Nos últimos anos, felizmente, o empreendedorismo feminino tem tomado cada vez mais seu – merecido – espaço de destaque dentro do ecossistema de startups, tecnologia e inovação.

Nomes de mulheres que fazem acontecer em diversos segmentos têm inspirado novas empreendedoras a começarem um novo negócio e transformado um cenário que, até pouco tempo atrás, era movimentado quase que exclusivamente pelo gênero masculino.

Hoje, iniciativas de diversos setores, como RME, MIA – Mulheres Investidoras-Anjo, Elas_InTech, PrograMaria, entre tantas outras, empoderam, capacitam e criam uma rede feminina dentro da tecnologia. Dentre elas, destaca-se também a She’s The Boss, plataforma cujo objetivo é, segundo a própria plataforma, “o empoderamento através de vivências compartilhadas nos assuntos que mais nos atraem e que são necessários discutir”.

Fundação

Sua fundadora, a belo-horizontina Renata Carvalho, conta que começou sua carreira empreendedora por necessidade, após a morte de seu pai, aos 14 anos. “Nasci em um bairro de classe média, meu pai era o provedor e minha mãe ficou sem recursos para pagar meus estudos e para estudar entrei para o mercado de trabalho. Com dificuldades de adaptação às regras das empresas lideradas por outras pessoas, decidi completar um ano de emprego até conseguir algum dinheiro e iniciar meu primeiro negócio”, diz.

Com o dinheiro que juntou ao sair do primeiro emprego, Renata abriu uma fábrica de velas artesanais. Depois desse empreendimento, ela decidiu investir em conhecimento na área de tecnologia. “Depois, fundei um site de anúncios. Claro que ninguém queria comprar, porque isso era em 98”, brinca. “Logo depois, comecei a prestar serviços na área de tecnologia com produção de sites”, conta ela.

A ideia da plataforma surgiu em uma participação no CASE – Conferência Anual de Startups e Empreendedorismo -, no final de 2017. “Eu estava em uma fase de busca por novas oportunidades de inovação no mercado para agregar à Interweb Media, empresa de EAD da qual sou sócia fundadora e que, naquela época felizmente já não dependia muito do meu tempo na operação, ou seja, estava livre para novos desafios também. Ao me deparar com o público do evento em sua maioria masculino, comecei a questionar porque as mulheres são minorias nas empresas de base tecnológica e resolvi me aprofundar numa pesquisa intensa sobre o empreendedorismo feminino no Brasil e no Mundo.”

Para Renata, o resultado desta pesquisa foi alarmante. Um estudo do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – diz que, em quatro anos, a quantidade de mulheres em cargos gerenciais nas empresas brasileiras caiu de de 40% para 38%. O estudo diz que “no Brasil, 60,9% dos cargos gerenciais eram ocupados por homens e 39,1% pelas mulheres, em 2016. Em todas as faixas etárias havia uma maior proporção de homens ocupando os cargos gerenciais, o que se agravava nas faixas etárias mais elevadas”. A She’s The Boss surgiu para ajudar a equilibrar este cenário.

“Decidi que a She’s the Boss poderia incentivar mais mulheres a conquistarem cargos de liderança e empreenderem com mais confiança em seus negócios. No início o empoderamento era o foco e publicávamos vários artigos para discutirmos nossas dores e nos apoiarmos mutuamente, com o tempo, o foco foi mudando e a ‘causa’ passou a ser mais importante do que o modelo de negócio. Atuando à frente de uma empresa de tecnologia há mais de 10 anos, olhei para a minha própria história e percebi o quanto sofri com o machismo no trato com lideranças masculinas tanto com meus sócios quanto com os empresários que me contratavam, e quando a contratante era mulher (poucos casos) ficávamos amigas durante o desenvolvimento do trabalho”, explica Renata.

Renata Carvalho, empreendedora e fundadora da plataforma She’s The Boss

Ecossistema

A plataforma também possui um clube de associadas gratuito, em que qualquer mulher cadastrada pode utilizar descontos e vantagens oferecidas pelos parceiros. A fundadora explica que o Clube não é o core do negócio, mas oferece uma boa oportunidade de divulgação e visibilidade para quem está na rede de parceiros. Para participar, basta realizar o cadastro no site, e já são milhares de cadastradas que hoje usam o benefício.

Além disso, a She’s The Boss colabora com diversas instituições e ONGs que desenvolvem trabalhos sociais para as mulheres em situação vulnerável ou que precisam de emprego, de um plano de carreira ou qualificação profissional. “Este trabalho ainda está em desenvolvimento, pois um dos módulos do projeto é construir um programa de mentorias com baixo custo para o desenvolvimento pessoal e profissional da mulher. Atualmente procuramos projetos voltados para inclusão das minorias, apoiamos projetos de outras pessoas que chegam até nós e conectamos estes projetos a empresas ou instituições que possam ajudar de alguma forma. Também distribuímos cursos online gratuitos para grupos de mulheres que encontramos e tentamos ajudar em parceria com a empresa da qual sou sócia neste segmento”, explica Renata.

