Como você se sentiria se você, seu filho, sua mãe ou um parente seu sofresse de uma doença grave e o remédio para amenizar os sintomas, ou até mesmo para a cura, fosse proibido? Essa é a realidade de muitas famílias brasileiras que sofrem com doenças como Alzheimer, Autismo, Câncer, Epilepsia, Esclerose múltipla, Parkinson e muitas outras.

O tema chegou a ser tratado em um documentário dirigido por Tarso Araújo e Raphael Erichsen.

Para mudar esse cenário, no Brasil já existem startups e importantes players lutando para oferecer ao mercado um produto acessível, eficaz e seguro, com baixo perfil de efeitos colaterais, ajudando a melhorar a vida de muitos portadores de doenças que podem se beneficiar com a cannabis.

Segundo o IBGE, aproximadamente 40% da população brasileira convive com alguma doença crônica, o que é potencialmente tratável através da cannabis medicinal.

A partir da cannabis, pode-se obter mais de 80 canabinoides, com diferentes propriedades e formas de uso. Os mais conhecidos são o tetraidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD), substâncias que os brasileiros podem usar para os tratamentos desde março de 2016, com a atualização da Portaria 344/98 pela Anvisa.

Em entrevista ao Startupi, o especialista Fabricio Pamplona, Farmacêutico e Doutorado em farmacologia de canabinoides, explica que médicos brasileiros já podem prescrever os medicamentos, a questão é que não é possível, ainda, comprar os remédios aqui no País. Sua produção é proibida, e faz com que muitas pessoas que precisam utilizá-los importem de outros países.

Fabricio Pamplona, Farmacêutico e Doutorado em farmacologia de canabinoides

Dados mais recentes da Anvisa mostram que mais de 900 médicos prescreveram a quase 5 mil pacientes medicamentos à base de cannabis no Brasil. Um estudo feito pela The Green Hub em parceria com a New Frontier Data, mostra que o potencial do mercado brasileiro , após 3 anos de uma regulamentação é de R$4,7 bilhões, com potencial de 3,4 milhões de pacientes.

Quando questionado neurocientificamente por que o uso da cannabis medicinal é ilegal, Fabricio responde, “na minha opinião, e reiterando uma frase que ouvi de meu ‘avô científico’, o Prof. Elizaldo Carlini, aposentado do Departamento de Psicobiologia da Unifesp, ‘não há motivos médicos ou científicos que justifiquem a Cannabis ser uma planta proibida'”.

Segundo ele, a presunção de potencial risco à saúde não é um argumento válido, afinal, a diferença entre veneno ou medicamento frequentemente é só uma questão de dose. Além disso, a toxicidade da Cannabis é baixíssima se comparada a outras drogas e mesmo outros medicamentos.

“A meu ver, com essa postura, o Brasil perde uma grande oportunidade. Temos aqui todas as condições para realizar com excelência todas as etapas do ciclo de produção de produtos à base de Cannabis. Mas falta vontade política, e com isso, estamos perdendo um território enorme para nossos vizinhos latino-americanos, que foram mais rápidos em implementar regulamentações adequadas à produção e distribuição destes produtos, a exemplo do que já acontece em muitos países da Europa, além de Israel e Canadá, que são as grandes referências mundiais”, destaca Fabricio.

Oportunidade de negócio

Viviane Sedola, cofundadora da Kickante, plataforma de financiamento coletivo, estava em busca de novos desafios e percebeu que o mercado da cannabis medicinal estava carente de informação correta e com base científica, por isso lançou em 2018 a Dr. Cannabis.

Viviane Sedola, CEO da Dr. Cannabis

A startup tem como proposta fazer um banco de dados de médicos e fornecedores de medicamentos à base de cannabis e pacientes com interesse em comprá-los. Dessa forma, os pacientes que utilizam a cannabis para doenças têm uma forma mais simples de conseguir uma prescrição e de comprar o medicamento.

Após o médico prescrever o remédio, a Dr. Cannabis realiza o processo de autorização e de importação do remédio. Dessa forma, a plataforma é financiada pelas próprias farmacêuticas, que pagam uma porcentagem pela venda dos produtos.

O portal também fornece conteúdo científico sobre a cannabis e seus efeitos medicinais. Assim, as pessoas também têm a oportunidade de ler sobre este tema em uma fonte confiável.

E se desenvolver uma startup no Brasil já é difícil, imagina para um segmento que é polêmico.

