Aconteceu esta semana o Conta Azul [CON], conferência realizada pela fintech, reconhecido como o maior evento da América Latina para abordar contabilidade e tecnologia. Durante os dois dias de evento, foram mais de 4 mil participantes, para acompanharem o conteúdo de mais de 50 palestrantes, em cinco trilhas simultâneas.

O tema da edição 2019, segunda do evento, tinha como tema “um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”, pois comemorou o 50º aniversário da chegada do homem à Lua. A frase é mundialmente famosa e atribuída a Neil Armstrong, primeiro astronauta a pisar no satélite natural.

A tecnologia como premissa para a evolução de um negócio

A abertura do evento contou com a presença de Frederico Trajano, CEO da Magazine Luiza, uma das maiores varejistas online do Brasil. Ele explicou sobre como a marca, de mais de 60 anos de história, se tornou referência no e-commerce brasileiro.

“Parte do sucesso da nossa empresa foi trazer tecnologia para dentro não para substituir, mas para potencializar o contato humano. Nós queremos ser uma empresa digital com pontos físicos para não deixarmos de lado o contato entre as pessoas”, explica o CEO.

Uma das características da Magazine Luiza é ser uma companhia tradicional: em seis décadas, teve apenas quatro CEOs, mas isso não significa que a empresa não está ligada nas tendências. “O primeiro mito que eu derrubei foi de que para criar o novo você tem que destruir o velho. Eu procurei fazer o online e o offline 100% integrado”. Por exemplo, são hoje mais de 30 mil funcionários na rede da Magalu, mas mais de 40% do faturamento vem do e-commerce.

Para o CEO, a transformação digital de uma marca deve ser um meio para alcançar sucesso, não a finalidade. “A nossa meta não é que o e-commerce seja o principal. a meta é que o cliente escolha a melhor forma para ele comprar. O mercado do varejo hoje tem desafios estruturais, com uma das maiores complexidades tributárias do mundo e desafios de logística. São poucas empresas que ganham dinheiro. Por isso, queremos levar ao acesso de muitos o que é privilégio de poucos. O que eu quero é trazer para o brasileiro inclusão digital”, finaliza.

Conta Azul e a contabilidade que vai transformar o Brasil

Ainda no primeiro dia de evento, Vinicius Roveda, CEO e fundador da Conta Azul, falou sobre a importância da transformação digital na vida dos contadores.  “A tecnologia vem para que a interação humana vá além do trabalho manual. Então, a tecnologia não vai substituir o contador, mas potencializar o trabalho dele. O mercado mudou, não há o que discutir. Há novos caminhos claros para escalabilidade, produtividade e competitividade, que é sobre gerar valor. Competitividade gera prosperidade”, explica o fundador.

Lançamento Conta Azul

De acordo com ele, o propósito da Conta Azul é transformar o Brasil por meio do empreendedorismo. Por isso, a empresa anunciou novidades na plataforma. Com investimentos de aproximadamente R$ 25 milhões, entre pesquisa e desenvolvimento, o módulo Folha da Conta Azul Mais chega para atender clientes do Simples Nacional, Lucro Presumido e outros segmentos como Comércio e Indústria.

“A realidade é que os escritórios possuem áreas diferentes que atuam com Fiscal, Contábil e Folha, sem contar que muitas vezes usam um software para cada uma dessas atividades. Usar uma única plataforma minimiza a possibilidade de erros, aumentando a segurança e a integridade das informações. Nosso objetivo é tornar o que é complexo, simples”, explicou.

O futuro dos serviços financeiros

Um dos temas de destaque do evento foi o futuro dos serviços financeiros no Brasil. Representantes da Conta Azul, Banco Original e Creditas debateram o assunto em um painel no primeiro dia de evento.

“Nós queremos ver outros bancos se tornando digitais. A gente não quer acabar com o sistema tradicional, mas fazermos parcerias para crescermos juntos . Espero que possamos fazer parcerias e crescermos na mesma direção”, afirma Luana Bichuetti, VP da Creditas, ao falar sobre a importância da união entre startups e o sistema financeiro atual.

Carlos Rudnei Dutz, superintendente executivo do Banco Original, falou sobre como vê o os serviços bancários nos próximos 10 anos. “Acredito que teremos uma grande concorrência, por exemplo, como já acontece na Europa e Estados Unidos. Isso é bom, porque os bancos menores e as fintechs encontrarão seus próprios nichos, e isso beneficia os clientes finais”, diz.

Marcos Perillo, CFO da Conta Azul, complementou a previsão: “Nós queremos mudar a cara do empreendedorismo, fazendo desse um país melhor. As grandes corporações são necessárias, mas o Brasil tem uma característica das pequenas empresas alavancarem o PIB do Brasil. Por isso, soluções que focam nos SMBs são necessárias.”

Contabilidade e blockchain

Carlos Rischioto, da IBM, falou sobre o que muda para o universo contábil com a chegada do blockchain nas corporações. “Para começar a falar de blockchain, eu preciso entender quem faz parte da minha rede de negócios. Meus clientes, fornecedores e parceiros. Porque é essa rede que tornará possível o uso de blockchain nas minhas transações. É importante também saber quais são os meus ativos e porque é importante registrar estas transações em blockchain”, explica.

O executivo explicou ainda os conceitos da tecnologia, que nada mais é do que um livro-razão, ou seja, um registro imutável de transações. “A vantagem do blockchain é que as informações estão criptografadas, o que torna possível que apenas as partes envolvidas na transação possam acessar aquelas informações, além de tornar a fraude neste registro praticamente impossível.”

“O uso de blockchain no dia a dia de vocês não vai acabar com a profissão, mas vai se tornar uma poderosa ferramenta para que vocês realizem menos atividades mecânicas e passem a utilizar melhor o tempo de vocês, focando em estratégias e inteligência para o cliente”, explica Carlos.

Transformação digital é para todo mundo?

Uma pesquisa do MIT Sloan Review, com 1.000 CEOs em 131 países e 27 indústrias, revelou que 90% destes entrevistados acredita que seus negócios estão sendo reinventados por novos modelos digitais. 70% deles acreditam também que possuem as habilidades, líderes ou estrutura operacional adequada para se adaptarem.

“Esses dados mostram, portanto, que mudança digital não é sobre tecnologia, é sobre cultura”, afirma Gabriela Berriel, especialista em transformação digital. Para ela, um erro comum de grande parte das companhias tradicionais hoje está ligada a determinadas disfunções que vão a este objetivo.

“Por exemplo, muitas empresas desencorajam a criatividade, exigindo a criação de um comitê para estruturar os processos criativos. Ou remover riscos, querendo avaliar os impactos financeiros de uma ideia antes que ela seja desenvolvida. Ainda, há quem confine a inovação em uma determinada área, o que está longe de ser o ideal. Para inovar, todos os membros desta empresa devem estar envolvidos no processo”, explica Gabriela.

Pra a especialista, há quatro valores-chave que devem ser trabalhados na cultura digital: impacto, rapidez, transparência e autonomia. “É preciso adotar e refinar as práticas como experimentação rápida, times multidisciplinares, tomada de decisão baseada em dados obsessão pelo cliente e resultados”, diz.

Ela ainda destaca, entretanto, que valores tradicionais não podem – e nem devem – ser sacrificados, como integridade, ética e coragem. “As empresas devem valorizar o aprendizado constante de quem toma as decisões, criar diretrizes que facilitem a agilidade e autonomia, e incentivar a capacitação de colaboradores com treinamentos e cursos externos.”

Conta Azul e Amazon: Contadores como heróis – o desafio

Dentro deste universo digital, o Conta Azul [CON] levou para dentro desta edição um Hackathon, em parceria com a Amazon. Colaboradores e parceiros da CA realizaram uma maratona de 28 horas para desenvolverem soluções que respondessem à pergunta: “como tornar 70 mil empresas contábeis em heróis dos seus clientes?”.

Para isso, foram criados 7 times multidisciplinares, que apresentaram suas soluções em um pitch. Ao final, três soluções foram premiadas: a grande vencedora foi a equipe que desenvolveu uma plataform de comunicação e transmissão de documentos centralizados. Como prêmio, todos os participantes ganharam uma Alexa, assistente virtual da Amazon, e um óculos de realidade virtual.

Em segundo lugar ficou o time com o tema “como demonstrar o valor da Conta Azul de forma mais rápida para, com o apoio do contador, as MPEs alcancem o sucesso”. Em terceiro lugar, estava a equipe que desenvolveu a solução “surpreenda seus clientes com recomendações inteligentes.”

“A ideia é levarmos as soluções desenvolvidas para dentro da Conta Azul”, afirmou Ivan Sandrini, coordenador de desenvolvimento da empresa, responsável pelo Hackathon.

É preciso levar em conta as necessidades da sociedade atual

Para fechar o evento, palestrou Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil durante dois mandatos – entre 1995 e 2003. Além de político, Fernando Henrique é sociólogo, cientista político, professor universitário e escritor.

Durante o Conta Azul [CON], ele falou sobre sua trajetória política e como vê as rápidas transformações pelas quais o mundo vem passando, e como as empresas e a sociedade estão aptas a se adaptarem. “‘Cogito ergo sum’, dita por René Descartes, hoje não basta. Estamos na era do ‘estou conectado, logo existo’. O salto tecnológico para o qual temos que nos preparar vai ser enorme”, diz.

“O mundo em que eu vivia, nascido em 1938, era muito rústico comparado ao que é hoje. As coisas estão acontecendo muito rápido, e neste meio tempo a sociedade mudou muito também. Muitos dos conceitos fundamentais nos quais eu fui formado hoje nem fazem mais sentido”, afirmou, falando sobre as necessidades da sociedade atual.

Conta Azul con recebe FHC

Para ele, embora a tecnologia tome proporções globais rapidamente, é essencial focar nas pequenas ações para que se tornar relevante. “Vocês acham que o que vocês estão fazendo aqui não vai mudar o mundo? Claro que pode mudar, dependendo de como as coisas se propaguem. A gente precisa começar de algum lugar, e esse pode ser o primeiro passo.”

Sobre o impacto no dia a dia da transformação digital, Fernando Henrique enfatiza que é necessário levar em conta todas as necessidades e condições das pessoas em uma sociedade tão desigual quanto a do Brasil. “Temos que temer o futuro, porque ele vai mudar a forma de vida. Temos que buscar pontos de apoio na tecnologia futura para que ela seja humana. Para que isso aconteça, todos os tipos de pessoas devem estar envolvidos, fazerem parte das decisões e, principalmente, entenderem como estas mudanças impactarão suas vidas”, completa.