A empresária Cristina Junqueira, fundadora do Nubank, a maior fintech da América Latina, é uma das mulheres mais bem sucedidas do país. Mãe de duas filhas, Junqueira não deixa de dar atenção à família. Ela não tem babá e faz questão de sair do trabalho todos os dias às 17h para buscar a mais velha na escola.

Agora, está de licença maternidade. Com a crise causada pelo novo coronavírus, tem feito reuniões virtuais diárias com sua equipe para decidir sobre como a empresa deve caminhar em meio à pandemia. Participa também das reuniões dos conselhos de administração nos quais atua. Ainda assim, faz isso de forma a conciliar esses compromissos com a vida de mãe.

Junqueira garante que é possível, sim, ter uma posição de grande responsabilidade nos negócios e ser uma mãe presente. Ela conversou com Exame sobre o legado da quarentena para a vida das mulheres que trabalham, e deu algumas dicas práticas para manter uma rotina intensa no trabalho sem abrir mão de um tempo de qualidade com a família.

Como sobreviver na quarentena com trabalho e filhos?

Ainda estou em licença maternidade, então estou bem privilegiada nessa quarentena, não estou fazendo minha rotina normal de trabalho. Ainda assim, como estamos eu e meu marido em casa, estamos nos dividindo em turnos. Eu tento não marcar nenhuma reunião ou compromisso antes das 14 horas. E então passo a manhã com minhas filhas. Essa divisão, se for possível, é bem legal. Outra coisa interessante é criar alguma noção de rotina para as crianças. Isso dá uma sensação de normalidade e ajuda até emocionalmente. Além disso, é importante lembrar da necessidade de descanso. Muita gente tem dificuldade de separar as coisas com o home office. É importante criar algumas barreiras.

Acho que esse período também nos leva a repensar o que é sucesso. Às vezes as pessoas se colocam uma carga muito grande em relação a suas expectativas e isso acontece muito com as mulheres. As pessoas estão sendo esmagadas pelo peso de suas enormes expectativas, todo mundo fica se exigindo fazer altas atividades em casa, fazer exercício, comer direito, e não é real que vamos conseguir fazer isso. É ok sair dessa quarentena com a casa bagunçada, está todo mundo fazendo o melhor que pode. Vale a reflexão do que é essencial, de como tornar as rotinas mais práticas e fáceis. Se você puder se aliviar de alguma dessas pressões, melhor.

Como concilia maternidade e a vida de empresária no dia-a-dia?

A primeira coisa é uma rotina bem feita. As crianças precisam de rotina, precisam do conforto psicológico de saber o que vai acontecer. Quando você coloca o trabalho nessa equação, a rotina é mais importante ainda. Você precisa da previsão de que vai conseguir acordar tal hora e leva tanto tempo pra tirar as crianças de casa, deixar na escola e ir para o trabalho. Se a cada dia você faz as coisas em um horário, isso nunca vai funcionar. Dentro da rotina, procuro as oportunidades de otimização: quando a Alice era bebê, eu tinha duas bolsas de bebê iguais para levar para o berçário, então não precisava fazer a mala todo dia. Outra coisa é separar a roupa que vai usar no dia anterior. Essas micro-otimizações do tempo ajudam a deixar a rotina mais fácil.

Você não tem babá. Pode falar sobre essa decisão?

Eu sei que gosto muito de trabalhar. E a rotina de trabalho é intensa. Se eu soubesse que tem alguém em casa, eu me permitiria trabalhar muito mais. Gosto de pensar na minha decisão como uma maneira de me forçar a estar em casa, a cumprir essa rotina que eu escolhi para mim, para poder estar com elas. Se eu tivesse alguém em casa, provavelmente não sairia do escritório às 17h. Sairia, 18h, 19h, e nessa brincadeira já foi pelo menos uma hora que eu poderia estar com as minhas filhas. Outra peça bem importante é que não tem rotina que segure ou carreira que aguente se você tiver que fazer tudo sozinha. Eu e meu marido dividimos tudo. Nos revezamos nas acordadas da madrugada da bebê para ninguém ficar podre no dia seguinte. Se os dois não fizerem, não tem como.

Como dar conta de toda a demanda do trabalho até as 17h?

Eu me considero uma pessoa eficiente. Chego no trabalho por volta das 8h e saio 17h, tenho um número normal de horas de trabalho. E depois que as crianças dormem vou responder e-mails, etc. Mas, durante esse período de trabalho, eu sou extremamente eficiente. Eu não saio para almoçar, por exemplo. Acho que a última vez que saí para almoçar no Nubank já faz anos. Esse é um tempo muito precioso para mim. Eu prefiro sair mais cedo e trabalhar nessa hora do almoço, peço delivery, na gravidez levava minhas marmitas, esquento no Nubank, e como fazendo algo. Eu não perco dez minutos na hora do almoço.

Eu também tendo a não ter muitas distrações. Não paro para ver rede social, separo um horário para fazer isso à noite. A distração consome muito do seu tempo, quando vê foi meia hora do seu dia. Também tento me organizar pra ter reuniões todas seguidas. Se você tem um intervalo de meia hora entre uma reunião e outra, não consegue produzir quase nada nesse tempo. Também bloqueio alguns horários na agenda para trabalhar de forma mais profunda em algo e não ser interrompida. Outra coisa que faço é ouvir audiobooks. Tomo banho, escovo os dentes e dirijo ouvindo audiobook, vou ao extremo da eficiência, não tem tempo perdido para mim.

O que acha que o período de quarentena vai significar para as mulheres, em especial as mães, no mercado de trabalho?

Acho que muitas fichas vão cair para nós como profissionais, como mães e como sociedade. Por mais difícil que esteja, ouço muita gente dizer que os filhos estão felizes. Nas casas em que pai e mãe trabalham fora, as crianças veem os pais só à noite. E agora essas famílias estão fazendo todas as refeições em casa. Acho que esse período vai levar a uma reflexão sobre as escolhas que fazemos, muitas pessoas vão criar coragem e colocar na mesa o que querem, seja flexibilidade, seja uma carga de trabalho menor, ou trabalhar de casa alguns dias por semana.

Que reflexão faz sobre o Dia das Mães na pandemia?

Vale ressaltar que estou falando aqui de famílias que estão saudáveis, com emprego. Nessa crise só de ter saúde e trabalho a pessoa já é privilegiada. Feita essa ressalva, vale lembrar que as mulheres investem o dobro de horas em trabalho doméstico do que os homens. São mais de 20 horas por semana para elas, quando os homens fazem 10 horas. Com os dois em casa, esse peso aumento sobre as mulheres, e acho que vale lembrar disso no contexto do Dia das Mães. Essa é uma oportunidade de as famílias reverem isso, conversarem em casa, porque sem uma divisão fica tudo muito pesado. Acredito que tem muitas mulheres avaliando se deveriam desistir de trabalhar porque está pesado levar essa situação. A gente já vê mulheres investindo menos na carreira depois que têm o primeiro filho. Imagina ter como legado da crise um contingente de mulheres que olhe de maneira menos interessada para o trabalho por conta do peso do trabalho doméstico, que se sinta ressentida de carregar a casa sozinha. Esse é um diálogo importante no contexto do dia das mãe, não tenho dúvidas de que algumas mães adorariam ter esse presente.

* Por Mariana Desidério, para Exame.com