* Por Camila Nasser

Nos últimos dias de fevereiro, a Pinterest protocolou um pedido de registro na SEC (A Comissão de Valores Mobiliários americana) para a abertura de seu capital na bolsa de valores. E parece que estamos com uma nova onda de Ofertas Públicas neste ano: além da rede de imagens, as gigantes Uber, Lyft, Slack e até mesmo a centenária Levi Strauss estão com planos de se tornarem públicas ainda em 2019.

Se nos anos 80–90 uma oferta pública de valores poderia representar retornos astronômicos para os investidores, o cenário hoje é bastante diferente — a maior parte dos retornos fica com o mercado privado.


Fonte original: Andreessen Horowitz

Empresas crescem antes de abrir capital

Em 1999, o tempo médio que uma empresa levava para abrir o seu capital na bolsa de valores americana era de 4 anos. Era essa a idade da Apple quando se tornou pública em 1980 — e, segundo estimativa do CNBC, quem entrou no dia do IPO da Maça teria hoje um retorno de 430x. Assim como a Apple, a Amazon, Microsoft, Yahoo e outras gigantes da era pontocom deram retornos significativos para os investidores públicos — que viram as empresas crescerem de bilhão em bilhão.

Isso não acontece mais: hoje as empresas levam mais tempo para se tornarem públicas — em 2014, a média era de 11 anos de vida antes de debutar na bolsa de valores. Esse aumento significa que as empresas estão abrindo capital em um estágio muito diferente, quando estão mais sofisticadas e são muito maiores (e geralmente globais).

Antes de chegarem nesse novo nível de maturidade, as empresas fazem múltiplas rodadas de financiamento com fundos de capital semente, Venture Capitals e Private Equity. Esses fundos são cada vez maiores, e fazem aportes de U$100 mil dólares a alguns milhões, dependendo do estágio das investidas.

No caso da Pinterest, foram 15 ofertas que a empresa de 9 anos já realizou, tendo captado um total de US$1.5 bilhão com investidores privados. Em 2011, quando levantaram investimentos em uma rodada Série B liderada pelo fundo de Venture Capital Andreessen Horowitz, a empresa estava avaliada em US$200 milhões. Agora, em sua próxima abertura de capital, estima-se que o valuation será de pelo menos US$12 bilhões.

Aqui no Brasil, onde o mercado é ainda tímido em comparação ao americano, a Nubank realizou sua 1ª rodada de investimento semente em 2013, recebendo US$2 milhões dos fundos Sequoia Capital e Kasztek Ventures. No ano passado, em sua 6ª rodada e com investimento de US$150 milhões, a queridinha brasileira atingiu o patamar de unicórnio, com uma avaliação de US$ 1 bilhão.

O retorno do investimento nessas empresas que multiplicaram seus valores ao longo dos anos, é compartilhado entre os fundos que salvo exceções, são restritos a investidores qualificados.

personalidade — Shark Tank, empreendedor e investidor — Mark Cuban, assim como a CEO da Nasdaq, Adena Friedman, já correlacionaram investimento em empresas abertas com distribuição de renda. Para Adena, “a queda no número de IPOs pode aprofundar a desigualdade de renda, à medida que os investidores “comuns” são cada vez mais excluídos das ofertas mais atrativas.”.

Mas se o acesso a dinheiro não é problema para empresas como Slack, Pinterest ou Lyft, por que abrir capital?

A tendência é que cada vez menos empresas abram capital para se capitalizarem. O motivo que leva empresas ricas a fazerem IPO é dar liquidez aos acionistas e funcionários mais antigos, e validar o negócio no mercado, mirando grandes clientes.

Pegue, por exemplo o Spotify: ano passado, a empresa abriu o seu capital através de uma listagem direta, sem captação de investimentos — mostrando que o interesse está mais no benefício de ser uma empresa pública do que no processo de captação em si.

Novas formas de participarmos do retorno

O mercado de capitais precisa se reinventar. Os reguladores estão constantemente lançando novas medidas para impulsionar abertura de mercado, e possibilitar que mais pessoas invistam em empresas fechadas é um desses grandes avanços.

Com o crowdfunding de investimentos, empresas podem captar até R$5 milhões por ano de forma pública, e com dispensa de registro na CVM. Para nós, os “investidores comuns”, seria o equivalente a participar, ao lado dos fundos, na rodada semente do Nubank em 2013.

Se estamos perdendo grande parte do retorno ao esperar que empresas já gigantes abram capital na bolsa, por que não investir antes?

Em um momento em que o mercado de capitais se abre cada vez mais a novos investidores, não existe receita certa. O legal é sabermos que temos boas alternativas para construir uma carteira de ativos diversificada — investindo em empresas consolidadas e mais seguras ou apostando em algo novo.

* Camila Nasser é cofundadora e head de marketing da Kria, plataforma online de investimento em startups.