* Por Francisco Saboya

Uma das características da Sociedade da Informação é a desmaterialização da vida econômica, decorrente da miniaturização dos produtos – em especial dos dispositivos eletrônicos – do aumento da capacidade de processamento computacional e da substituição progressiva de estoques de bens por fluxos de dados nos processos de geração de valor.

Estoques ocupam lugar no espaço; fluxos ignoram esses limites e fluem livremente com as ideias. Uma das metáforas mais impactantes dos anos 90 vem com a internet: tratava-se de anunciar um novo mundo (Nicholas Negroponte, pesquisador do MIT, Being Digital), em que os bits substituem os átomos; em que a economia era digital, e não mais industrial. Parecia um pouco de ficção, e o Porto Digital nasce nesse contexto. Por isso falamos na coluna anterior que a culpa era de um IBM 1401, equipamento lançado pela companhia em 1959 e adquirido pela Prefeitura do Recife em 1963.

A relevância do hardware nos dias de hoje – tomados pelas redes sociais, sistemas avançados de inteligência artificial, big data, robótica e internet das coisas – parece fora de propósito. Mas não naqueles tempos. Assim, definido o nosso marco zero, a questão agora é identificar os momentos-chave dessa escalada e traçar uma cronologia que vá além da sequência morosa de fatos e datas. Para ajudar na tarefa, nos valemos da Triple Helix. Um de seus autores, Henry Etzkowitz, concebe a Hélice Tríplice como um modelo de inovação em que a universidade, a indústria e o governo, como esferas institucionais primárias, interagem para promover o desenvolvimento social e econômico por meio da inovação e do empreendedorismo.

No processo de interação, novas instituições secundárias são formadas, isto é, “organizações híbridas”. O Porto Digital pode ser visto com uma destas instituições, e a adoção do modelo de organização compartilhada tem sido um dos seus fatores de êxito. Acreditamos assim que uma das formas mais apropriadas de se escrever a história do Porto Digital seja ressaltando os feitos de cada um dos seus atores principais, de cada pá dessa hélice tripla. Então vamos aos fatos.

A POLINIZAÇAO (60s) – A década de 60 se caracteriza pela implantação de um parque de computadores de grande porte por entes públicos para uso interno e instalação dos primeiros negócios privados de prestação de serviços.

  1. Governo – O pontapé dado pela Prefeitura do Recife foi secundado pela instalação de computadores de grande porte pela SUDENE, Chesf, Secretaria da Fazenda e Condepe. Os anos 60 viram ainda a criação das duas empresas públicas de processamento de dados por parte da Prefeitura e do Estado, respectivamente EMPREL e CETEPE.
  2. Empresas – O Banorte adquiria seu primeiro computador e se preparava para fazer história na história da informática em Pernambuco. Ainda na virada da década de 60, os dois principais players globais da computação, IBM e Burroughs, instalam-se no Recife e contribuem para a formação de uma cultura técnica e de negócios no campo da informática. O Recife aprendeu a emitir notas fiscais antes mesmo que soubesse desenvolver sistemas.
  3. Universidade – A UFPE também instala seu CPD – Centro de Processamento de Dados para automatizar tarefas administrativas e acadêmicas.

A FECUNDAÇÃO (70s) – Nos anos 70 começa a ocorrer a estruturação de negócios privados locais e as primeiras iniciativas de formação de capital humano de nível superior, sem nenhum fato especialmente relevante na esfera pública. Interações entre os atores começam a surgir.

  1. Governo – Consolidação das estatais e da cultura do processamento de dados na gestão pública.
  2. Empresas – Criação da Procenge (1972), a mais antiga empresa em funcionamento no ecossistema do Porto Digital, e da Elogica (1978), realizando atividades típicas de birô de serviços para o setor privado e para prefeituras e governos de vários estados que não possuíam infraestrutura computacional própria.
  3. Universidade – A UFPE cria o Departamento de Estatística e Informática (1974), sendo oferecidos bacharelado e pós-graduação em ciência da computação. No ano de 1975 a Universidade Católica dá inicio ao funcionamento de seu curso de graduação.

