O último ano desta década foi agitado para o ecossistema empreendedor brasileiro. De acordo com o  Transactional Track Record (TTR), já são mais de 210 aportes em startups brasileiras em 2019, um número recorde: no ano anterior, foram registrados 122 investimentos, de acordo com a ABVCap.

Outra excelente notícia também é o valor captado por estas empresas. Até agora, foram injetados R$8,7 bilhões no ecossistema empreendedor do país. Em 2018, o valor não passou de R$6 bilhões. Este crescimento é exponencial: nos três anos anteriores, as cifras nunca haviam chegado a casa do bilhão.

Hoje, o Brasil já é casa de 11 unicórnios e está atraindo olhares do mundo inteiro. O fundo japonês SoftBank, por exemplo, é um dos empolgados com os talentos latino-americanos e, só em 2019, realizou 19 investimentos na região, sendo 11 deles no Brasil.

E não é só capital de fundos de investimentos que está agitando o ecossistema, o relacionamento com grandes corporações também está amadurecendo e ganhando vez. Neste ano aconteceram diversas aquisições relevantes, como a da Zup pelo Itaú ou a do Cheftime pelo GPA.

As statups também estão alcançando outros patamares, adquirindo outras startups ou criando joint ventures para inovarem em conjunto. Neste ano, a Neon incorporou a MEI Fácil e, mais recentemente, a Rock Content anunciou a compra de uma startup norte-americana.

Aqui, Renata Zanuto – co-head do Cubo Itaú, fala sobre as conquistas do hub  no ano e as previsões para 2020:

Possibilidades para o ecossistema empreendedor

Para Camila Junqueira, CEO da Endeavor Brasil, este movimento de consolidação do ecossistema brasileiro de startups está acontecendo de forma avassaladora. “Só esse ano a Endeavor acelerou mais de 300 scale-ups, e são estas empresas que estão impactando a economia do País. Para se ter uma ideia, Segundo o IBGE, menos de 1% das startups brasileiras eram de alto crescimento entre 2013 e 2016 – o que representa cerca de 20 mil empresas. Elas foram responsáveis pela geração de 70% dos novos empregos no Brasil neste período”, explica.

Marcos Mueller, CEO da Darwin Startups, acredita que este movimento, hoje, é próximo do que era o Vale do Silício entre as décadas de 1980 e 1990, quando os primeiros fundadores de empresas de tecnologia tiveram sucesso, ganharam dinheiro e passaram a investir em outros projetos.

“A principal transformação que aconteceu lá não foi a primeira safra, que deixou alguns poucos milionários. Foi quando os empreendedores colocaram dinheiro no bolso e começaram a investir em projetos muito maiores. E é algo que começamos ver. A gente acabou de entrar em um ponto de inflexão importante no ecossistema, de amadurecimento, que vai nos colocar em outro patamar – mas isso só vai acontecer quando a gente deixar os colaboradores dos unicórnios milionários”, afirma Marcos.

Representatividade

Para Itali Collini, diretora de operações da 500 Startups no Brasil, acredita que este patamar será atingido quando houver mais diversidade entre os times fundadores. “Nas startups que são bem sucedidas, há diversidade de gênero no time fundador. É preciso que encontremos os talentos, independente de onde eles estão. O potencial do capital humano está em lugares que o mainstream não pensaria”, diz a diretora.

“Quando a gente olha o cenário global, vemos uma mudança do Vale do Silício para outros lugares do mundo, como Sudeste Asiático, Oriente Médio, América Latina. A gente pode fazer uma analogia com o Brasil e pensar que não vamos ficar só no eixo São Paulo. Os talentos são distribuídos aleatoriamente na sociedade. Como a gente faz para encontrar esses talentos para poder apoiar esses empreendedores?”, completa.

Ecossistema e comunidades

O diretor executivo da ABStartups, Rafael Ribeiro, afirma que atualmente há cinco grandes eixos do empreendedorismo no Brasil – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Florianópolis. Mas, fora destas capitais, a realidade do empreendedor é completamente diferente. “O país passou por um processo de reformulação, a gente vem crescendo muito, mas poderia crescer muito mais se passasse a olhar para o Brasil como um todo. Iríamos encarar uma outra realidade, e teríamos muito mais unicórnios, muito mais cases de sucesso. Mas, para isso acontecer, precisamos olhar para a base da pirâmide.”