Dentro da plataforma, é possível encontrar cursos em diversas áreas de parceiros do projeto, voltados principalmente para elas. “A She´s the Boss também possui uma agenda anual de workshops, que serão ministrados por outras mulheres com várias competências e que chegam até nós pela própria comunidade. São mentoras de diversas áreas como administração, marketing, finanças, mulheres atuantes nas áreas empresariais e jurídica e muitas coachs de carreira, liderança e autoconhecimento. São parceiras importantes que nos ajudam a viabilizar eventos de baixo custo e conteúdo relevante.”

Liderança

Para Renata, o papel da She’s The Boss e de iniciativas de promoção ao empreendedorismo da mulher são de grande importância no mercado atual no país, uma vez que elas são responsáveis pela maior parte da movimentação deste mercado. “A mulher hoje representa 52% das pessoas que abrem empresas no país. Precisamos tentar aumentar o tempo de vida destas empresas e também incentivá-las na busca por cargos mais altos nas empresas, rompendo o teto de vidro que a sociedade patriarcal criou. Defendemos a mudança de mindset nas empresas, que devem se preparar para acolher uma mulher pós maternidade, por exemplo, a cultura precisa mudar e essa é uma luta de todas nós. Os movimentos femininos são de suma importância uma vez que quebram o paradigma de competição entre mulheres, incentivam a união e criam laços de afeto. Em nossos eventos presenciais é possível ver esta energia acontecer e até mesmo novos negócios surgirem a partir do encontro de mulheres ‘que deram match’ e se tornaram sócias ou parceiras. A ideia é fazer esta mulher prosperar e aumentar a diversidade não só no ecossistema empreendedor como nas grandes corporações”, afirma.

Renata acredita que ainda hoje é incomum ver mulheres que se identificam desde cedo com as carreiras tecnológicas de ciências exatas. “Presenteamos nossos filhos com brinquedos diferenciados por gênero, isso é cultural. A maneira como a sociedade se comporta ao definir o que é para homem e para mulher acaba interferindo no desenvolvimento de nossas competências e habilidades e os indicadores de mudança ainda não são tão expressivos, o mercado da tecnologia continua bastante masculino”, diz.

 Ainda assim, a empreendedora vê com otimismo as mudanças a partir das novas gerações que já nasceram neste universo da tecnologia. Para ela, o mercado de startups é um dos que mais contribui para este “despertar” das mulheres para este mundo. “A presença feminina de empreendedoras na tecnologia em sua grande maioria começa no e-commerce, a venda de produtos femininos online permite a flexibilidade no horário de trabalho e traz a liberdade para uma mãe cuidar da família trabalhando de casa.  Ainda não existe uma pesquisa formal mas estimamos que o ecossistema de startups possui apenas 15% de mulheres em cargos de liderança”, conta.

Futuro

Os próximos passos da She’s The Boss estão cheios de grandes planos. Um deles é o lançamento de um programa de aulas online para grupos de até 20 alunos em sete trilhas de conhecimento, que terá o formato de assinatura. Renata também pretende ativar produções de conteúdo em vídeo, podcasts e webinários, fortalecendo a comunidade e a rede de parceiros. “É importante dizer que a She´s The Boss está em busca de investimentos para ativar sua segunda fase e o modelo de negócios é bastante atraente para quem quer investir, não só pelo propósito.”

Para finalizar, Renata deixa um conselho para as que estão iniciando sua carreira com startups. “Acredite em si mesma, não se intimide quando lhe disserem que talvez você não seja boa o suficiente, porque você é! Estude o máximo que conseguir, exponha suas ideias mesmo que seja para um bando de meninos que tentarão te interromper numa reunião, não se cale jamais, ajude sua equipe, e que o universo das Startups é fascinante para quem não tem medo de arriscar, independente do gênero!”.

Para celebrar este universo de mulheres que estão movimentando seus mercados com soluções inovadoras e disruptivas, o STARTUPI realiza, na próxima quinta-feira (21), o Startupi Innovation Tour Especial Mulheres. Na data, os participantes conhecerão de perto os bastidores de alguns dos maiores cases de empresas fundadas e/ou lideradas por mulheres, além de terem a oportunidade de bater um papo e pegar insights de empreendedoras que fazem acontecer, como Escola de Você, Mastertech, Feira Preta, Trustvox, Klikey e mais! e  As vagas são limitadas. Para mais detalhes, acesse aqui.