“O meu primeiro passo foi buscar opinião legal de advogados da área para ter certeza que estávamos adequados à lei e à segurança dos pacientes. A falta de informação ainda é a maior barreira e estamos gerando conteúdo constantemente para sanar isso. Chegamos a um modelo de negócio auxiliar, ou seja, a Dr. Cannabis não toca a planta, não tem medicamento próprio, mas atua facilitando a cadeia de tratamento com cannabis medicinal e todos os envolvidos nela”.

A startup lançou uma campanha de equity crowdfunding que em pouco mais de 60 dias atingiu a meta de R$750 mil por 15% da empresa. Em breve eles devem abrir uma nova captação.

Trocando a advocacia pela cannabis medicinal

Caio Abreu advogou em direito societário e mercado de capitais em grandes escritórios desde 2002, até que em 2014, foi convidado por um amigo para participar de um evento de cannabis medicinal na Unifesp.

“Ao final do terceiro dia do evento, depois de me emocionar com os relatos dos pacientes eu tive convicção que era o momento para iniciar um empreendimento para produzir e dar acesso aos pacientes brasileiros a derivados de cannabis”.

Caio Abreu, Fundador da Entourage Phytolab

Foi assim que nasceu a Entourage Phytolab, uma empresa de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos a base de cannabis. Caio obteve as licenças de pesquisa para importar legalmente uma matéria prima de alta qualidade, adequada ao uso farmacêutico e iniciou suas operações que vão desde a matéria prima, sua extração e transformação em um medicamento, passando por todos os testes laboratoriais e clínicos exigidos pela Anvisa, para chegar com um medicamento nas farmácias do país.

No momento a Entourage Phytolab está montando uma fábrica no Uruguai, onde a legislação é mais flexível e já existe uma melhor compreensão do potencial clínico da cannabis, além de um ambiente regulatório específico e mais flexível. Lá é possível produzir e importar matéria prima com maior velocidade, além de ter a indústria de produção piloto dos medicamentos construída e licenciada até o final de 2019.

Foto: Abracannabis

Aqui no Brasil, mais precisamente em Valinhos, município de São Paulo, a Entourage Phytolab conta com um laboratório de pesquisa e desenvolvimento e tem parceria com diversas instituições de pesquisa de alta credibilidade e competência, como a Unicamp, CIENP, entre outros centros de pesquisa e laboratórios.

Sobre os desafios de desenvolver um negócio nesse segmento ele destaca que, pelo fato de ser uma startup que tem um cash burning alto e um prazo de retorno longo, a defesa da tese para um investidor estritamente financeiro ou com visão de curto prazo, dificulta a captação de recursos.

Apesar disso, após investir todo seu capital na startup, ele conseguiu encontrar investidores que pensam em longo prazo, visando o valor agregado e a perpetuidade, o que possibilitou a viabilização de mais de US$6 milhões nos últimos 2 anos.

Custo da Cannabis Medicinal

Caio explica que os custos de tratamento com a Cannabis variam muito de doença pra doença. Em média, para epilepsias refratárias (aos tratamentos existentes), o custo mensal é de cerca de R$2 mil a R$6 mil por mês. Em doenças menos graves, pode-se ter um tratamento adequado por R$800.

Foto: Abracannabis

Se pudéssemos produzir no Brasil, desde a matéria prima ao produto acabado, utilizando formulações farmacêuticas e aplicando controles de qualidade de alto nível, Caio destaca que poderíamos ter um custo de cerca de 8 vezes mais baixo, superar uma redução superior a 15 vezes, na hipótese de algumas formulações que eles desenvolvem.

Fora as limitações, Caio acredita no potencial e em uma mudança no sistema “estamos avançando rápido no desenvolvimento, superando a burocracia, e temos todo o arcabouço jurídico, técnico e científico para termos um medicamento aprovado até 2021 e mais 4 até 2024”.

Benefícios para o País

Além claro, de atender as necessidades dos pacientes, que são o principal aspecto desta equação e os principais interessados, o especialista Fabricio destaca que, com a regulamentação, tem-se a organização de um segmento industrial todo, produzindo muita renda, emprego, desenvolvimento científico, tecnológico e utilizando várias das capacidades naturais do país nesta área, dada sua vocação agrícola e de fabricação de produtos fitoterápicos.

Como efeito colateral, mas não menos desejado, estaria potencialmente enfraquecendo o crime organizado, trazendo para o mercado lícito uma quantidade enorme de pessoas e de dinheiro circulante, que atualmente está nas mãos do tráfico. Por último, sem dúvida nenhuma aumentaria a qualidade dos produtos distribuídos, pois seriam devidamente fiscalizados.

