* Por Francisco Saboya

Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet. Com este tema, o Enem quebrou uma longa série de conteúdos sociais e identitários e pautou um assunto relacionado com o avanço tecnológico em uma sociedade de dados. Acertou mais do que errou. Só pra ilustrar, nos anos anteriores os temas das redações foram Desafios para a formação dos surdos no Brasil (2017); Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil (2016); A persistência da violência contra a mulher no Brasil (2015); Publicidade infantil em questão no Brasil (2014); Lei Seca no Brasil (2013).

Essa guinada deslocou o foco de questões de inevitável conotação ideológica e endereçou um assunto transversal de grande impacto no cotidiano das pessoas, a começar deles, dos jovens diretamente interessados no exame. Além do mais, ofereceu a oportunidade de se refletir sob uma perspectiva global. O mundo é maior do que o Brasil e é conveniente, como exercício pedagógico, estimular os estudantes a explorarem elementos que vão além das fronteiras do país.

A vida social, assim como os negócios ou a política, é cada vez mais estruturada em fluxos intensos de dados, conectando pessoas e empresas em grandes redes de interações. Retire do seu cotidiano Google, Facebook, Whatsapp, Spotify – apenas para ficar nestes – e, principalmente, exclua a internet – o principal responsável por tudo – e veja o que sobra. Operações complexas, como o controle e sincronização de milhares de sinais de trânsito em grandes cidades, serviços bancários ou exames de alta complexidade, tudo são dados em fluxos. Como a vida é digital, a situação só tende a se intensificar, pois se hoje são 4 bilhões de pessoas usuárias da internet (53% da população da terra), sendo 3,2 bilhões em redes sociais, imagine o que ocorrerá com a explosão do fenômeno da Internet das Coisas (IoT)!

Nos próximos anos, centenas de bilhões de objetos conectados, boa parte dotados de alguma inteligência própria, estarão autonomamente gerando e consumindo informações para automação de rotinas práticas nas residências, na medicina, na produção agrícola, nas indústrias [cada vez mais automatizadas em sistemas produtivos integrados por informações em rede – outro fenômeno, o da chamada Indústria 4.0], nas ruas dotadas de sistemas de informação para controle da mobilidade e orientação do tráfego por veículos sem motoristas. As aplicações são ilimitadas e os benefícios, incontáveis.

Mas, a um tempo em que abre novas perspectivas, o mundo digital também cobra seu preço. O volume de dados em circulação e as ferramentas de armazenamento, tratamento e análise cada vez mais poderosas habilitam negócios e impulsionam a economia digital, alimentada por registros informados pelos próprios usuários dos serviços oferecidos por plataformas como aquelas mencionadas mais acima. E a fatura chega de diversas formas: invasão de privacidade, campanhas agressivas de marketing dirigido, uso não ético dos dados pessoais, manipulação da opinião pública através de informações falsas, disseminadas em redes sociais por métodos ilegais de captura de cadastros. A resposta a essas distorções tem vindo mais da esfera jurídica do que da tecnológica, embora aqui os avanços no campo da comunicação móvel, geoposicionamento, criptografia de dados, desenvolvimento privacy by design venham possibilitando a prestação de serviços digitais sem necessariamente se ter que invadir a intimidade do usuário.

A dimensão legal é uma discussão antiga, mas cresceu bastante principalmente depois dos escândalos envolvendo Facebook e Cambridge Analytica. Estas duas empresas foram acusadas de manipular dados de quase 100 milhões de usuários e influenciar nas últimas eleições presidenciais americanas e a favor do Brexit. Em maio deste ano entrou em vigor, na Europa, o Regulamento Geral de Proteção de Dados. Meses depois, o Brasil aprovou sua própria Lei de Dados, que passa a vigorar em fevereiro de 2020. Basicamente pune a empresa ou pessoa que faça uso não consentido dos dados do usuário.

Por esses motivos, o Enem acertou. E onde teria errado? Na pegadinha, essa mania infeliz de avaliadores colegiais. O raciocínio deve ser: não basta conhecer o assunto e discorrer sobre ele: tem que ser astuto e sagaz pra não cair em armadilhas. É uma estratégia pedagógica inócua, que em nada contribui para o aprendizado. Parece haver um componente de sadismo por detrás. Conversei com alguns estudantes e a associação com o processo eleitoral recente, e com as fake news que dominaram parte da agenda de campanha, foi óbvia. Ocorre que o assunto não tem a ver com fake news, como fica claro pelos chamados textos motivadores que acompanham o caderno de prova; mas sim, com o controle de dados, seus usos e impactos sobre o comportamento das pessoas e, em especial, sobre decisões dos consumidores – essas estruturas miméticas e sugestionáveis. O tema é sério e profundo. Como as provas ficam prontas no início do segundo semestre, bem que o Enem podia alertar os alunos para não se deixarem influenciar pelo contexto eleitoral de mentiras e pós-verdades, focando no que interessa de fato.


Francisco Saboya é Graduado em Ciências Econômicas (1982) e mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Pernambuco-UFPE (2006). É professor das disciplinas de Macroeconomia e Gestão de Sistemas e Tecnologias da Informação na FCAP-UPE. Ocupou por 11 anos (2007 – 2018) o cargo de Diretor-Presidente do Porto Digital, parque tecnológico sediado em Recife-PE. É conselheiro do CESAR – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife e do Softex Recife.