Inteligência em investimentos na prática: WebSummit e além

* Por João Chebante

“Nada é permanente, exceto a mudança.” A frase de Heráclito é um mantra para quem quer empreender – independente do segmento. Tradicional termo usado em startups, o “pivot” também fez repensar sobre minha atuação como consultor de empresas

Se antes atuava diretamente com empresas, aonde o mindset do cliente era fundamental para desenvolver estratégias e táticas de sucesso… Agora a atuação da Sucellos (outrora Chebante Brand Strategy) é justamente apoiar com maior assertividade a estratégia de firmas de private equity, family offices e venture capital a encontrarem e acelerarem o crescimento de seus ativos, através de sua rede de contatos e parceiros e know-how de 15 anos de atuação em diferentes mercados e portes.

No frigir dos ovos, como me disse Greg Sands – veterano investidor e cofundador do Netscape no WebSummit, é sempre mais sobre gente do que negócios. E é mais fácil e proveitoso auxiliar com capital as melhores cabeças do que mudar a forma de pensar de quem tem um diamante na mão, mas não sabe lapidar.

Isto posto, lá fui eu via Sucellos desenvolver meu Customer Discovery. E minha jornada de descobertas – que incluiu estudos, presença no fórum da ABVCAP em outubro, reuniões com VC e PEs em Londres e conversas com pessoal do Brasil e Europa durante o WebSummit me trouxe algumas reflexões que gostaria de compartilhar com vocês:

  • O viés que disse e acredito sobre pessoas não é uma cláusula pétrea – há quem acredite e mostre resultados também sob a forma que a idéia quando poderosa está acima das pessoas. É a “alquimia” da boa escolha de portfólio, aonde a inteligência de mercado pode atuar junto com análise de macro, microambiente e perfil da equipe em associação com profissionais de recursos humanos.
  • A maturidade do mercado brasileiro de investimentos em negócios é bem inferior a vista no exterior. Para terem uma idéia, Londres possui mais de 400 veículos de aporte em empresas. Há uma liquidez incrível e não somente competição entre projetos, mas também por projetos que as firmas consigam aportar. O mesmo se aplica ao Vale do Silício.
  • O grande diferencial – mesmo em tempos de forte liquidez no mercado de capital de risco – está no smart money. Greg e outros investidores no eixo Londres-Lisboa citaram que quando o projeto é bom (validado, em processo de expansão – Customer Creation) a missão dos seus líderes é achar o aporte que não somente gere caixa, mas conexões e insights para acelerar o projeto. Ainda que o contingente e maturidade sejam menores, não é muito diferente no Brasil.
  • Há um tímido interesse dos fundos gringos em aportar receitas no nosso país. Ainda aguardam a definição e evolução tanto do macroambiente econômico quanto do microambiente concorrencial e de “clientes” (o segmento de startups) para fazer investidas maiores. Chama a atenção que trata-se de volumes menores (por causa da moeda) para projetos com a mesma escala e/ou mercados com maior território e contingente populacional. Faltam agentes – e esta é uma missão de quem trabalha neste segmento – de fomentar esta ponte de informações e oportunidades entre países.
  •  Dado estatístico para uma constatação: 70% dos unicórnios formados na última década receberam aportes de corporate ventures (fundos lastreados no dinheiro de grandes empresas). E esta iniciativa no Brasil praticamente inexiste. Falta nas grandes empresas a figura do agente que segregue um pedaço do capital em caixa e/ou dos sócios e faça a ponte com bons projetos. Isso vale também para family offices.
  • Há uma profusão de venture builders e os projetos de aceleração cooperativas estão num patamar próximo da maturidade, o que é bom para o ecossistema, mas vai demandar o próximo passo. Não basta somente “namorar” e gerar insights para novos negócios como ferramenta de captação das melhores práticas. O futuro de muita corporate pode estar na alienação parcial (compra de participação) ou incorporação de startups – o que grandes empresas dos EUA e Europa já estão fazendo.
  • Foi notória a presença de investidores brasileiros de diferentes estágios no WebSummit, “sugando” as melhores idéias e práticas não somente de negócios, mas dos seus pares. Vem novidades e formatos interessantes por aí.
  • Uma provocação: investidores maduros vão atrás da inovação em qualquer lugar do mundo, desde que tenha coerência com o seu mercado de atuação e/ou tese de investimento. É uma das grandes diferenças entre os capitalistas do Silício e da Europa. E que vemos por aqui também em virtude da nossa ainda baixa maturidade.

Mês de março consegui uma folga de um mês de trabalho pela Europa para visitar o museu da Ferrari em Maranello. E na entrada a frase-chave do fundador Enzo Ferrari dizia “A melhor vitória é sempre a próxima.”

O ano de 2018 ainda não acabou, mas foi memorável para o nosso mercado. Mas 2019 vem com a perspectiva de ser o ano da aceleração do investimentos em novos e promissores projetos. Tal aumento de liquidez vai demandar estratégia tanto na elaboração da tese de investimento – quem é a investment persona – quanto na avaliação, validação e posterior supervisionamento dos projetos.

Existe beleza no caos. É dele que nasce uma nova ordem. E a nova ordem do mercado de capitais brasileiro vai auxiliar cada vez mais as boas histórias que podem vingar aqui, num estande em Lisboa ou em qualquer lugar do mundo.

* Por  João Chebante, CEO da Sucellos, nova marca da Chebante Brand Strategy, que visa levar inteligência aos processos de investimento, fusão e aquisição de empresas

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