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A média áurea nos negócios

* Por Sergio Roque

Quando começou a pandemia, percebi o movimento de muitos trazendo em suas mensagens positivas um alento para quem se abateu com o momento diferente. Com o tempo, estas mensagens sugeririam que o homem sairia diferente desta fase chamada de “novo normal”. Sairia melhor, mais sábio com a natureza, menos consumista, menos consumido. Eu que sou otimista, não acreditei nisso.

Por outro lado, quantas pessoas encontrei que tratavam a situação como o fim do mundo e que nós e nossos filhos estaríamos perdidos. Sozinhas em casa, perdidas e em depressão, com medo de morrer como poderia ser diferente? Eu, mesmo pessimista em relação ao ser humano, sabia que esta não era a realidade tampouco.

O positivismo exacerbado na maioria das vezes cruel a quem está andando na corda e o pessimismo que enforca aos poucos e, às vezes, aperta até a morte, nascem da mesma condição humana atual: cada um em sua realidade vive a transição, várias vezes no dia, entre dois mundos diferentes. Um mundo onde somos livres, já que não somos oprimidos por nada exterior às nossas escolhas. Onde se é permitido ser o que quiser já que a escolha é somente sua.

Podemos trabalhar de qualquer lugar, pelados se quisermos, desde que longe das câmeras. Podemos escolher ser como nos sentimos, mesmo se nos sentirmos ser um cachorro ou uma árvore e devemos ser respeitados. Podemos emitir nossa opinião a todo momento com a sensação de que somos escutados mesmo que para isso temos que reduzi-la a uma frase (o máximo que alguém lê) ou junto com uma foto fofinha para chamar a atenção.

Temos acesso a tudo e podemos saber tudo em questão de minutos. Basta um clique. O positivismo exacerbado não foi criado pelos coaches mal capacitados ou mal-intencionados desesperados para faturar algum dinheiro ou pelos gurus da transformação que traz o sucesso em todas as suas formas.

Afinal, o movimento “wellness” é mais poderoso e cobra muito mais por quase nada. A espiritualidade sem compromisso, sem regras e algum sacrifício ou renúncia e principalmente sem evolução moral, mas de fácil consumo, vende muito mais. A igreja dos desesperados lucra absurdamente e ainda não paga impostos.

Isso não exclui a culpa dos terapeutas e coaches do “vamos lá, que você pode tudo”, contudo, todos acima vendem muito mais e tem um papel muito mais preponderante no que chamam hoje de positividade tóxica.

Vamos olhar o outro lado. O outro mundo que transitamos é o reflexo da nossa perspectiva. Depende do tamanho da cela que criamos por nossa ambição de sucesso. Dentro dos limites do que nos permitem desde que seja politicamente correto e a capacidade de rir de si mesmo e do mundo e suas escolhas sem ser processado por isso. De entender que nossa opinião só vale para algumas poucas pessoas que a escutam (e nem sempre concordam) ou no voto democrático. 

Podemos trabalhar onde quisermos. Então, comecei a perguntar para executivos como estavam se sentindo trabalhar em casa e, todos sem exceção, me disseram estarem trabalhando muito mais do que no escritório. Por quê? Escolha própria. Era natural que com este cenário as empresas começassem a demitir e desmontar suas estruturas acenando que não voltariam mais a ter escritórios físicos e assim diminuir seus custos.

Empresas que só pensam de um lado sofrem do outro. Às vezes o outro adoece e mata a empresa junto. Sem relações e interações humanas some qualquer processo de inovação e não se cria nada de novo. As empresas não estavam investindo montes de dinheiro nisso? Não era essencial?

Podemos ser o que sentimos ser. Isso vale para o gênero. Para o vazio que habita a maioria das pessoas isso se chama propósito e elas não tem ideia do que sentem. Não é um defeito, apenas a evolução da alma.

Vivemos entre a necessidade de melhorar o desempenho todo dia e a percepção de que nunca seremos os melhores em nada. Éramos explorados e agora exploramos a nós mesmos e muitas vezes somos muito mais cruéis. Nossa referência eram nossos modelos de trabalhadores de sucesso, pais, tios, amigos. Hoje são empresários de conquistas bilionárias e os gurus que mostram em 10 passos como chegar no mesmo lugar deles. Fácil assim. É só comprar o curso, o livro ou contratar o xamã.

Não erámos o que sentíamos e hoje não sabemos o que sentimos para ser. O resultado disso é o cansaço extremo, crises de ansiedade de tirar o sono e a depressão que não deixa sair da cama. As empresas realmente acreditam que isso vai melhorar com as pessoas sozinhas trabalhando em casa? Quando doer em seus bolsos, tudo volta ao normal.

Eu não acredito em nada fácil nem tampouco que tudo é possível e só depende de nossa vontade de seguir certos ensinamentos ou práticas. Porém, empreender não é fácil e como no empreendimento da vida o mais simples é o mais difícil e sem um olhar positivo para a vida nenhum negócio cresce, nada novo nasce e startups viram “enddowns” em pouco tempo.

Para se olhar a vida, é preciso períodos de ócio, é preciso dormir direito, meditar todos os dias e ter objetivos além dos de negócios ou carreira. Objetivos claros familiares, sociais e espirituais.

Enfim, propósito continua sendo essencial e envolve o mundo a sua volta. O meio-termo da ética do sistema aristotélico, o caminho do meio e do bom senso nos levam ao simples e a sermos simples.


Sergio Eduardo Roque é coach executivo e de vida com foco em processos de autoconhecimento na SerOQue Desenvolvendo Pessoas. Com formação em engenharia (FAAP) e marketing (ESPM) atua há mais de 25 anos no mercado como executivo e empreendedor.

Espaço Exclusivo para Executivos e Empresários transmitirem conhecimento, experiência sobre carreira no mercado corporativo, transição de carreira de executivo para empreendedor, dicas e mentoria para quem está iniciando como Startups ou precisa se capacitar para tornar-se um Gestor.

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