Um novo fundo de investimento promete agitar o mercado latino-americano de startups. Criado por um grupo de brasileiros e sediado nos Estados Unidos, a ONEVC acaba de completar dois anos e já conta com empresas como Rappi e Pipefy em seu portfólio.

Até o presente momento, o grupo já investiu R$81 milhões em 15 empresas, tanto da latino-america quanto norte-americanas. A ONEVC conta com um valor de US$ 30 milhões sob gestão, além de US$ 8 milhões para investir em “oportunidades especiais”.

Em entrevista ao STARTUPI, Pedro Sorrentino – um dos fundadores do fundo, falou sobre a trajetória dos investidores e os planos de investimento para o Brasil.

Investimentos

Antes de iniciarem a ONEVC, em novembro de 2017, os sócios há tinham mais de 70 startups em seus portfólios. Ao lançarem o protótipo do fundo, decidiram investir em nomes que hoje são amplamente conhecidos do mercado, como Rappi e Pipefy. Posteriormente, com o sucesso dos aportes, iniciaram a captação para o fundo.

“Desde que investimos, Pipefy já levantou 45 milhões de dólares liderados pela Insight Venture Partners e a Rappi mais de 1 bilhão de dólares com SoftBank, DST, A16Z, Sequoia e outros”, explica Pedro.

De acordo com ele, o fundo tem como objetivo investir em fundadores excepcionais que estão em busca de grandes mercados que possam ser impactado pelo uso da tecnologia para resolver um problema. O foco, portanto, é em investimentos pré-seed e Série A, com aportes que vão de R$1 milhão a R$4 milhões.

Estão na mira da ONEVC startups que tenham atuação na América Latina e o desejo de serem ou empresas globais ou grandes players no mercado local. Em ambos os casos, as teses de investimento sempre devem atrativas o suficiente para futuros investidores do Vale do Silício. “Empresas como o Pipefy são um bom exemplo de investimento em uma empresa com o desejo de ser player global, enquanto a Rappi se encaixa mais em uma tese de um grande player local (da América Latina)”, explica o investidor.

Dentro dos mercados, o fundo foca em mobilidade urbana, logística, commerce, agtech, fintech, healthtech e marketplaces. “Somos flexíveis com relação a liderar ou não as rodadas de investimentos”, complementa Pedro.

Mercado

No último ano, a América Latina, em especial o Brasil, recebeu valores e quantidades recorde de investimento. Pedro tem uma visão otimista para o mercado da região. “Pelo capital que foi levantado pelos fundos, acredito que devemos ter cerca de US$3.5 bilhões investidos na America Latina, dos quais US$2.5 bilhões se encontram no Brasil. Para 2020, ainda devemos ter uma grande quantidade de investimentos sendo feitos. A maioria dos fundos que atuam na região acabaram de captar novos recursos, que certamente devem ser investidos nos próximos 2 a 3 anos. Neste cenário, o que pode mudar é que investidores de fundos grandes estejam buscando não apenas crescimento, mas também crescimento sustentável.”

O foco da ONEVC, na América Latina, destina-se especialmente para o Brasil. “Apesar de termos escritórios em São Francisco e São Paulo, somos brasileiros e empreendemos por aqui durante muito tempo”, explica. Dois dos sócios – Rafael Costa e Pedro Sorrentino – moram nos EUA há mais de 10 anos, o que faz com que levem a perspectiva de mercado do Vale do Silício para os empreendedores brasileiros. “Todos empreendedores vão precisar entender um dia o Vale, especialmente pois precisarão de capital estrangeiro em rodadas de investimento futuras”, diz.

A estratégia do fundo ao investir na colombiana Rappi, por exemplo, foi para ajudar a startup a lançar seu produto no mercado brasileiro. Para Pedro, dentro da América Latina, ajudar no Brasil é o diferencial. “Entretanto, estamos abertos a oportunidades em outros mercados, como México e Colômbia, por exemplo.”

