* Por Tatiana Pimenta

Na última semana a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que estamos diante de uma pandemia. Essa declaração fez com que diversos empresários e lideranças governamentais dessem início a projetos de contingência.
Como empreendedora, ao observar o aumento dos alertas relacionados ao Covid-19, tomei a decisão de implementar medidas preventivas para o meu time. Pensava, naquele momento, em proteger a saúde e bem-estar de todos.

É preciso tomar decisões difíceis

Além de reforçar orientações sobre medidas de higiene e redução do convívio social, também passamos a fazer home office desde o dia 13 de março.

Decisão nada fácil de tomar, convenhamos! Sou fundadora de uma startup em forte crescimento, na qual praticamente toda semana temos onboarding de novos colaboradores. Boa parte do time nunca trabalhou de forma remota. Os recém-chegados nem sequer tiveram tempo de conhecer todos os processos da empresa. A apreensão e o receio de não conseguir oferecer o suporte adequado para o time e nossos clientes era grande.

Olhando de fora, às vezes parece simples tomar uma decisão e executá-la. Mas não é! O tempo para tomada de decisão foi curto. Ao mesmo tempo, a transformação para as pessoas foi drástica. Do dia para noite se viram obrigados a trabalharem de casa, tiveram o convívio com os colegas restrito e a rotina diária alterada. A mudança inesperada, por si só, se transformou em gatilho para o aumento de sentimentos como medo e angústia.

Algumas pessoas compartilharam individualmente o desconforto com a solidão da própria casa, o receio de perder entes queridos, o medo de uma crise econômica e por aí vai. É normal que a incerteza provoque aflição. Afinal de contas, medo é um sentimento natural que existe desde a época do homem das cavernas. Entre a decisão de matar ou morrer, lutar ou fugir, nosso corpo produz uma série de substâncias químicas que nos preparam para agir.

A overdose de informações é estressora

Na antiguidade, porém, não era todo dia que nosso ancestral encontrava um leão faminto! No entanto, o bombardeio de notícias e informações que recebemos hoje assumem o papel do felino, gerando bastante estresse. Ao mesmo tempo, a evolução também nos ensinou que os que se adaptam mais rápido são os que sobrevivem.

A única forma de evoluir e superar o estresse atual será concentrando nossa atenção no momento presente. Vale refletirmos o que de fato é real? Sobre quais fatos consigo ter ação? Como posso me manter saudável dentro de casa? Como controlar minhas emoções?

Ouvi de uma psicóloga que isolamento é um conceito relativo. Mesmo que fisicamente restritas, as pessoas mantêm o contato com o mundo. Segundo ela, a dica para gerir o estresse é filtrar com critério as informações que recebemos. Não devemos perder tempo com lixo digital. Além disso, é crucial mantermos nossas atividades profissionais numa
rotina o mais normal possível.

O papel da liderança

Uma coisa ficou muito clara nos últimos dias: nos momentos de caos, o papel do líder se faz ainda mais importante. Em meio à turbulência é preciso que alguém seja enfático ao afirmar: coloque as máscaras primeiro em você e depois nas crianças!

Todos esperam que o comandante seja o responsável por guiar o navio para águas tranquilas. E, como diz o ditado popular, mar calmo nunca fez bom marinheiro, não é mesmo? Ao invés de reclamarmos do problema, podemos inverter a lógica e aproveitar a chance de nos tornarmos melhores líderes.

Estamos diante de uma oportunidade única de repensarmos as relações trabalhistas, o formato de trabalho, o convívio social e muito mais. Se liderar estando muito perto já é desafiador, de forma remota, onde a comunicação fica truncada, o calo é bem mais embaixo.

Somos seres sociais e o isolamento provocará muitas reflexões. Com certeza, o covid-19 fará florescer a liderança natural de uns e fortalecerá a musculatura de outros.

Disciplina e priorização

Para o sucesso do trabalho remoto, disciplina, assiduidade e comprometimento serão muito importantes. Porém, arrisco ir mais além, vamos precisar priorizar e aprender dizer NÃO. Nunca recebi tantas mensagens, e-mails, pedidos de parceria e abordagens de vendedores como nos últimos 3 dias.

A caixa de e-mails lotada, o inbox do LinkedIn idem, bem como o de outras redes sociais. Diante de tantas demandas, como escolher as que daremos atenção? Como lidar com nosso sentimento de culpa por ignorar alguém ou levar dias para retornar uma resposta? Como dizer não sem carregar um peso emocional nas costas?

A psicóloga Ana Paula Dias costuma dizer que precisamos separar o que é nosso, daquilo que é do outro. Eu sou a única pessoa responsável por definir quais questões vou escolher tratar e quais deixarei de lado. Mais que isso, também devo assumir as consequências das minhas escolhas, certas ou erradas.

Fácil jamais será. O importante agora é enxergarmos, em cada problema, soluções criativas. Descobrir novas formas de lidar com a mudança de realidade, manter o bom humor e, acima de tudo, não pirar!


Tatiana Pimenta é CEO e fundadora da Vittude. Única brasileira finalista da premiação internacional Cartier Women’s Initiative Awards em 2019. Engenheira que se apaixonou pela Psicologia, pelo estudo constante do comportamento humano e da felicidade. Com mais de 15 anos de experiência profissional, foi executiva de sucesso em empresas de grande porte como Votorantim Cimentos e Arauco. É colunista dos portais Money Times, Startupi e Superela.