* Por Junia Nogueira de Sá

No seu discurso do prêmio de melhor atriz no Oscar 2018, Frances McDormand aproveitou a visibilidade do momento para cutucar um tema que toda mulher que trabalha, em especial as empreendedoras, sabe o quanto é importante: a oportunidade de discutir o financiamento de seus projetos.

Que uma das mais premiadas atrizes do cinema, aos 60 anos de idade e quase 40 de carreira, toque no assunto nesse momento em que sabe que há milhões de olhos e ouvidos colados nela, é sintomático. McDormand e aquelas mulheres indicadas ao Oscar que ela pediu que se levantassem na plateia, para que ficassem também visíveis, têm, como eu e você, dificuldades para vencer as barreiras impostas pela escassez de financiamento para projetos tocados por mulheres.

Não é fácil convencer investidores, até mesmo dentro da família, de que ideias saídas da cabeça de uma mulher têm futuro. É difícil para muitos homens também, mas é mais difícil para nós, mulheres, porque temos de convencer não apenas de que a ideia vale a pena, mas também de que saberemos cuidar do dinheiro colocado no negócio. De que entendemos de números, sabemos fazer contas e vamos multiplicar o investimento.

Porque, para muita gente, mulheres aqui incluídas, é como se dinheiro e o sexo feminino só pudessem se encontrar nos momentos de lazer.

Há incontáveis estudos que mostram que mulheres são melhores pagadoras – pagam em dia, direitinho – e são muito boas em economia doméstica. Ou a humanidade não teria chegado até aqui. Assim como há estudos que revelam que os juros de empréstimos para mulheres empreendedoras podem ser (e frequentemente são) mais altos do que para homens, de maneira a desestimulá-las da ideia de tomar dinheiro para empreender em searas que não são a sua.

A contradição ilógica do ponto de vista dos negócios só tem uma explicação: é cultural, arraigada na ideia de que mulheres não foram feitas para comandar coisas fora do lar. No máximo, pequenos negócios que elas tocam a partir de suas cozinhas, da sala de estar ou da garagem de casa, com as habilidades tidas como femininas – cozinhar, costurar, cuidar, arrumar cabelos e unhas – e que, na visão masculina do mundo, não demandam investimento além do seu “tempo livre”.

Mulheres e negócios são uma novidade mais contemporânea do que mulheres no mundo do trabalho. Se fomos empurradas para a produção para garantir mão-de-obra sempre que isso se mostrou necessário, e foi em vários períodos da História (o atual incluído), nunca fomos lá muito estimuladas a comandar a fábrica, o comércio, o escritório – e a cuidar das contas. Mulher que sabe negociar é, ainda, motivo de comentários (eu mesma já ouvi: “puxa, você fala de dinheiro que nem homem!”) e de reportagem de capa em revistas e jornais. E se está na capa é porque ainda chama atenção, é diferente e inusitado…

No palco do Oscar, Frances McDormand fez, no seu estilo informal e incisivo, uma provocação aos homens presentes à cerimônia: pediu que convidassem as mulheres ali em pé, todas elas com prestígio na indústria do cinema, para discutir a possibilidade de financiar seus projetos. Não na festa, apenas para cumprir o protocolo social de dar atenção ao que o outro fala num coquetel interminável. “Em alguns dias, no seu escritório, ou nos nossos, o que for melhor pra vocês”, disse ela.

Todo homem que tem a chave de um cofre de investimentos podia se inspirar nessa provocação: chame uma mulher empreendedora e ouça o que ela tem a propor. Abra a sua cabeça (isso é fundamental para o que vem a seguir nesta frase), seu coração e seu bolso, se ela o convencer de que tem um projeto que merece ser financiado. Se você quer ajudar a construir um mundo melhor e mais justo, esse é um bom passo, acredite.

* Junia Nogueira de Sá é jornalista, consultora de comunicação estratégica e membro do conselho de Rede Mulher Empreendedora, passou por redações de grandes veículos de imprensa, dirigiu a área institucional da VW, Telefônica, Grupo Abril e a Comunicação do Governo de SP. É especialista em reputação e imagem, gestão de marcas e liderança feminina.