Investimento no mercado de Cannabis Medicinal

Investidores como a ex-CEO do Yahoo e da Autodesk, Carol Bartz, e o atleta de futebol americano Joe Montana, considerado por três vezes o jogador mais valioso do Super Bowl, já estão investindo fortemente nesse mercado. Aqui no Brasil, também já existem iniciativas apoiando startups e empreendedores com soluções para esse segmento.

A The Green Hub, por exemplo, é uma iniciativa que tem como objetivo potencializar negócios desse mercado através de aceleração e investimentos.

Foto: The Green Hub

Marcel Grecco, CEO da The Green Hub, conta que junto de seus sócios, decidiu olhar para esse segmento por ser um mercado disruptivo, com um grande potencial de crescimento, e com grande demanda no desenvolvimento de novas soluções para o desenvolvimento desse novo mercado.

Para Marcel, o grande desafio dessas startups é a regulamentação, elas dependem da evolução da legislação no Brasil. Também é preciso entender o modelo de cada estado/ país onde pretendem atuar adequando o projeto para cada situação.

Para acelerar o desenvolvimento dos negócios eles oferecem um programa que dura em média 6 meses, onde os empreendedores tem acesso a ferramentas de inovação para suprir as ineficiências do negócio até que ele esteja preparado para ir para o mercado.

O primeiro ciclo de aceleração aconteceu em 2018 com duas startups e para 2019 eles esperam trabalhar com pelo menos 4 projetos. Eles buscam projetos que solucionam problemas reais do mercado e tenham potencial de escala.

Outro player que apoia negócios voltados para esse segmento é a SuperJobs, uma Venture Builder, que nasceu há 3 anos com o propósito de investir e ajudar grandes empreendedores e startups impactantes,  que de alguma forma, visam melhorar positivamente o mundo.

Hoje eles contam com 33 startups no portfólio, 21 aqui no Brasil e 12 através da sua participação no Fundo da Babel Ventures, nos Estados Unidos. Inclusive, a Dr. Cannabis nasceu dentro da Super Jobs VC.

No portfolio da Babel Ventures existem outras 3 startups ligadas ao mercado de cannabis. Marcos Botelho, Fundador do fundo, fala que eles decidiram investir nessa área para estar a frente de um mercado tao reprimido e promissor.

Marcos Botelho, Fundador da Superjobs VC

Para Marcos, os investidores ainda estão receosos para investir em negócios ligados à Cannabis medicinal, pois muita gente ainda confunde o medicinal com o recreativo. “Isso com o tempo vai mudar, a informação esta chegando a todos de forma mais estruturada, uma vez que você começa a ler, ouvir e entender os resultados e alívios para os pacientes crônicos, as opiniões vão mudando naturalmente. Existe mais dúvidas do que receio, no sentido de temor”.

Tabu

Caio, da Entourage Phytolab, recomenda a todos a leitura do documento da Health Canada, uma das agências de saúde mais respeitadas do mundo para profissionais de saúde.

Para ele, a indústria de cannabis tem essa característica de o tratamento partir, na maior parte das vezes ainda hoje, do paciente. Por isso é preciso sim incluir o estudo do sistema endocanabinoide nas faculdades de medicina e farmácia, e capacitar os médicos, para que, estes sim, possam melhor cuidar da saúde de seus pacientes, com os melhores recursos terapêuticos e menores efeitos colaterais.

Depoimento: Abracannabis

O próprio Caio teve um caso em sua família, quando sua mãe usou cannabis para efeitos da quimioterapia, e foi um sucesso. Ele conta que ela recuperou 8 quilos em menos de um mês, após ter perdido 12 quilos em 2 meses fazendo uso diário de cannabis ilegal inalada em 2006.

“Os pacientes só conseguirão se beneficiar plenamente do potencial terapêutico da cannabis na medida em que os médicos entendam e possam contar com medicamentos registrados, como quaisquer outros que encontramos na farmácia, que passaram pelos testes clínicos e rígido controle de qualidade. O mercado medicinal, mesmo com uma nova regulamentação nos moldes canadense, israelense e alemão, nunca convencerá um volume de médicos suficientes para o real potencial do mercado brasileiro”, destaca Caio.

“A guerra às drogas traz como efeito colateral muito mais vítimas do que a planta sequer já fez. A decisão de proibi-la há aproximadamente 50 anos foi fortemente influenciada por aspecto culturais da época e foi pouquíssimo baseada em evidências científicas. Tanto é que há grandes chances da UNODC rever a classificação da planta, a partir da avaliação de um grupo de estudo iniciado em junho de 2018, cujos resultados devem ser publicados este ano”, finaliza Fabricio Pamplona, Farmacêutico e Doutorado em farmacologia de canabinoides.

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