* Por Exame.com 

A Netflix pode estar mudando seus negócios. E isso vai impactar diretamente na programação do serviço de streaming. De acordo com o site americano The Information, a companhia comandada por Reed Hastings vai diminuir o ritmo de lançamento de séries e filmes originais. Mas isso não é algo negativo. Em vez de quantidade, a empresa vai voltar seus olhos para a qualidade de suas produções, priorizando conteúdo com potencial de atrair índices maiores de audiência.

O plano foi divulgado durante uma reunião ocorrida em junho entre a companhia e investidores. Na ocasião, o diretor de conteúdo Ted Sarandos teria citado o investimento de 115 milhões de dólares no drama Operação Fronteira como um exemplo de um investimento que não rendeu o resultado esperado e contribuiu para um caixa negativo de 380 milhões de dólares no primeiro balanço de 2019.

É uma situação adversa e completamente diferente do que a empresa estava habituada nos últimos anos. Produções como Black Mirror, Stranger Things e 13 Reasons Why, por exemplo, se tornaram sucessos inegáveis na telinha. No campo dos longa-metragens, a consolidação do sucesso de investir em conteúdo original veio com os três prêmios na última cerimônia do Oscar para o filme Roma, dirigido por Alfonso Cuarón.

Do ponto de vista do negócio, essa seria uma estratégia surpreendente. Em 2017, com o anúncio do rompimento de parcerias com a Fox e com a Disney – que tem planos para lançar a sua própria plataforma digital –, David Wells, vice-presidente financeiro da Netflix, confirmou que o serviço de streaming planejava ter metade de seu conteúdo produzido em casa.

O executivo ainda completou que não esperava que cada lançamento se tornasse um sucesso absoluto ou um “home-run”, como ele citou em alusão a pontuação máxima do beisebol.

Em 2018, a companhia gastou 12 bilhões de dólares com a compra e produção de conteúdo para a plataforma online, 35% a mais do que o registrado um ano antes, quando o negócio de Reed Hastings desembolsou 8,9 bilhões de dólares para este fim. Neste ano, os gastos estavam estimados em 15 bilhões de dólares, valor que poderia aumentar para 17,8 bilhões de dólares em 2020.

Por outro lado, reformular os negócios não chega a ser propriamente uma novidade em Los Gatos, na Califórnia, onde a empresa está sediada. Quando chegou ao streaming, depois de anos trabalhando com o aluguel de DVDs pelo correio, a companhia inundou sua plataforma com conteúdo de terceiros. Para o consumidor, era uma alternativa mais barata do que a televisão por assinatura. Mas depender de outras empresas não era uma estratégia viável a longo prazo.

Cena do filme “Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón, que faturou três prêmios na cerimônia do Oscar em 2019 (Carlos Somonte/Divulgação)

De acordo com o jornal americano The New York Times, em 2018, a Netflix aumentou de 30 milhões para 100 milhões de dólares o valor pago anualmente para manter em seu catálogo o seriado Friends, que teve seu último episódio transmitido há quinze anos. Isso porque a AT&T, empresa de telecomunicações que controla o estúdio Time Warner, que por sua vez detém os direitos da produção, decidiu fazer jogo duro na hora de negociar.

Enquanto garantiu a presença da comédia nova-iorquina em seu catálogo por mais doze meses, a companhia perdeu os direitos de transmissão de outro hit que marcou época na televisão: The Office. A atração deixará a plataforma no ano que vem. Dados de um relatório produzido pela consultoria americana Nielsen para o The Wall Street Journal, mostram que o seriado estrelado por Steve Carell foi o conteúdo mais assistido na plataforma. Friends ficou em segundo lugar.

Endurecer a disputa por conteúdo era esperado das empresas que por anos permaneceram no lado offline da briga por audiência. Nos últimos anos, o setor de TV por assinatura sofreu uma sangria de assinantes. Segundo dados da empresa de pesquisas Leichtman Research Group, as empresas de TV por assinatura perderam 2,87 milhões de assinantes em 2018. É quase o dobro do registrado no ano anterior, quando a 1,5 milhão de assinaturas foram canceladas. O país conta com 89,1 milhões de assinantes.

Ao mesmo tempo, a Netflix cresce a ritmo acelerado. Somente nos Estados Unidos, a companhia tinha 58,5 milhões de assinantes no fim de 2018. Os números globais, referentes ao primeiro trimestre deste ano, apontam que a quantidade de assinaturas aumentou 25,1% desde o ano passado, somando 144,8 milhões. Em 2013, quando estreou House of Cards, drama político estrelado por Kevin Spacey, a companhia tinha pouco mais de 34,2 milhões de assinantes.

Avaliada na última sexta-feira (5) em 163,6 bilhões de dólares, a empresa viu suas ações se valorizarem 1.540% desde março de 2013, quando valia pouco menos de 10 bilhões de dólares. Vale lembrar que em 2005, quando abriu capital na Nasdaq, a companhia tinha valor de mercado de 700 milhões de dólares. Por isso, se consegue aumentar a sua base de assinantes ao mesmo tempo em que diminui os custos de produção de novos conteúdos, a Netflix coloca não somente um sorriso no rosto, mas também dinheiro no bolso de seus acionistas. Principalmente daqueles que não se incomodam com uma mudança aqui, outra acolá.

* Por Rodrigo Loureiro para Exame.com.