* Por Exame.com

Em uma das principais transações comerciais do ano envolvendo empresas de tecnologia, o Facebook anunciou na semana passada que estava desembolsando US$ 5,7 bilhões na compra de quase 10% (9,99% para ser exato) das ações da empresa indiana Jio Reliance. É um movimento estratégico não apenas para abocanhar um mercado que está franco crescimento no país, mas também para que Mark Zuckerberg estreite relações com primeiro-ministro Narenda Modi.

Antes de firmar acordo com o Facebook, a Jio já havia sido abordada por outras gigantes do mercado de bits e bytes, como Google e Microsoft. Segundo a empresa de Zuckerberg, o acordo marca o início de um “comprometimento com a Índia”, em que o Facebook vai passar a colaborar com a empresa para “encontrar novas formas para que pessoas e negócios operem de forma mais eficiente no crescimento da economia digital”.

Fundada em 2007 por Mukesh Ambani, mas com operações comerciais que se iniciarem somente em 2016, a Reliance Jio é a principal operadora de telefonia móvel da Índia. A empresa é subsidiária da Reliance Industries, um conglomerado asiático que conta com companhias de diversos setores, principalmente do segmento petroquímico, além de possuir presença no varejo e na indústria têxtil e que vale pouco menos de US$120 bilhões.

A Jio tinha 370 milhões de assinantes no país em 2019. Nas cifras, a companhia reportou receita de U$1,6 bilhão e lucro líquido de U$160 milhões no fim do último trimestre do ano passado. Para crescer, usou de uma estratégia ousada: passou a oferecer gratuitamente e durante seis meses um plano de internet móvel 4G com chamadas de voz para novos usuários. A tática agressiva fez com que outras empresas do país como Vodafone e Airtel revisassem o custo de seus pacotes de dados.

O plano do Facebook é auxiliar a operadora em sua entrada no varejo online, com a criação da plataforma JioMart. A companhia indiana pretende se tornar uma rival do e-commerce no país. Neste caso, o plano do Facebook é incorporar o serviço ao WhatsApp. Com mais de 400 milhões de usuários somente na Índia e aplicativo mais popular do país, o mensageiro seria utilizado para facilitar a experiência de compra do usuário através de dispositivos móveis.

Será uma disputa acirrada. Segundo dados da empresa americana S&P Global, o Flipkart, comprada pelo Walmart em 2018 por U$16 bilhões, detinha 31,9% do mercado indiano de compras pela internet em outubro 2019. A Amazon vinha na sequência com uma fatia de 26,2%. O restante era dividido entre dezenas de outras empresas, como Myntra (4,7%), Paytm Mall (3,3%), Snapdeal (1,9%), Bigbasket (1,8%), entre outras.

Do ponto de vista financeiro, investir neste mercado é perfeitamente cabível. As vendas do e-commerce na Índia cresceram 27,6% em 2019, atingindo receita de U$32,3 bilhões no passado. A previsão para este ano é de que o setor cresça 26,3%, para U$40,8 bilhões. A cifra pode chegar a U$66,2 bilhões até 2024, conforme dados da consultoria alemã Statista.

Mas essa não é a única razão pela qual o Facebook está injetando dinheiro na empresa de telefonia. O investimento também é uma forma de aproximar a companhia americana do governo local. Isso porque Mukesh Ambani, o fundador e CEO da companhia, é também o homem mais rico da Índia e um forte aliado do primeiro-ministro indiano Narendra Modi. No poder desde 2014, Modi tem dificultado a vida de companhias estrangeiras no país nos últimos anos, principalmente do Facebook, que busca aumentar seus negócios na Ásia.

A esperança do Facebook é de que o novo aporte – que ainda precisa ser aprovado por órgãos reguladores de mercado da Índia – permita à companhia ter um aliado nesta expansão.  Em mensagem de vídeo no anúncio do acordo, Ambani já fez coro ao empresário americano. “No centro de nossa parceria está o compromisso que Mark Zuckerberg e eu compartilhamos pela transformação digital abrangente da Índia e por servir todos os indianos. Juntas, nossas duas empresas vão acelerar a economia digital da Índia para capacitá-lo, capacitá-lo e enriquecê-lo.”

Dado curioso é que Modi é o político mais influente da rede social de Zuckerberg com mais de 44 milhões de curtidas em sua página pessoal na plataforma. Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump tem apenas 26 milhões de likes.

* Por Rodrigo Loureiro, para Exame.com