* Por Tatiana Pimenta

No último final de semana a Vittude completou 36 meses de operação. Um marco e tanto para uma empresa brasileira. Segundo o Sebrae, 25% das startups fecham antes de completar seu primeiro ano de existência. Antes de completar 4 anos, esse número sobe para 50%.

Entre as principais razões de encerramento das operações cita-se o não atendimento de uma dor real do mercado, a falta de caixa e não obtenção de financiamento, o desalinhamento entre sócios, bem como a ausência de um modelo de negócios escalável.

Diante de dados históricos tão hostis, como os citados acima, e tendo começado a empreender no meio de uma crise econômica, considerei interessante compartilhar os aprendizados da minha jornada empreendedora. Indo na contramão da estatística, estou à frente de uma startup que cresce, em média, 20% ao mês desde dezembro de 2017. São 20 meses de forte crescimento sucessivo! Multiplicamos nosso tamanho por seis nos últimos 12 meses. Refletindo sobre a trajetória até aqui, percebo que alguns pontos foram cruciais para o sucesso.

Para mim, empreender significa estar disposto a falhar! Empreendedor é aquela pessoa disposta a fazer um “all in”, apostar todo seu patrimônio em uma ideia, produto ou negócio e dedicar horas e horas a fio de trabalho para levar sua solução ao maior número de clientes possíveis.

Recentemente ouvi de uma colega CEO, que fundar uma startup é coisa de gente sadomasoquista, rs. Pode até ser que ela esteja correta, mas apesar dos inúmeros desafios, trabalhar em algo que amo e que tem um propósito real faz meu coração vibrar todos os dias.

Nos últimos 3 anos, acumulei mais conhecimento do que nos outros 15 anteriores de carreira. Tive mais satisfação e mais alegrias do que qualquer promoção, atingimento de metas ou recebimento de bônus polpudo que o passado proporcionou. Por essa razão, resolvi compartilhar com vocês meus principais aprendizados e dicas!

Escolha um bom sócio

Quando eu digo bom, não quero apenas dizer competente. É preciso que sócios sejam complementares, que tenham skills capazes de fazer o negócio funcionar enquanto os recursos financeiros ainda são escassos. O ativo mais precioso de uma startup são os fundadores, seu poder de criação e capacidade de execução. É preciso engajamento e resiliência. Vocês precisam acreditar em valores semelhantes, para que possam criar uma cultura forte.

Uma sociedade é muito semelhante a um casamento. Exige dedicação, paciência, cumplicidade e respeito. Vocês terão momentos difíceis e um precisará segurar a onda do outro quando as coisas estiverem difíceis.

Perdi as contas de quantas vezes o Everton me olhou nos olhos e afirmou: vai dar certo! Isso, quando eu achava que estávamos perto do fim. Em outros momentos, a proximidade do término do caixa deixou ele desanimado e foi a minha vez de bater no peito e dizer, confia em mim, o investimento vai sair.

Enquanto eu sou a extroversão em pessoa, ele é analítico, preciso e direto. Enquanto eu sonho, faço mil planos, ele me puxa para o chão e mostra a realidade. Essa estrutura complementar é o combustível que nos move e, também, uma das grandes razões do crescimento da Vittude até aqui.

Contrate devagar e demita rápido

Atrair os melhores talentos é um desafio para qualquer organização. No entanto, em um estágio inicial, ter as pessoas corretas no time faz toda diferença.

O time precisa estar 100% comprado no propósito da startup, precisa ter brilho nos olhos e faca nos dentes. É necessário não somente competências técnicas, mas acima de tudo comportamentais. Um grupo desengajado ou desalinhado pode ser a receita certa de fracasso.

Para evitar que isso aconteça, invista boa parte do seu tempo no recrutamento. Trazer as pessoas corretas para o barco é um dos papéis do CEO. Tenha atenção ao processo de seleção, faça perguntas estratégicas, observe pontos cruciais como timing de vida do candidato.

Uma startup demanda muita energia no início, isso significa foco e muitas horas de trabalho. Se uma pessoa está querendo fazer um intercâmbio, cursar uma segunda faculdade, casar, viajar, ter filhos ou qualquer outra atividade que possa concorrer com a empresa nesse primeiro estágio, talvez ela não seja a pessoa certa. Pode ser no futuro, quando a empresa estiver mais estruturada e capitalizada.

