* Por Elisa Feltran Serafim

Em nenhum outro momento a relevância do que é produzido e gerado nas regiões amazônicas esteve tão pulsante. O Brasil está localizado no continente mais biodiverso do planeta e levou-se muito tempo até que usássemos a biodiversidade como ponto de partida para o desenvolvimento social e econômico.

A Amazônia sempre atraiu olhares de todas as áreas econômicas mundiais, mas talvez a gente nunca tenha percebido que a maior fonte de conhecimento já estava – e sempre esteve – ali. A biodiversidade da floresta e do conhecimento local dos seus povos é a nossa grande riqueza; não é preciso trazer de fora. Vivemos a era do conhecimento e da criação colaborativa, da possibilidade de aprendermos e construirmos juntos. Sendo assim, o nosso desafio é coletivo, tal como a oportunidade de darmos luz a novos modelos de inovação com impacto glocal – onde os processos de globalização são dimensionados para reconhecerem a cultura de um local e são “adaptadas” para melhor execução de uma determinada expansão.

Estamos a um passo da quarta revolução industrial. Esta onda que acelera não mais o processo de produção de bens materiais, mas sim os serviços inteligentes que atendam organicamente à necessidade das pessoas e à interação delas com a cadeia produtiva como um todo. É a partir da natureza e do potencial que a biodiversidade já oferece, quando inserida em processos de inovação que integram esse conhecimento adquirido, que será possível desenvolver e desenhar cada vez mais sistemas, produtos e serviços inteligentes.

Em um contexto global cada vez mais complexo e tecnológico, parece quase impossível encontrar o caminho do meio. Mas, a natureza, e todo o ecossistema diverso e vivo que nela existe, proporciona o acesso a soluções simples, porém impactantes. A conexão de estudos sobre biomimética, permacultura e design vem abrindo horizontes e caminhos para que esse novo ciclo de inovação seja socioambientalmente construído e economicamente viável.  Alinhada com esse futuro que está nascendo, a biodiversidade natural e cultural do ecossistema amazônico pode proporcionar um salto de aprendizado sobre a impecável potência de processos regenerativos em relações ganha-ganha-ganha. Isso vale não só para startups, mas também para empresas e mercados já consolidados. Ou seja, ganha o mercado, ganha a sociedade e ganha a natureza.

É nessa onda de integração da biodiversidade com a inovação que nasceu o movimento Moara – um Think Tank que ativa, promove e fomenta o mapeamento, a articulação e a conexão de diversos players localizados, principalmente, na região do Pará. A Kyvo, consultoria que enxerga e realiza a inovação centrada no ser humano, desperta a energia propulsora que o movimento Moara possui com o objetivo de revelar o potencial inovador que o conhecimento dos povos da Amazônia possuem. É por meio do Moara que desejamos construir e orientar ações de impacto com relevância global baseados em open innovation. Trata-se de um ecossistema colaborativo que reúne iniciativas que já utilizam os conhecimentos da floresta que podem servir de base para a sociedade como um todo, com valorização da cadeia de produção nativa e desenvolvimento de soluções regenerativas combinadas com a arte, a ciência e a educação.

Vale ressaltar que esta percepção de que a inovação é peça-chave para preservar e regenerar a floresta não é exclusividade do Moara. O cientista Carlos Nobre, um dos maiores climatologistas brasileiros, trabalha no mesmo sentido, com a criação de laboratórios criativos que percorrem as comunidades amazônicas para registrar o conhecimento e a biodiversidade que fazem parte de seu cotidiano e, assim, gerar valor (propriedade intelectual, biotecnologia, etc.) para a região. É o oposto de uma cadeia extrativista.

Mas voltando ao Moara, conto dois exemplos significativos aqui. O Clube de Ciências da Cidade de Moju é um espaço de construção de um conhecimento científico que objetiva resolver problemas locais e contribuir para que os estudantes de ensino fundamental e médio desenvolvam habilidades técnicas e pessoais para se tornarem cidadãos autônomos e conscientes. Outro exemplo é a Agenda Awaete, que nasce da conexão da família Marytykwawara com rede global do Inajá – design permacultural – com maior atuação no sudeste nos primeiros anos e que ganha força a partir da conexão com o projeto Redário Paraense de Permacultura e Agroecologia, intensificando a troca de saberes dos povos das águas, terras e florestas na região norte.

Essa troca de saberes, entre os conhecimentos ancestrais e conhecimentos científicos, que é o grande legado para a descolonização do pensamento e que pode fomentar uma inovação de fato brasileira. Queremos fomentar esse espírito de valorização do conhecimento local para soluções de impacto glocais. Entre outras iniciativas relevantes estão: Instituto Paulo Martins, projeto A Ame o Tucunduba, BelOClico e o Laboratório da Cidade de Belém.

Motivada por essa intensa e diversa produção com alto poder de engajamento, a próxima edição do Amazon Launch, fórum de empreendedorismo e inovação focado na região Norte do Brasil e que acontece em Belém (PA), abre espaço para que mais iniciativas como essas ganhem atenção. Quem sabe a solução ou a inovação que falta para seu negócio não estejam pulsando nessa onda colaborativa e regenerativa que nasce do conhecimento vivo da floresta?


Elisa Feltran Serafim é pesquisadora na área de design e sustentabilidade. Atuou em diferentes organizações do terceiro setor realizando projetos em Curitiba, Recife e São Paulo e atualmente é pesquisadora e coordenadora executiva do movimento moara pela Kyvo Design-Driven Innovation.