* Por Rogério Borili Pereira

Sonho ou pesadelo, muitas vezes já imaginamos o que aconteceria se uma nave pousasse à nossa frente, trazendo os inesperados habitantes de outros planetas. Como seria essa primeira conversa? Imagine que eles não falam a nossa língua, nem são tão avançados a ponto de trazerem um Google tradutor. Por outro lado, nossos recursos de tradução simultânea não reconhecem as palavras dos novos amigos ET. Ou seriam inimigos? Não saberemos até que todos se entendam de alguma forma.

Quando um profissional do mundo tech encontra outro, as palavras podem parecer tão estranhas a quem observa quanto um diálogo entre ETs. Enquanto a conversa acontecia apenas no universo da tecnologia, onde todos trabalhavam isolados dos demais, essa não era uma questão importante.

Ocorre que agora a transformação digital trouxe a conversa para outros lugares e toda a organização precisa entender e se entender com os times de TI. Líderes de diferentes áreas participam mais das decisões que envolvem tecnologia e times trabalham em squads multidisciplinares, em um mix inovador de especialidades. 

Cada vez mais fica muito claro que acabou o isolamento do “planeta Tech” e dos outros planetas dentro das empresas, sejam elas startups ou organizações tradicionais. Quando todas as barreiras caem e se rompem diante da pressão dos avanços tecnológicos, os contatos passam a ser imediatos e todos precisam se entender. Nesse contexto, o “tecnês” se revela uma nova língua a ser compreendida por todos, ainda que alguns precisem de um tempo maior de adaptação.

Considerando as resistências que determinadas áreas ainda mantêm com os temas relacionados à tecnologia, acho muito interessante que os habitantes do “Planeta Tech” ofereçam uma contribuição valiosa aos grupos. Um gesto de boa vontade e apoio que pode ocorrer, por exemplo, em forma de glossário compartilhado para que todos possam participar da conversa. Ou tentando reduzir os termos técnicos mais específicos, substituindo-os por uma linguagem mais acessível.

Quando todos colaboram ampliam-se as possibilidades de aprendizado recíproco, multiplicando as competências de cada um. Essa visão do todo é cada dia mais necessária e valorizada nos times multidisciplinares e mesmo como competências individuais de relacionamento entre as diferentes áreas da organização. O avanço tecnológico e as pressões internas se tornaram forças tão determinantes que apenas a imersão em um estado colaborativo pode oferecer as possibilidades de aprendizado que todos necessitam.

Trata-se da sobrevivência das empresas em um contexto onde a tecnologia é o diferencial que define o valor da marca, permite a oferta de produtos e serviços essenciais, conquista a lealdade dos clientes com uma experiência mais relevante e, como consequência, amplia a participação no mercado e traz resultados financeiros. Uma realidade que nós, profissionais de TI antes isolados em ilhas de conhecimento usando uma linguagem própria, agora enfrentamos como parte de um todo.

Esse novo cenário de trabalho certamente valoriza ainda mais a profissão, mas também exige uma postura diferenciada, com uma atitude muito mais colaborativa. As dificuldades ocorrem para ambas as partes, de um lado profissionais de finanças, contabilidade, produto, vendas, marketing e outros que não apenas desconhecem os termos, mas o conjunto das atividades de tecnologia e agora não podem viver sem os projetos que nascem nessa área. De outro lado, os profissionais de TI que se acostumaram a ser acionados para tarefas específicas e agora se percebem integrados a tudo o que acontece nas empresas, com demandas de toda ordem para resolver hoje mesmo.

É visível que as relações precisam encontrar um ponto de equilíbrio que certamente vai se estabelecer com o tempo. Mas nunca ocorrerá sem a dedicação e o esforço recíproco. Nesse empenho a linguagem torna-se um fator essencial, porque o diálogo só vai ocorrer se todos se entenderem em um ponto comum.

Enfim, se você está circulando e conversando com os demais habitantes do seu “planeta Tech”, o “tecnês” certamente vai ajudar. Mas nos encontros fora desse contexto, se você não quiser parecer um ET, é melhor se esforçar para traduzir tudo o que for possível para facilitar a compreensão e o diálogo tão necessário ao bom entendimento entre todos. 

* Rogério Borili Pereira é vice-presidente de Tecnologia e Sustentação da Becomex Consulting. Atua na implementação de processos fiscais eficientes em grandes organizações visando compliance e ganhos tributários.