* Por Erik Nybo 

Uma das grandes conquistas da tecnologia e da inovação foi conectar as pessoas. Desde os modais de transporte e telefonia, traziam a possibilidade de diminuir o tempo de conexão entre as pessoas. Com a internet não foi diferente.

Se pensarmos no uso das cartas, posteriormente a telefonia, os grupos de chat no final da década de 90 e início de 2000, serviços como Skype e hoje, os aplicativos de mensagem como Whatsapp, notamos que todos eles nos auxiliaram a facilitar nossa comunicação.

Posteriormente, as redes sociais também foram ocupando esse espaço e se tornaram ambientes em que podemos nos comunicar não só por vias diretas, mas com comunidades ou com todos nossos contatos de uma vez só. Em alguns casos, nossas postagens excedem até mesmo nosso círculo mais próximos e podem impactar pessoas que ainda não fazem parte de nosso relacionamento de primeiro grau, como no LinkedIn.

No entanto, ao longo do tempo, esses aplicativos, que inicialmente traziam a possibilidade de comunicação, foram aprimorados para servir outros propósitos como publicidade e propaganda. Dessa forma, deixaram de ser uma ferramenta de comunicação para se tornar uma ferramenta de distração. Assim, Facebook, Instagram e outros tiveram que utilizar estratégias para que não fossem utilizados apenas quando é conveniente – precisam ser utilizados constantemente.

Pensando nisso, os responsáveis por produto dessas plataformas utilizam táticas de efeito psicológico para que as pessoas de fato sintam prazer em utilizar esses aplicativos ou ainda desenvolvam o vício no seu uso.

Esse tipo de tática está se tornando tão recorrente e resultando em problemas na sociedade que legisladores já estão propondo regras que buscam evitar ou impedir o uso de táticas psicológicas para aprofundar o vício das pessoas nos produtos tecnológicos.

Scroll down ou carrosel infinito (a busca sem fim)

O Instagram é uma ferramenta que utiliza várias técnicas para fazer com que o usuário permaneça utilizando o aplicativo. Conforme o usuário vai passando o feed para cima ou navegando pelos Stories de seus amigos, surgem novas postagens. Ou seja, quase não tem fim.

Isso faz com que o usuário se sinta instigado a continuar olhando o que está no feed ou na linha do Stories e assim permanece por horas no aplicativo. A permanência do usuário no aplicativo é importante para fins do principal produto monetizado da empresa: propaganda.

Nada mantém mais a atenção de uma pessoa do que a curiosidade – a qualquer momento entra uma nova postagem ou alguém pode ter postado algo. Na ânsia de verificar isso, por conta do scroll down infinito, as pessoas tornam-se viciadas nos aplicativos.

Botões de like

O botão do like é um dos ícones do que pode ser chamada de economia da atenção – uma internet formatada em volta das necessidades dos marketeiros.

Pensando em como certas funcionalidades podem instigar as pessoas, o botão de Like (assim como outros) tem o efeito de liberar dopamina nas pessoas, segundo estudos.  Assim, as pessoas sempre desejam verificar se alguém curtiu uma foto, post ou comentário para se saciarem de uma gota de atenção que gera uma felicidade instantânea.

Um dos responsáveis pela criação do botão de Like do Facebook, inclusive, desinstalou o aplicativo, dentre alguns outros, por medo do vício causado pelos aplicativos.

Estudos demonstram uma preocupação com a crescente atenção parcial – as pessoas não conseguem mais manter o foco ou prestar atenção em algo. Esses estudos indicam uma possível queda de QI. Além disso, demonstram que o mero fato de um smartphone estar perto de uma pessoa já resulta em uma queda da capacidade cognitiva por conta dessa distração, ainda que ele esteja desligado.

Autoplay

Essa tática é utilizada pelo Netflix e Youtube. Assim que você  termina de assistir um vídeo, outro começa a rodar de forma que você fica preso à tela para ver o próximo vídeo. O Netflix chegou até mesmo a criar meias inteligentes que pausam o conteúdo quando identifica que o usuário adormeceu – isso porque para o Netflix é importante que o fenômeno de binge watching (usuário fazendo maratona de filmes) se mantenha. Esse tipo de produto, associado ao Netflix, estimula o binge watching.

One tap

A tática utilizada pela Amazon e por muitas outras empresas de tecnologia é o one tap (um toque). Com apenas um toque você consegue comprar um produto ou serviço, de forma que esse comportamento se torna instintivo e menos racional. Se o caminho para a compra de um produto é tão simples quanto um toque na tela do celular, não existe tempo para que você pense se realmente deseja aquilo ou se aquela compra realmente faz sentido.

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Erik Fontenele Nybo, cofundador da EDEVO e head de inovação no Molina Advogados. Foi gerente jurídico global da Easy Taxi, tendo criado o departamento jurídico e foi responsável pelas questões legais em todos os países de atuação da empresa. Autor e coordenador do livro “Direito das Startups” (Juruá), autor no livro “Regulação e Novas Tecnologias” (Forum) e coordenador do curso “Direito em Startups” no INSPER. Pesquisador do GVCEPE – Fundação Getúlio Vargas. Advogado formado pela Fundação Getúlio. Email para contato.