Ele explica que, para que as comunidades que se formam longe dos grandes centros sejam fomentadas, é importante que se reconheça as diferenças de realidade. “A gente vive em uma bolha. Tem cidade que tem três eventos por ano para a comunidade, mas aqui no Cubo Itaú (em São Paulo), por exemplo, são de cinco a sete eventos todos os dias, com mais de 2 mil pessoas transitando diariamente.”

“Não é apenas uma bolha de São Paulo ou grandes centros, mas da classe média, como um todo. Temos que levar esse debate para a periferia, para as mulheres. Temos que ser mais criativos para falarmos e atrairmos grupos subrepresentados no ecossistema empreendedor no Brasil”, complementa Itali.

Investimentos

Camila, da Endeavor, lembrou que, atualmente, mais de 60% dos unicórnios têm investimento de ao menos uma grande empresa. “As corporações são grandes investidoras das maiores empresas nos EUA – uma realidade que vai acontecer cada vez mais aqui – mas ainda metade desses empreendedores acha que esse relacionamento é muito difícil. Por isso, a gente ainda tem um embate cultural entre corporações e startups”.

Estudo feito pela Accenture mostra que 57% das empresas aumentaram o seu investimento em inovação tecnológica nos últimos anos – e até 2024 a maioria das empresas deve aumentar essa aplicação em até 25%. Apenas no Cubo, mais de 30 grandes empresas atuam fomentando o ecossistema do hub e se aproximam de startups para levar inovação dentro para dentro suas corporações. Em 2015, eram apenas três parceiros.

Marcos Mueller, da Darwin Startups, reforçou a importância das startups receberem investimentos ainda na base da pirâmide, ainda em estágios iniciais. “Espero que a gente tenha cada vez mais investidores de fora apostando no Brasil, especialmente em cheques menores. Espero que isso aconteça mais para o início da jornada. Porque é nesse momento que a gente influencia o cara a pensar globalmente. Quanto mais pessoas pensando na origem, mais fácil vai ser o trabalho de todo mundo aqui”, afirma. Ele ainda contou que, para 2020, um dos objetivos da Darwin é estruturar o próprio fundo de investimentos.

Novo ano para o ecossistema

Para 2020, os players de mercado acreditam que há muitos desafios e oportunidades a serem explorados pelo ecossistema. A falta de capital humano é uma delas.”Quanto mais o mercado aquece, menos talento a gente tem. A China forma 4,7 milhões de pessoas ciência, tecnologia, engenharia e matemática por ano. E a gente forma 50 mil aqui no Brasil. Então, é um problema que a gente já sente para os empreendedores, principalmente quem está começando tem dificuldade em encontrar talento”, diz a CEO da Endeavor Brasil.

Maria Rita, da Anjos do Brasil, aposta, para o novo ano, em startups que estão revolucionando a relação entre marca e consumidor, especialmente as que investem em curadoria de produtos. “Muitas startups estão trazendo produtividade e eficiência para toda a cadeia de produção. Mas as pessoas estão mudando, é um mundo diferente no qual o nosso relacionamento se transforma. Tratar as pessoas de uma forma mais integral, holística, olhando para o relacionamento e entendendo como a gente pode monetizar a curadoria, é algo que para mim é fundamental”, finaliza a investidora.

Imersão, inovação e comunidades

O STARTUPI também teve um ano agitado. Durante o ano, realizamos edições do Startupi Innovation Tour pelo Brasil, focados em comunidades e segmentos. Em março, por exemplo, levamos empreendedoras de todo o Brasil para conhecerem startups fundadas por mulheres.

Em julho, também desembarcamos em Belo Horizonte para apresentarmos San Pedro Valley aos participantes do Tour. O mercado de construtechs também foi tema de nosso evento imersivo. Por fim, realizamos, em parceria com a ABStartups, a maior imersão no ecossistema paulistano de inovação: o Plus Day | Innovation Tour, evento que antecedeu a edição 2019 do CASE.

Para 2020, o STARTUPI está preparando uma agenda repleta de eventos imersivos para que você conheça de perto os bastidores das maiores empresas de tecnologia do Brasil e – é claro -, faça muitas conexões! Fique ligado nas nossas rede sociais que daremos mais detalhes em breve!