A PROPAGAÇÃO (80s) – Surgem negócios privados de maior porte e complexidade, e a informática estatal amplia seu papel na gestão pública. A área de informática cresce de status na universidade.

  1. Governo – A automação crescente dos serviços de informática racionaliza processos e contribui para a reestruturação organizacional da administração pública, resultando na criação da FISEPE na virada da década.
  2. Empresas – Retornam à cena o Banorte, com a criação da Banorte Sistemas e Métodos e o desenvolvimento dos primeiros sistemas de automação bancária (1982), e o Grupo Elogica, com o lançamento do Corisco, primeiro computador projetado e construído em Pernambuco (1983).
  3. Universidade – Criação do DI – Departamento de Informática da UFPE (1983), desmembrado do Departamento de Estatística e Informática do Centro de Ciências Exatas e da Natureza.

A GERMINAÇÃO (90s) – Pernambuco vive grave crise econômica e perde relevância (sua participação relativa no PIB regional cai de 24,6% em 1970 para 17% em 1995; e o PIB nacional cresce, entre 1990-1995, mais que o dobro do PIB do estado). Novas interações e conexões entre as iniciativas desenvolvidas nos períodos anteriores ganham volume, gerando a ideia de um ecossistema empreendedor e inovador em tecnologia da informação de classe mundial para inserir o estado no novo contexto econômico global.

  1. Governo – Diversas iniciativas públicas no campo da infraestrutura de dados e internet foram essenciais para a germinação do ecossistema. Destacam-se a instalação do PoP-PE (ponto de presença na internet), em 1990, e a implantação no estado da Rede Nacional de Pesquisa pelo ITEP em 1995; a criação da Rede Cidadão na Emprel (primeira freenet municipal na América Latina, em 1994); a criação do Núcleo Softex Recife, ação coordenada pela Prefeitura do Recife em conjunto com Assespro (1994); a doação pela Prefeitura de prédio para instalação do ITBC – Information Technology Business Center (1998), edifício inteligente que anos mais tarde viria a se tornar uma das âncoras do Porto Digital.
  2. Empresas – Cerca de 15 novos empreendimentos de desenvolvimento de software, muitos deles formados por empreendedores egressos da dissolução do grupo Banorte, foram incubados no Softex. Vários contribuíram para a primeira onda de povoamento do Porto Digital no início dos anos 2000. Mas como a grande transformação no mundo dos negócios e na própria vida social viria da implantação da internet comercial em meados dos anos 90, há que se ressaltar o pioneirismo do primeiro provedor comercial do estado, a Truenet (1995).
  3. Universidade – Contribuiu com pelo menos quatro iniciativas seminais nessa década: a criação do Doutorado em Ciência da Computação da UFPE (1992); a criação do CESAR (1996); o movimento Delta do Capibaribe (publicação de artigo-manifesto de Silvio Meira O Conhecimento e o Delta do Capibaribe)/Projeto Sociedade da Informação/Movimento de Cultura Digital Popular, todos em 1997); e a elevação do Departamento de Informática à categoria de Centro em 1999.

O DESENVOLVIMENTO (00s) – O Porto Digital é formalmente criado em dezembro de 2000, como reflexo de uma articulação arquitetada e coordenada pelo Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco e a Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia, e com apoio de segmentos do empresariado de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) do estado. Os marcos da evolução do Porto Digital a partir desse ponto serão objeto da terceira e última parte dessa cronologia.


Francisco Saboya é Graduado em Ciências Econômicas (1982) e mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Pernambuco-UFPE (2006). É professor das disciplinas de Macroeconomia e Gestão de Sistemas e Tecnologias da Informação na FCAP-UPE. Ocupou por 11 anos (2007 – 2018) o cargo de Diretor-Presidente do Porto Digital, parque tecnológico sediado em Recife-PE. É conselheiro do CESAR – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife e do Softex Recife.