* Por Tatiana Pimenta

No início de junho tive a alegria de participar do Global Entrepreneurship Summit (GES). O GES é uma conferência organizada pelo governo dos EUA desde 2010 e em conjunto com outros países anfitriões rotativos desde 2011. O encontro nasceu para ser uma plataforma global que estimula o empreendedorismo e a inovação, promovendo a troca de conhecimento e compartilhamento de projetos por empreendedores, grandes corporações e investidores.

Trata-se de um evento cujo objetivo é conectar empreendedores e investidores de todo o mundo, criando novas oportunidades de investimento, parcerias e colaboração. O foco é formar relacionamentos duradouros e destacar o empreendedorismo como meio de abordar alguns dos desafios globais.

A edição de 2019, que ocorreu na cidade de Haia (Holanda), foi a primeira a ser realizada na União Europeia. Conhecer um pouco do ecossistema, incentivos fiscais e inovações dos Países Baixos foi bastante rico. Além do resumo do que vi por lá, também falarei sobre o que podemos aprender com os holandeses ao longo do artigo! Siga comigo.

O Futuro é Agora

Em 2019, o tema do GES foi o Futuro é agora! As discussões englobaram 5 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU:

  1. Fome Zero (Foco em iniciativas ligadas a agrotech);
  2. Boa saúde e bem-estar (Com discussões sobre o panorama da saúde nos próximos 5 anos);
  3. Água limpa;
  4. Energia limpa,
  5. Conectividade (um olhar para cidades sustentáveis).

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU

Além disso, outros 3 subtemas também fizeram parte do GES: empreendedorismo feminino, acesso ao capital e indústrias do futuro. A conferência contou com cerca de 1.200 empreendedores selecionados ao redor do globo, cujos projetos e ideias fornecem soluções para problemas sociais globais. Como a Vittude endereça uma das ODS’s foco do GES – ODS 3 – Boa saúde e bem-estar –  esta é a segunda vez que recebo o convite do governo americano para participar do encontro. O primeiro convite veio em 2017, para o Summit que ocorreu em Hyderabad, na Índia.

O discurso de abertura

Conduzido pela Rainha Máxima, dos Países Baixos, o discurso de abertura trouxe como pauta a cultura empreendedora como sendo a base para qualquer economia e sociedade prósperas.

A Rainha, com sua fala empática e inovadora, atraiu a atenção de todos. Devo confessar que fiquei completamente encantada com seu pitch e com a atenção da família real para a inovação. Queen Máxima, como é chamada, atua como representante especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para o Financiamento Inclusivo para o Desenvolvimento. Ela também é membro do Comitê Holandês para o Empreendedorismo.

Ela destacou que cerca 1,7 bilhão de adultos no mundo permanecem impossibilitados de acessar serviços financeiros, como poupança, crédito, seguros e pagamentos. E em termos de negócios, ainda hoje, cerca de 40% das PMEs formais em todo o mundo carecem de financiamento para se expandir, dificultando, portanto, um crescimento econômico inclusivo e robusto.

Segundo ela, alcançar um crescimento sustentável de pequenas e médias empresas é parte fundamental da agenda econômica holandesa. Ela enxerga que o empreendedorismo é essencial na criação de emprego, valor e inovação para qualquer país.

Em seu discurso, citou que as startups apresentam uma combinação de modelos de negócios inovadores e tecnologia. Isso, por si só, permite que elas criem novos produtos e serviços que atinjam mais pessoas a um custo mais barato, utilizem ativos não utilizados e aproveitem as informações de dados. Setores inteiros vem sendo transformados, de serviços financeiros a alimentos e agricultura, conectividade, energia, água e saúde, tornando esses serviços mais eficientes e mais acessíveis para partes ainda maiores da população mundial.

De acordo com a Rainha, para qualquer empreendedor existem cinco fatores-chave que podem ajudar sua empresa a prosperar e tornar nosso mundo mais inclusivo:

  • Acesso ao financiamento – tanto para empreendedores como para seus clientes;
  • Tecnologia – a necessidade de digitalização rápida de todos os negócios;
  • Um modelo de negócios centrado no cliente, que permita o uso e o acesso aos mercados;
  • Um ambiente propício, incluindo infraestrutura,
  • Parcerias estratégicas que possam alavancar os negócios.

Todos os pontos acima foram amplamente discutidos nos três dias de conferência e vou destacar alguns a seguir.

Acesso a capital

Vários painéis trouxeram à tona a discussão da falta de capital para crescimento dos negócios mundiais. Um estudo da International Financial Corporation (IFC) descobriu que a lacuna de financiamento para as Micro e Pequenas Empresas em mercados emergentes é superior a US$ 8 trilhões. A falta de garantias, histórico de crédito ou registros de transações dificulta ainda mais o acesso das PMEs a financiamento ou investidores.

Na Holanda, o Qredits adotou uma nova abordagem sustentável para microfinanças: uma combinação de serviços bancários tradicionais com um sistema de suporte de TI altamente sofisticado. A empresa foi criada especificamente para apoiar empresas menores que não tinham acesso ao crédito bancário normal.

Além disso, diversos debates abordaram a temática do empreendedorismo feminino. Em sua fala inspiradora de abertura, Queen Máxima afirmou que em termos de concorrência e dando a todos uma oportunidade, o empreendedorismo em si deve ser inclusivo, especialmente para as mulheres. Habilidade e inteligência atravessam o gênero, mas a oportunidade – e o acesso ao capital – não. Ela frisou que um estudo americano descobriu que, em média, as mulheres recebem menos investimento do que os homens. No entanto, as startups fundadas por mulheres geralmente entregam um retorno superior a duas vezes por dólar investido do que aquelas fundadas por homens.

