*Por Exame.com

Negócios inovadores que estão começando e vão ao Vale do Silício (Estados Unidos) em busca de um impulso às suas empresas provavelmente possuem três nomes na ponta de língua: 500 StartupsTechstars e Y Combinator. Conhecidas como aceleradoras, essas entidades com sede na “meca das startups” dão capital e mentorias para levar empreendimentos a outro patamar — inclusive os brasileiros.

Ninguém explicita melhor a aposta em oportunidades latino americanas do que a 500 Startups. Criada pelos investidores Christine Tsai e Dave McClure em 2010, a 500 investiu mais de 454 milhões de dólares em mais de 2.100 startups, dez das quais foram avaliadas em mais de um bilhão de dólares (os famosos unicórnios). Ela é reconhecida como uma das primeiras aceleradoras do Vale a prestar atenção na América Latina — por consequência, no Brasil. A 500 Startups já investiu em 43 negócios brasileiros, da empresa de contabilidade Conta Azul até o site de estudos online Descomplica.

Recentemente, a aceleradora aumentou suas apostas na região com contratações e programas novos para a América Latina e para a costa leste dos Estados Unidos. “Vimos uma proliferação e um amadurecimento do ecossistema de startups nos últimos anos, o que explica o surgimento dos unicórnios”, afirma Itali Collini, diretora de operações da 500 Startups no Brasil, em entrevista a Exame.

Collini assumiu o cargo no ano passado, poucos meses após a 500 Startups criar uma segunda sede estratégica em Miami, costa leste dos Estados Unidos, com patrocínio da empresa de pagamentos Visa.

Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:

Exame— Qual é a tese e o tamanho do impacto da 500 Startups?

Itali Collini — Nossa tese é apoiar os empreendedores em tecnologia mais talentosos de todo o mundo. Então, primeiro, temos uma tese de atuação global e diversificada. Temos mais de 2.100 startups em nosso portfólio, sendo que 26% delas possuem fundadoras mulheres e 49% delas são de fora dos Estados Unidos.

Cerca de 60% dos unicórnios em que havíamos investidos antes são de fora dos Estados Unidos, o que prova a eficácia do nosso posicionamento. Temos quatro grandes fundos, de mais de 50 milhões de dólares, com maior presença nos Estados Unidos. Mas temos também 15 microfundos de 10 a 20 milhões de dólares espalhados pelo mundo.

Investimentos em 43 startups brasileiras e 33 delas continuam em atividade. São negócios como o serviço de contabilidade Conta Azul; a plataforma de bolsas Quero Educação; o site de estudos Descomplica; a startup de checagem de identidades IDWall; o negócio de venda de bilhetes Ingresse; o portal imobiliário Viva Real [que depois se uniu ao grupo Zap Imóveis]; o marketplace Olist; o portal de vagas Emprego Ligado; a empresa de marketing de conteúdo Contentools; os softwares de gestão Beautydate, Pipefy e Runrun.it; os serviços para saúde BoaConsulta e ProntMed; e o site Mediação Online.Veja também

Como dá para perceber, não procuramos startups de setores específicos. Algumas tendências acabam se refletindo em nosso portfólio, como blockchain, fintechs, inteligência artificial e saúde. Elas estão em maior número, mas não investimento apenas em setores supostamente quentes.

Por fim, temos um posicionamento de investir tíquetes menores em muitas startups, como forma de ampliar nossos horizontes de atuação.

Como é o processo de aceleração?

A 500 Startups foi criada como um fundo de venture capital focado em startups em início de negócio. Logo os fundadores perceberam que só dinheiro não bastava para alimentar esse ecossistema. O empreendedor em estágio inicial ainda não possui conhecimentos em como apresentar e vender seu negócio ou nem sabe o que fará com o valor captado. Por isso, decidiram criar um processo de aceleração de startups.

Nosso programa de aceleração em São Francisco, chamado Seed Accelerator, dura quatro meses. Investimos 150 mil dólares por 6% de participação na startups. Além de toda a nossa mentoria, a startup possui acesso a todos os benefícios de fazer parte da rede 500 Startups. Isso vai desde networking até descontos em serviços como o armazenamento em nuvem da Amazon e as análises de marketing digital da HubSpot.

