* Por Anderson Arcenio

Venture builder, estúdio ou fábrica de startups, existem vários termos que tratam do mesmo modelo de empresa. Você já ouviu falar e sabe o que são? Apesar de já termos vários casos operando há vários anos, ainda é um modelo pouco conhecido, ou ao menos pouco compreendido, aqui no Brasil.

Breve contexto

As startups são uma representação de um movimento que traz agilidade, inovação e transformação digital para as empresas, em uma velocidade muito maior se comparada a outras épocas.

Lembrando que entendemos startup como uma empresa que está criando um produto ou serviço inovador, e se encontra em processo de busca e validação de um modelo de negócio viável, repetível e escalável.

Mais do que criar produtos e transformar ideias inovadoras, o foco dos envolvidos em uma startup deve estar em encontrar um modelo de negócio sustentável economicamente. É baseado neste modelo que a proposta de valor conseguirá ser entregue em alta escala e aquela pequena startup conseguirá se transformar em uma empresa bem sucedida.

Este tipo de empresa está e vai continuar cada vez mais remodelando setores e negócios tradicionais, temos diversos casos no setor financeiro, de saúde, hotelaria, imóveis, educação, agronegócio e etc…

Naturalmente, toda essa inovação vem sendo estimulada por instrumentos de investimento, que assumem o alto risco na expectativa de um alto retorno.

Temos por exemplo: investidores-anjo, aceleradoras, incubadoras e fundos de venture capital.

Um novo modelo

Trabalhando em conjunto, ou como uma alternativa às formas de investimento acima, temos um outro modelo que vem crescendo nos últimos anos.

Um modelo que busca diluir o alto risco do setor e aumentar sua capacidade de resultado e impacto, desenvolvendo através de um processo repetível novas startups.

É assim que podemos enxergar uma venture builder.

Uma empresa que cria ou investe em novas startups através de seus próprios recursos, usufruindo de sua estrutura, rede e conhecimento compartilhado.

Diferenças nos formatos

Mesmo dentre as empresas que se intitulam como uma “venture builder” existem várias diferenças, tanto estratégicas quanto operacionais.

Algumas apenas criam startups com ideias internas. Já outras investem em ideias externas em fases iniciais. E outras ainda investem em startups já validadas.

Algumas oferecem equipe para áreas complementares como jurídico, contábil… Já outras oferecem também equipe de tecnologia e marketing. E outras ainda aportam recurso financeiro.

Algumas formam empreendedores. Já outras contratam empreendedores para serem cofundadores. E outras ainda investem em times mais prontos.

Algumas adquirem uma pequena participação da empresa. Já outras adquirem uma participação proporcional ao investimento do estágio. E outras ainda se tornam majoritárias da startup.

Algumas possuem um período limite de investimento. Já outras continuam ativas operacionalmente por todo tempo.

E não existe certo ou errado. Apenas são formas diferentes de se executar e atingir o mesmo objetivo. Acredito que com o tempo alguns dos formatos se mostrarão mais eficientes em termos de resultados e com isso serão mais adotados. Mas vivemos em um mundo de experimentação constante, sempre estaremos buscando melhores formas de executar a missão das nossas empresas e de criarmos novos negócios.

Pontos em comum

Independente do formato seguido, existem alguns pontos em comum em todas elas.

Aproveito para os compartilhar com um pouco do que aprendemos nestes quase 3 anos de Digital Labs:

  • Entendimento de que é um investimento de risco

É necessário entender que ainda é um modelo de investimento de risco e que o retorno dele se dará a médio e longo prazo, somente com o sucesso das startups ali criadas.

Portanto é necessário ter capital suficiente para rodar a empresa no curto prazo.

Para isso, algumas prestam serviços de fábrica de software ou consultoria para capitalizar a empresa, outras levantam fundos de investimento e outras ainda possuem estrutura financeira para investir, seja dos próprios sócios fundadores ou de uma grande empresa por trás.

Sobre o parágrafo acima, temos dois pontos para comentários adicionais.

Boa parte deste perfil de empresa nasce com ao menos um fundador que passou pelo ciclo completo, da ideia ao exit. Toda esta bagagem é fundamental para a definição do processo de criação das startups da venture builder.

O outro ponto é que este pode ser um excelente modelo de inovação interna. Temos algumas empresas fora, e já no Brasil, usando deste modelo para aumento da agilidade, com a diminuição do risco e custo de inovação, e para vantagem competitiva, com a criação de novas oportunidades de negócio.

Por fim, é importante ter cuidado com o cap table das startups criadas ou investidas. Se a parcela que ficar com a venture builder for muito expressiva, isso poderá atrapalhar futuras rodadas de investimento para aquela startup.

  • Desafios de priorização

Fazer uma startup já é difícil. Imagine ter várias rodando simultaneamente.

Crie uma tese de investimento. Focar em nichos ou modelos de negócio te ajudará a criar um processo mais bem definido para desenvolvimento das startups.

Defina o que está incluso no seu investimento. Capital, horas de equipe compartilhada em cada setor, período limite de estrutura. Ter esta regra clara te ajudará na priorização de recursos e suporte igual em todas startups.

Traga bons empreendedores. Ter cofundadores exclusivos será importante. Busque pessoas que além do conhecimento técnico no mercado, tenham, principalmente, atitude empreendedora.

  • Compartilhamento de recursos

Dependendo do estágio da startup, ela vai necessitar de mais ou menos trabalho de alguns setores de atuação.

No modelo tradicional de investimento, o empreendedor que consegue o investimento precisa montar uma equipe qualificada ou buscar fornecedores para todas as áreas.

Já no modelo de venture builder, ela fornece para a startup boa parte desta equipe, deixando o empreendedor diretamente envolvido focado em rodar o negócio principal e buscar o tão desejado encaixe com o mercado para posterior escala.

O uso compartilhado dos recursos é um dos principais benefícios do modelo.

  • Conhecimento compartilhado

Outro grande benefício do modelo é o conhecimento compartilhado.

Sabemos que o risco de uma startup é alto e em vários casos, mesmo com uma boa ideia, um bom time, investimento, a startup não consegue avançar. Nestes casos, todo o conhecimento desenvolvido acaba sendo “perdido” ou ao menos diluído com um futuro fechamento da empresa e desmanche da equipe.

Já no caso de uma venture builder, o conhecimento e equipe ficam na empresa. E todo este aprendizado compartilhado é utilizado para amadurecer mais seu processo de desenvolvimento e com isso aumentar as chances de acertar nos próximos investimentos.

Conheça mais e experimente

Temos vários exemplos legais tanto no Brasil, como a Digital Labs, Construtech Ventures, FCJ Participações, SuperJobs, Orange Founders… E algumas super referências de fora como a Rocket Internet, eFounders, Betaworks, Expa, Obvious Ventures…

É um modelo relativamente novo, mas que já tem gerado casos de sucesso e resultados financeiros melhores que alguns dos modelos tradicionais.

Portanto, seja você um empreendedor, investidor ou gestor de uma grande empresa, estude, avalie e experimente o modelo!


Anderson Arcenio é cofundador e CEO da Digital Labs, venture builder responsável por criar startups como o Salus e Protarefa. Também é cofundador do Livebuzz e Sócio da Dinamize. Com 14 anos de experiência com projetos digitais, é pós-graduado em Gerenciamento de Projetos – práticas do PMI, pelo Senac e bacharel em Sistemas de Informação, graduado pela Universidade Estadual Paulista – UNESP.