Nos Países Baixos, apenas 8% das empresas que atraíram capital de risco têm mulheres nas principais equipes. Fato que mostra uma grande desconexão entre empreendedorismo feminino e capital de risco.

Para resolver esta questão e fazer o financiamento mais acessível para as mulheres, o FemNL foi lançado nos Países Baixos. Abrange a criação do Fundo Borski e um programa de mentorias que fortalece seu crescimento. Espera-se que esse fundo de investimento permita que mais talentos femininos criem empresas e, posteriormente, mostre a outros investidores que vale a pena investir em mulheres.

A saúde global nos próximos cinco anos

Como é comum em uma conferência desse porte, diversos workshops e reuniões ocorrem simultaneamente. Dada a maior sinergia com minha área de atuação, escolhi participar das discussões que abordaram além do acesso a capital e o empreendedorismo feminino, também o futuro da saúde.

Em painéis que contaram com a participação de experts do setor como o CEO da Royal Philips, ministros de saúde e fundadores de health techs globais, discutiu-se o espaço virtual, o avanço da telemedicina, acesso a saúde de qualidade e uso de big data.

Frans van Houten, da Royal Philips, trouxe diversos insights sobre o atendimento virtual para estimular a inovação e o empreendedorismo na futura prestação de serviços de saúde. Segundo ele, hospitais virtuais podem ser a solução para fornecer uma assistência que melhora os resultados clínicos, a experiência do paciente e da equipe, bem como a aceleração da cobertura universal de saúde.

Com base no sucesso de iniciativas já em andamento nos EUA e na Europa, Frans acredita que sistemas virtuais vinculados à redes de atendimento integradas são o caminho a seguir. No entanto, exigirá um processo de transformação contínua, gerenciamento de mudanças, colaboração aprimorada e inovação acelerada para implementá-los totalmente.

Uma rede de serviços de saúde integrada, nas quais os hospitais trabalhem digitalmente com laboratórios, práticas de cuidados primários e serviços de cuidados comunitários, será a chave para tratar doenças de forma mais eficiente e eficaz, bem como evitar que as pessoas adoeçam.

Também discutiu-se que, devido a uma escassez mundial de profissionais de saúde qualificados, uma consequência necessária é que o fornecimento de serviços de saúde se torne global, de forma a compartilhar recursos escassos mais facilmente. Isso significa que inovação não apenas em tecnologia, mas também em áreas como regulamentação, segurança cibernética, ética médica e sistemas de reembolso serão de vital importância.

Debates importantes, que só fizeram reforçar a missão e propósito da Vittude, enquanto empresa focada em ampliar o acesso a serviços de psicoterapia e saúde mental de qualidade.

O que os Países Baixos têm a ensinar

Não é de assustar que os Países Baixos tenham sido o primeiro local na União Europeia a sediar o GES. Conhecida por sua cultura aberta e um foco de fortalecimento do empreendedorismo e inovação, a Holanda abriga um rico e fervilhante ecossistema de startups.

O crescimento no setor está estável desde a crise financeira de uma década atrás. Assim como no Brasil, o desemprego levou diversas pessoas altamente qualificadas a criarem seus próprios negócios.

O que vi por lá e não vejo aqui é o ambiente favorável, além do esforço governamental para promover o crescimento das startups. Enquanto aqui a burocracia reina e a falta de infraestrutura castiga muitos negócios, a Holanda oferece um clima fiscal atraente, um processo de registro relativamente fácil e rápido para empresas em comparação com outros países da União Europeia e com o nosso também. De acordo como uma matéria da Forbes, a estrutura física e digital dos Países Baixos tem sido descrita como “próxima da perfeição” por muitos de seus empreendedores de sucesso.

A infraestrutura logística bem desenvolvida, com conexões para a Alemanha, Reino Unido e Bélgica de trem, um importante aeroporto internacional Schiphol e o porto de Roterdã, agiliza reuniões com clientes e a exportação de produtos para mercados estrangeiros.

Uma outra vantagem que as startups holandesas possuem é o acesso a mão de obra qualificada e altamente especializada. Aqui entra em cena uma outra área em que as políticas públicas pecam no Brasil: a educação de base. Graças ao sistema educacional holandês, é super comum a população falar, quase que fluentemente, até quatro idiomas. Fator super positivo para a natureza internacionalmente focada e escalável das startups de lá.

O país ostenta vários setores prósperos, entre eles a biotecnologia, mobilidade elétrica e sistemas de navegação, atraindo investimentos de grande relevância. Tenho certeza que temos muito a aprender com eles!

Porém, ao parar, refletir e comparar as condições oferecidas na largada, chego à conclusão que o que temos de valioso aqui é a resiliência do empreendedor brasileiro. Com todos os obstáculos e adversidades, vejo mentes brilhantes criando, inovando e mudando completamente alguns setores da economia. Mesmo diante da burocracia, ineficiência e dificuldade de acesso a capital, surgiram unicórnios por aqui como Nubank, 99, Stone Pagamentos e Loggi. E ainda muitos outros por vir.

Que os nossos unicórnios sigam sendo exemplo e inspirando a próxima geração de empreendedores brasileiros. E que estes brilhem muito, ajudando a transformar nosso país sempre para melhor!


Tatiana Pimenta, CEO e fundadora da Vittude. Faz psicoterapia pessoal há mais de 5 anos. É uma grande estudiosa de diversos assuntos relacionados à saúde mental. Tem dedicado atenção especial ao tema da felicidade e à forma como reprogramamos nosso cérebro para ter mais emoções positivas. Possui mais de 15 anos de experiência profissional, tendo atuado em organizações nacionais e multinacionais de grande porte como Votorantim, Cimpor (Cimentos Portugal), Arauco e Hilti do Brasil.