Com o amadurecimento do nosso programa de aceleração e experiência, fomos criando novas verticais. Uma delas é a Ecosystem, que faz programas de educação investidora, eventos de investimento em startups e iniciativas de inovação corporativa, desde a busca de startups interessantes até a construção de projetos pilotos.

Desde quando vocês olham para as startups brasileiras e por quê?

Desde nossa primeira rodada de seleção, em 2011, temos startups brasileiras. O Brasil estava em um momento internacional muito bom e era visto como um cenário de oportunidade econômicas, com indicadores fortes de crescimento.

Continuamos com essa percepção. O Brasil representa 30% da economia da América Latina. A crise econômica que afetou o país nos últimos anos não mudou tanto nossa decisão de investimentos. O negócio pode ser inclusive uma solução para os momentos de recessão generalizada. A 99 conseguir captar tantos motoristas por ser uma opção também a desempregados, por exemplo.

Olhamos mais para como está a situação específica do setor e subsetor em que a startup atua, analisando indicadores microeconômicos, e possíveis questões legais. Resolver burocracias é uma ação que, certamente, ajudaria a gerar mais opções de investimento a fundos estrangeiros.

Qual o foco do novo espaço em Miami, longe do Vale do Silício?

Esse hub tem como foco explorar startups na costa leste dos Estados Unidos e na América Latina. Fizemos por lá um programa de road to Series A [no caminho para o investimento Série A], fase um pouco mais avançada do que a que buscamos no Vale do Silício.

O espaço é mais uma de nossas iniciativas de montar programas de aceleração com patrocínio de empresa pelo mundo. Já fizemos isso na Rússia, no Japão, no Uruguai e na Arábia Saudita. Esses programas de aceleração são diferentes dos vistos em São Francisco. Não há investimento nos negócios, mas também são atividades gratuitas ao empreendedor. Em São Francisco, investimos 150 mil dólares, mas 37,5 mil dólares são retidos para custear o programa. O foco e o tempo de aceleração também mudam, como vimos em Miami.

O surgimento de unicórnios aumentou as apostas na América Latina?

Sim, tanto na América Latina quanto na costa leste dos Estados Unidos, e daí a criação do novo hub. Vimos uma proliferação e um amadurecimento do ecossistema de startups nos últimos anos, o que explica o surgimento dos unicórnios nessas regiões.

Qual o caminho para uma startup brasileira receber investimentos da 500 Startups?

O primeiro passo é participar do nosso programa de aceleração em São Francisco. Estamos com inscrição para nossa 25ª leva de startups e o empreendedor provavelmente enfrentará a concorrência de outras 2.000, 2.500 empresas.

Na nossa primeira análise, levamos em consideração principalmente a confiança que temos na equipe. Isso porque investimentos em startups que estão começando e sabemos que tudo pode mudar, do produto ao modelo de negócios. Na sua inscrição, mostre como os fundadores e a empresa tiveram experiências e aprendizados. Coloque formação, trabalhos anteriores e resultados obtidos a partir de sua rede de relacionamentos.

Buscamos também empresas que já tenham um mínimo produto viável com receitas e que mostrem um crescimento significativo nos últimos meses, seja na base de usuários ou nos clientes corporativos. Mostre também métricas relacionadas, como taxa de cancelamento (churn) baixa.

Todos esses dados serão avaliados em conjunto, então não deixe a falta de formação em uma universidade de renome, por exemplo, barrar sua inscrição.

Qual a expectativa da 500 Startups com o Brasil?

Nossa expectativa com o Brasil é positiva. Vemos setores de destaque, ainda que não sejam os únicos. É o caso do comércio eletrônico, que é gigante por aqui, e também das fintechs [serviços financeiros], edtechs [serviços de educação], healthtechs [serviços de saúde], legaltechs [serviços jurídicos] e das startups de segurança digital. São mercados com grande tamanho e que apresentam diversas dificuldades no Brasil, o que se traduz em oportunidades.

*Por Mariana Fonseca para Exame.com