Percebeu que contratou errado ou mesmo que as duas partes (empresa e colaborador) estão com expectativas desalinhadas, não exite em encerrar o vínculo. Por experiência própria, procrastinar uma decisão de demissão tem um efeito devastador. Corrói a cultura, desmotiva outras pessoas e pode trazer muita dor de cabeça.

Tomar decisões difíceis dói, principalmente quando estamos falando de pessoas que gostamos. Porém, não decidir é mais dolorido. A minha demora em desligar uma pessoa desalinhada no passado custou um turnover de 100% pouco tempo depois. Hoje dou risada da situação. Posso afirmar que contratar devagar e demitir rápido tem sido um dos meus maiores aprendizados.

Crie uma cultura forte

Não importa a cultura, desde que ela seja forte! Já diria Peter Drucker, a cultura come a estratégia no café da manhã. No final de 2018 começamos um trabalho de cultura organizacional na Vittude. Com o apoio de um mentor, definimos um conjunto de cinco valores que refletem o que meu sócio e eu acreditamos. Dentro de cada valor, listamos 4 atitudes ou comportamentos esperados de nós e também do time. Tendo como base um trabalho do Ram Charam, estruturamos uma régua, com uma pontuação de 1 até 4, que mensura a aderência de cada um aos valores da empresa.

Um dos nossos valores, por exemplo, é atitude de dono. Para esse valor, temos as seguintes expectativas:

– Dono é sempre aquele que faz algo a mais;
– Coloca o cliente em primeiro lugar;
– É ousado e assume riscos conscientes,
– É curioso, está sempre buscando novos conhecimentos.

Considerando o item “cliente em primeiro lugar”, uma nota 1 é atribuída quando não escutamos o cliente, demonstramos pouca empatia, demoramos a dar retorno ou solucionar os problemas. Clientes internos também são considerados clientes!

Na outra ponta, para receber um 4 é preciso ser verdadeiramente apaixonado pelo cliente, tomar ações para surpreender, engajar e criar fãs. É preciso estar preocupado em melhorar o produto ou serviço, a usabilidade, a experiência, inclusive ajudando o time de produto e tecnologia a desenvolver novas funcionalidades com base nos feedbacks recebidos.

Essa régua é usada para balizar uma entrevista por competências, por exemplo, de forma a assegurar a contratação de pessoas com aderência cultural. E também é usada para reforçar a cultura, reter, promover e desligar pessoas do time! Depois da experiência do turnover citada acima, garanto a vocês, cultura forte é fundamental. Seu time precisa vibrar na mesma intensidade que os fundadores, principalmente no early stage.

Celebre cada pequena vitória

Curta a jornada. Não olhe somente para o fim, o caminho tem que valer à pena, ou você perderá a vontade de levantar todos os dias da cama para mudar o mundo. Bateu meta? Comemore, grite, pule, ria, abrace seu time, saia para almoçar, faça um churrasco, leve todo mundo pro boteco. Vale qualquer coisa, só não vale passar batido!

Fechou um novo contrato? Estoure um rojão no escritório, bata sino, palmas, plante bananeira, faça uma dancinha engraçada. Coloque a energia e as emoções positivas a seu favor.

Recebeu uma nova rodada de investimentos? Estampe um baita sorriso no rosto, dê gargalhadas, expresse sua gratidão, vibreee!! A vida é feita de pequenos momentos, de pequenas conquistas e grandes lembranças. Siga sonhando, realizando e celebrando. Como diria Jorge Paulo Lemann, sonhe grande, pois dá o mesmo trabalho que sonhar pequeno.


Tatiana Pimenta é CEO e fundadora da Vittude. Engenheira que se apaixonou pela Psicologia, pelo estudo constante do comportamento humano, da felicidade e pelo desenvolvimento de times de alta performance. Com mais de 15 anos de experiência profissional, foi executiva de sucesso em empresas de grande porte como Votorantim Cimentos e Arauco. Faz terapia há mais de 7 anos, é maratonista amadora e praticante de Mindfulness. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade.