* Por Mathieu Le Roux

A crise pela qual estamos passando nos deixa uma sensação estranha de que uma semana parece durar um mês, e um mês um ano. Como em um terremoto, nós estamos assistindo a uma mudança sincronizada (e forçada para a maioria de nós) de hábitos, comportamentos e até mesmo de crenças. A crise acaba aposentando, à força, os conceitos antiquados e tornando populares as práticas que eram nascentes até poucas semanas atrás. Aqui, listo apenas alguns exemplos do que tamanha transformação estabiliza – ou rejeita.

As pessoas acima das organizações

Na hora de escolher favorecer a sobrevivência da loja do shopping ou da atendente, o mundo inteiro fez a escolha certa. Claro que alguns com atraso, mas quando o medo pega, as prioridades são claras. Vejo também que os temas de renda básica universal – “helicopter money” –  estão invadindo o debate público para definir a melhor forma de recuperar futuramente a economia, sem intermediário, sem burocracia. Isso tudo parte do princípio que organizações dependem mais de nós do que dependemos delas. E na hora do fim do tsunami, organizações se reconstroem, pessoas não ressuscitam.

O localismo tomando conta

A crise acelerou a convicção de que as medidas certas têm de ser tomadas na escala correta. Escala importa, e proximidade da realidade traz uma vantagem ao local para adaptar às soluções para a situação em tempo real.

Os hackers como novas referências

Assistimos a uma overdose de comentários de especialistas em todos os canais de notícias e o público cansou. Chegou a hora de celebrar outro tipo de expertise: a dos hackers que fabricam soluções, muitas vezes sem respeitar protocolos, mas quem ainda defende multar a ambulância furando o farol vermelho?

A busca da antifragilidade na carreira

Antifragilidade é a estratégia de construir uma carreira que é imune a acontecimentos imprevisíveis, mas esperados (o famoso Cisne Negro). Nessa crise, o entregador de comida se revela mais antifrágil do que a camareira de hotel. O desenvolvedor sênior freela com vários clientes fica numa situação melhor que o executivo de agência bancária.

 Aprender para sobreviver

A única forma de sobreviver é se adaptando, reaprendendo constantemente as habilidades necessárias ao mundo novo que está se abrindo. Ninguém acredita que está sendo fácil, mas a seleção está acontecendo.

Construir em vez de consumir

O mundo conectado está criando uma luta individual entre o seu tempo de atenção (consumindo) e seu tempo de criação (construindo). Como pai, eu vejo, com melhores olhos, duas horas no celular jogando Minecraft que meia hora assistindo BBB. E como a melhor forma de aprendizagem é fazendo, a capacidade de focar seu esforço na criação reforça a aquisição de habilidade.

Software continua devorando o mundo

Faz anos que observamos que “Software está consumindo o mundo”, mas com a quarentena que impossibilita deslocamento, aquela obrigação de firma reconhecida em cartório ou assinatura do contrato na agência bancária se tornam ridículas. Tudo que pode ser digital vai virar digital. Votos, assinaturas, reuniões, contratos, atendimentos.

O acesso acima da propriedade

A mesma quarentena 30 anos atrás iria celebrar os acumuladores que colecionavam filmes, livros e cd-rom (lembra?). Hoje, a necessidade básica de uma banda larga já resolve o acesso à cultura, informação e diversão. Esse mesmo acesso conecta cada um a um oceano de conteúdo educativo, e se torna uma porta de acesso para divulgar suas ideias e invenções. A escolha é de cada um. Quantos Rei Lear estão sendo escritos em quarentena?

Cultura acima de processos

A crise obriga toda organização, da startup até o governo federal, a repensar seus processos. Nessa hora, revela-se se a cultura interna valoriza a tomada de iniciativa, o diálogo e o foco no resultado efetivo – ou se o respeito medroso a um código processual inadaptado trava tudo. Nessa dimensão, autorizo-me a achar o brasileiro muito bem armado. Nada mais potente que a cultura do jeitinho quando usada para um propósito solidário.

* Mathieu Le Roux é cofundador de Le Wagon na América Latina, um dos mais bem avaliados bootcamps de programação do mundo.