Não é segredo para ninguém que as abelhas são parte importante do equilíbrio do ecossistema. São mais de 20 mil espécies do inseto, considerado primordial para a existência de toda a cadeia alimentar. Entretanto, apesar do papel fundamental para a vida, estes bichinhos não estão a salvo do perigo da extinção.

Uma frase atribuída a Albert Einstein diz que, se as abelhas desaparecessem da face da Terra, a humanidade continuaria existindo por apenas mais quatro anos. O que poderia ser uma previsão apocalíptica do fim do mundo, se mostra agora um alerta. Um estudo da Agência Pública com a Repórter Brasil apontou um dado alarmante para todo o agronegócio do país: meio bilhão de abelhas morreram nos primeiros três meses do ano.

Este problema não é exclusivo do Brasil. Na Europa e Estados Unidos, há anos são registradas mortes em massa de abelhas. Do outro lado do mundo, uma startup irlandesa desenvolveu uma tecnologia para proteger e monitorar abelhas por meio de inteligência artificial. O Startupi bateu um papo com a head de comunicação da empresa, Aoife O’ Mahony, para entender como funciona a ApisProtect.

A empresa foi fundada em 2017 por Fiona Edwards Murphy (PhD cuja pesquisa acadêmica foi sobre uso de internet das coisas para saúde das colmeias), Padraig Whelan (diretor de ciência) e Andrew Woods (presidente da empresa).

Aoife explica que a ApisProtect usa pequenos sensores internos, adaptados dentro das colmeias, para monitorar as colônias sem atrapalhar a dinâmica das abelhas. “Os dados coletados são agrupados por meio de redes móveis e de satélite e, em seguida, são aplicadas técnicas de machine learning e big data, que extraem informações valiosas sobre a condição, atividades e níveis de produtividade das abelhas”, explica.

Com isso, são criados alertas inteligentes, com insights acionáveis, são fornecidos ao apicultor sobre a saúde da colônia, doenças, pragas e eventos importantes da colmeia, permitindo que eles tomem decisões eficazes sobre a apicultura, reduzam as perdas de colônias e aumentem a produtividade.

“O trabalho do Dr. Edwards Murphy sobre o tema do monitoramento de colmeias já recebeu muitos prêmios nacionais e internacionais do Conselho Irlandês de Pesquisa, do IEEE, da IBM, do Irish Laboratory Awards, do Google e da Global Entrepreneurship Summit”, conta.

Aqui, Fiona, fundadora da startup, fala sobre sua paixão pelo tema e o propósito da startup:

 

A startup já levantou US$1,8 milhão em investimentos, e de acordo com Aoife, a solução da ApisProtect tem baixo custo, tanto para a implantação dos sensores quanto para a assinatura anual para os apicultores. Graças à tecnologia, é possível identificar imediatamente quais são as colônias saudáveis ​​e quais precisam de atenção urgente, tudo de forma online e remota.

“As verificações periódicas podem perder as colmeias com problemas. Você pode ter duas colmeias, uma ao lado da outra, e uma ficará bem, enquanto a outra tem sérios problemas. Para operadores com milhares de colmeias, as verificações manuais não podem apontar todos os problemas com eficácia”, diz Aoife.

Atualmente, a ApisProtect está monitorando a saúde de 10 milhões de abelhas em 100 mil acres na Europa, América do Norte e África do Sul. Até agora, 200 colmeias já receberam os sensores da startup pelo mundo. “Nosso objetivo é coletar dados de abelhas em uma variedade de climas, áreas de forrageamento e estilos de apicultura. Isso nos dará um banco de dados chave para sustentar nossas unidades ApisMonitor disponíveis comercialmente em 2019.”

Fiona Edwards Murphy, fundadora da ApisProtect, mostra a solução da startup ao príncipe Charles. Foto: Frank McGrath/The Independent Irlanda

Ela conta que a startup pretende concentrar seus esforços este ano na América do Norte, Austrália e Nova Zelândia, mas esperam disponibilizar os produtos para a América Latina já em 2020. “Contribuindo com US $ 174 bilhões em polinização para a indústria agro-alimentar anualmente, as abelhas desempenham um papel essencial na produção global de alimentos. Um terço de todos os alimentos que ingerimos depende de polinizadores, e existem 91 milhões de colmeias administradas em todo o mundo. A apicultura é uma indústria global e esperamos ajudar a monitorar a saúde das abelhas em todo o mundo”, diz.

Embora a tecnologia da startup seja eficaz para monitorar a saúde destes insetos, muito pouco ainda se pode fazer quando o assunto são agrotóxicos, a causa da morte de pelo menos 80% das abelhas perdidas no Rio Grande do Sul, estado onde houve a maior baixa de colmeias do país no início deste ano. Para Aoife, “é vital para a comunidade agrícola trabalhar em conjunto com apicultores para garantir que eles se comuniquem sobre o que estão fazendo quando, para permitir que os apicultores limitem a exposição de suas abelhas quando qualquer pesticida for usado”, completa.