós podemos ter todas as grandes ambições. Nós podemos ter todas as grandes metas. Nós podemos aspirar à nossa nova missão. Mas isso só irá acontecer se nós vivermos a nossa cultura, se nós ensinarmos a nossa cultura”.

* Ju Ferreira, palestrante e mentora, criadora da metodologia Alquimia Pessoal, executiva de uma empresa de TI há 17 anos.