Time fundador

A ONEVC tem um time bastante multidisciplinar e com conhecimentos distintos. Pedro trabalhou como investidor no Vale pelo FCVC, além de ter sido um dos primeiros funcionários do SendGrid, empresa que fez IPO e foi adquirida pelo Twilio.

Rafael Costa é sócio do fundo do cofundador da Microsoft, focado em growth-stage, e enxerga tudo que está acontecendo nas empresas mais maduras de tecnologia do Vale. “Quando investimos em uma empresa no Brasil, ajudamos a traduzir a narrativa desta empresa para o Vale, com o intuito de trazer mais capital na rodada em que investimos e e em rodadas subsequentes”, explica Sorrentino.

Brasil

Além disso, a ONEVC é formada por empreendedores e isso traz uma vantagem grande: “sabemos como é difícil montar uma empresa e ajudamos nossos parceiros a partir de uma posição de quem já viveu o que eles estão vivendo. Três dos sócios fundaram empresas, e dois com saídas de sucesso.”

Bruno Yoshimura é cofundador do Kekanto e Delivery Direto, empresas que foram as primeiras a captar com bons fundos do Vale como a Accel Partners. Ele liderou o setor de tecnologia por seis anos como CTO e depois migrou para a parte de vendas e marketing como CMO. Neste ano, o Delivery Direto foi vendido para a Locaweb depois de uma jornada de mais de nove anos.

Eduardo Campos, Venture Partner da ONEVC em SP, é CEO e cofundador da Yuca e anteriormente cofundou o Parafuzo, marketplace de limpeza.

Por fim, Arthur Brennand, General Partner também em São Paulo, e Alexandre Noschese, Venture Partner em Londres, trazem a experiência do lado do mercado de investimentos. Arthur trabalhou no mercado de asset management e com investimentos no setor imobiliário através da Iron House. Alexandre iniciou sua carreira no Banco Votorantim e atualmente cobre setores da nova economia em um hedge fund na Europa enquanto finaliza seu mestrado na London Business School.

Como resultado, entre as dezenas de investidas dos seis fundadores, antes de formar o fundo, há unicórnios e startups promissoras, como GymPass, Creditas, Idwall e Docket.

Próximos anos

Para o próximo ano, os sócios da ONEVC veem o mercado latino-americano cada vez mais aquecido. Para eles, os mais promissores são os de mobilidade urbana, logística, commerce, healthcare, agtech, fintech e marketplaces. “Também estamos bastante animados com empresas que resolvem problemas de infraestrutura básica em mercados locais e na América Latina vemos muita inovação voltada para problemas internos. Um exemplo recente foi nosso investimento na Idwall, que provê onboarding digital e serviços de verificação de pessoas para fintechs, marketplaces e bancos.”

O fundo de investimentos afirma ser a única empresa de investimento seed a ter presença no Vale do Silício e em São Paulo. Para Pedro, a ponte com um dos maiores polos de tecnologia do mundo pode propiciar diferenciais tanto para captação, quanto para as melhores práticas dentro do mercado. “Nosso foco está em servir empreendedores em três áreas chave. Ou seja, trazer mais capital nas rodadas de investimento, ajudar com contratações de forma ativa e táctica e, por fim, dar suporte às equipes de vendas ou business development”, explica.

Em termos de captação, a dupla nacionalidade do fundo é benéfica em duas coisas. Primeiro, dois dos sócios estão fisicamente no Vale fazendo networking diário com outros investidores. “Por isso, é muito mais eficiente para nossos empreendedores ter nossos sócios fazendo pitch do nosso portfólio diariamente e “ao vivo”. Segundo, entendemos como estruturar a narrativa para facilitar o entendimento por parte dos investidores. Investidores do Brasil estão investindo no próximo unicórnio, empreendedores do Vale estão interessados no próximo decacórnio e exigem uma visão mais profunda sobre diversos tópicos”, completa.